Certidões de vida e identidade

Séries

14.01.13

Esta é a segun­da par­te da série “Escolas e sam­ba: Crônica de um divór­cio anun­ci­a­do”. Clique aqui para ler a pri­mei­ra par­te, Do ran­cho-esco­la ao “Professor” Paulo.

Os heróis fun­da­do­res das esco­las de sam­ba foram antes de tudo músi­cos e poe­tas. Na Portela bri­lhou Paulo; na Mangueira, Cartola; no Estácio, Ismael; no Salgueiro, Antenor Gargalhada; no Império Serrano, Mano Elói. Todos, uns mais outros menos, ten­do gra­va­da, em sua iden­ti­da­de de sam­bis­tas, a pala­vra mági­ca: “com­po­si­tor”.

Durante mui­to tem­po, per­ten­cer ao sele­to gru­po de com­po­si­to­res de uma esco­la de sam­ba era um pri­vi­lé­gio e uma hon­ra, que depen­dia do talen­to poé­ti­co e musi­cal do sam­bis­ta. Aceito na ala, por indi­ca­ção ou mes­mo “por con­cur­so”, o com­po­si­tor esta­va auto­ri­za­do a mos­trar seu talen­to no ter­rei­ro. O núme­ro de sam­bas que pode­ria apre­sen­tar, a cada ano, vari­a­va de esco­la para esco­la, sen­do em geral dois.

Esses sam­bas tinham vida cur­ta, pois a reno­va­ção do reper­tó­rio era obri­ga­tó­ria a cada ano. Mas essa cur­ta exis­tên­cia resu­mia-se ao ter­rei­ro, pois mui­tos deles, embo­ra nun­ca gra­va­dos, per­ma­ne­cem até hoje na memó­ria do mun­do do sam­ba, como alguns escri­tos por Jonas da Silva, o legen­dá­rio Zinco, e seu par­cei­ro Jaguarão, dos Filhos do Deserto, da qual nas­ceu a Lins Imperial; de Osório Lima, da Beija Flor e do Império Serrano, autor de letras magis­tral­men­te des­con­cer­tan­tes; e de tan­tos outros.

Ensaio nos anos 1950, quando o mundo do samba era um universo à parte, com regras próprias (José Medeiros/Acervo Instituto Moreira Salles)

Apresentados no ter­rei­ro, des­ta­ca­vam-se aque­les sam­bas mais do agra­do das pas­to­ras, que eram o termô­me­tro do suces­so, com suas vozes entu­si­as­ti­ca­men­te esga­ni­ça­das.  E o mes­mo valia para o sam­ba-enre­do.

Chegado o mês de dezem­bro, a esco­la efe­ti­va­men­te se mobi­li­za­va para o des­fi­le car­na­va­les­co. A comis­são de car­na­val se reu­nia com os com­po­si­to­res e entre­ga­va a eles o his­tó­ri­co do que a esco­la ia apre­sen­tar, for­ne­cen­do as expli­ca­ções neces­sá­ri­as. De pos­se des­se his­tó­ri­co e às vezes recor­ren­do a pes­qui­sas com­ple­men­ta­res, o com­po­si­tor fazia o sam­ba, qua­se sem­pre em par­ce­ria.

Num dia deter­mi­na­do, os sam­bas-enre­do eram apre­sen­ta­dos. Aí, cada esco­la usa­va seus cri­té­ri­os de sele­ção, como num cam­pe­o­na­to. O melhor era o esco­lhi­do, acon­te­cen­do, mui­tas vezes, um ou mais con­cor­ren­tes reti­ra­rem-se for­mal e expres­sa­men­te da dis­pu­ta para apoi­ar aque­le sam­ba que con­si­de­ra­vam melhor que o seu. Isso, antes de o sam­ba-enre­do tor­nar-se uma mer­ca­do­ria como outra qual­quer.

O fato é que, nos anos 1950 e 60, o mun­do do sam­ba se estru­tu­ra­va, real­men­te, como um uni­ver­so à par­te, com regras, usos, cos­tu­mes e até um voca­bu­lá­rio pecu­li­ar. Nesse uni­ver­so, as célu­las prin­ci­pais eram as esco­las, cada uma delas, por sua vez, sur­gi­das em geral de núcle­os fami­li­a­res que as diri­gi­am e davam supor­te.

Era um tem­po em que ale­go­ri­as, fan­ta­si­as e até boa par­te dos ins­tru­men­tos, como pan­dei­ros e tam­bo­rins, eram de fabri­ca­ção domés­ti­ca; e no qual o que valia era a par­ti­ci­pa­ção comu­ni­tá­ria. No Salgueiro, por exem­plo, para o car­na­val de 1961, que tema­ti­za­va o Aleijadinho, a ban­dei­ra, que apre­sen­ta­va requin­ta­dos orna­tos bar­ro­cos, foi bor­da­da por pas­to­ras da esco­la.

Isso pode ser vis­to, cla­ra­men­te, em um livro tão fun­da­men­tal quan­to des­co­nhe­ci­do que é Império Serrano, pri­mei­ro decê­nio, de Francisco de Vasconcellos (ed. par­ti­cu­lar, 1991). Na far­ta docu­men­ta­ção tra­zi­da pelo livro, con­tras­tan­do com os orça­men­tos mili­o­ná­ri­os de hoje, vamos ver dire­to­res fazen­do “vaqui­nha” para finan­ci­ar o car­na­val de sua esco­la até a libe­ra­ção da ver­ba ofi­ci­al; bem como ofí­cio soli­ci­tan­do madei­ra para cons­truir um bar­ra­cão para que nele a esco­la rea­li­zas­se seus ensai­os fecha­dos, guar­das­se seu mate­ri­al, con­fec­ci­o­nas­se e alo­jas­se seus car­ros ale­gó­ri­cos para “pro­te­gê-los da intem­pé­rie”. Vamos ver até ins­tru­men­tos toma­dos empres­ta­dos a outras agre­mi­a­ções e mes­mo a colé­gi­os da vizi­nhan­ça.

Na mes­ma medi­da, vamos ter notí­cia de ensai­os adi­a­dos em res­pei­to ao luto de famí­li­as ou pes­so­as liga­das à agre­mi­a­ção ou à comu­ni­da­de. Mas vamos cons­ta­tar, tam­bém, toda a ale­gre e exu­be­ran­te soci­a­bi­li­da­de do mun­do do sam­ba, expres­sa em visi­tas, con­gra­ça­men­tos de toda espé­cie e, sobre­tu­do, mui­ta fes­ta.

Os locais des­sas fes­tas eram gafi­ei­ras e clu­bes como o Dancing Vitória do Brasil, em Irajá, no cru­za­men­to das atu­ais ave­ni­das e anti­gas estra­das Automóvel Clube e Monsenhor Félix — onde, mais adi­an­te, se situ­a­va o Danúbio, que, ape­sar de osten­tar o peca­mi­no­so qua­li­fi­ca­ti­vo de “boa­te”, tam­bém era salão de fes­tas do sam­ba. Eram tam­bém o Pietense, na rua João Martins, Piedade; o Cachopa Dancing, na estra­da do Portela; a ban­da Portugal, na Praça Onze; o High-Life Club, na rua Santo Amaro; o Para Todos, em Pavuna; a Cedofeita, em Bento Ribeiro, e mes­mo a baía de Guanabara.

E o for­ma­to das fes­ti­vi­da­des vari­a­va des­de o bai­le até o pique­ni­que em Paquetá, pas­san­do pelas “monu­men­tais” pas­se­a­tas de auto­mó­veis; pelos pas­sei­os marí­ti­mos na baía, a bor­do do legen­dá­rio navio Mocanguê; pelas fes­tas juni­nas à cai­pi­ra, pelos tor­nei­os de par­ti­do-alto e pelos bati­za­dos de alas; até uma eclé­ti­ca pro­gra­ma­ção em cujo folhe­to de divul­ga­ção lia-se:

“…6 h. — Hasteamento da ban­dei­ra, com gran­de quei­ma de fogos; 7 h. — Abertura da urna para vota­ção da nova dire­to­ria; 8 h. — Calouros infan­tis, com prê­mi­os para os ven­ce­do­res; 10 h. Partida de fute­bol de Casados X Solteiros (…); 11 h. — Início da fei­jo­a­da; 18 h. — Término da fei­jo­a­da; 19 h. — Grande bai­le, ani­ma­do por gran­de orques­tra; 21 h. — Apresentação das can­di­da­tas a Rainha (…)”.

Nessas fes­tan­ças, comia-se bem e mui­to. Principalmente, o “sucu­len­to angu à bai­a­na”, pre­pa­ra­do por expe­ri­en­tes pro­fis­si­o­nais da arte culi­ná­ria, a indis­pen­sá­vel fei­jo­a­da, a “sucu­len­ta pei­xa­da” e até mes­mo o chur­ras­co, então um tipo de refei­ção não mui­to em voga no Rio.  E em qua­se todo bai­le havia sem­pre o peru assa­do que, geral­men­te à meia noi­te, era ofe­re­ci­do como prê­mio à mesa que melhor “se des­ta­cas­se no bufê”, ou seja, que con­su­mis­se mais cer­ve­jas, refri­ge­ran­tes e sal­ga­di­nhos.

Eram fes­ti­vi­da­des a que com­pa­re­ci­am, nos pon­tos mais dis­tan­tes do Rio e da Baixada, con­vi­da­dos ilus­tres, rela­ci­o­na­dos nos pros­pec­tos de divul­ga­ção como “Nozinho e seus escri­tu­rá­ri­os”, “Fuleiro e seus cama­ra­das”, “Sete Quedas e seus alu­nos”, “Dalzuite e suas ami­gui­nhas”, “Sinhá do Estácio”, “Jurema do Irajá”, “Rozária de Mangueira”, “Ilma e sua pro­ge­ni­to­ra” etc. Além dos polí­ti­cos de sem­pre.

É que a dis­ten­são polí­ti­ca que se seguiu ao fim do Estado Novo teve pro­fun­dos refle­xos no mun­do do sam­ba. Multiplicaram-se as uniões e fede­ra­ções, sem­pre ao sabor de inte­res­ses polí­ti­cos par­ti­dá­ri­os. Cresceu, então, a par­tir de 1950, a pre­sen­ça, nas esco­las, de vere­a­do­res ou can­di­da­tos, o que povo­ou os pros­pec­tos das fes­tas de con­vi­da­dos como “Vieira de Melo, Amigo Nº. 1 das Escolas de Samba”, “nos­so ami­go de sem­pre e de lon­gos anos Frederico Trotta”, Salomão Filho, Pedro Faria e mui­tos outros.

Mas o sam­ba ia levan­do “na maci­o­ta”.

A Velha Guarda da Portela em seu início, em 1970, com o “padrinho” Paulinho da Viola (à esquerda): tradição preservada (Acervo Tinhorão)

Outro fato que o cita­do livro de F. Vasconcellos infor­ma é que, naque­le tem­po, como “bom cabri­to”, o malan­dro tinha a humil­da­de de pedir des­cul­pas. Como na car­ta em que um famo­so com­po­nen­te do Império Serrano, sus­pen­so pela dire­to­ria, assim soli­ci­ta­va anis­tia:

“Tendo eu cum­pri­do um ter­ço da pena­li­da­de esta­be­le­ci­da por esse órgão, rogo-lhes não com o direi­to de ter cum­pri­do um ter­ço da pena, comu­ta­ção do res­tan­te haja vis­to a apro­xi­ma­ção do car­na­val. Sendo um impe­ri­a­no de cora­ção dese­ja­va tomar par­te nos ensai­os res­tan­tes para que pudes­se com o máxi­mo dos meus esfor­ços coo­pe­rar no nos­so quar­to car­na­val. Sem mais peço des­cul­pas pelas fal­tas e apro­vei­to o ense­jo para apre­sen­tar-lhes os meus pro­tes­tos de ele­va­da esti­ma e con­si­de­ra­ção”.

Numa outra mis­si­va trans­cri­ta no indis­pen­sá­vel livro de F. Vasconcellos, um pedi­do de aju­da:

“Serei jul­ga­do em setem­bro — diz o mis­si­vis­ta — e até lá terei que dar o dinhei­ro ao advo­ga­do, o que está sen­do-me difí­cil. Assim sen­do que­ro que ape­les para esta glo­ri­o­sa agre­mi­a­ção no sen­ti­do de me auxi­li­a­rem um pou­co. Sei que todos fica­ram satis­fei­tos com a des­for­ra sobre os mata­do­res do (…) e assim sen­do espe­ra­rei con­fi­an­te em todos do Império Serrano e em você meu par­ti­cu­lar ami­go.”

Mas em ter­mos de aju­da finan­cei­ra, o “Livro de Ouro” era a gran­de ins­ti­tui­ção. E quan­to mais capri­cha­do fos­se o seu ter­mo de aber­tu­ra, mais pos­si­bi­li­da­de de suces­so ele teria, como foi o caso do livro impe­ri­a­no em 53, que assim, cor­ri­gi­da ape­nas a gra­fia, intro­du­zia a “faca­da”:

“Ao ouvir­mos as bada­la­das dos sinos que anun­ci­am o Natal e o espo­car dos fogos que nos traz a con­ta­gi­an­te ale­gria de atra­ves­sar mais um ano de exis­tên­cia…”

Havia tam­bém mui­ta devo­ção. Como na mis­sa cele­bra­da no dia 23 de abril de 1950, na igre­ja de São Luiz Gonzaga, em lou­vor a São Jorge, à qual se segui­ria pro­cis­são com músi­ca e fogos, encer­ran­do as fes­ti­vi­da­des com bai­le na sede da Serrinha.

Nesses even­tos, eram des­ta­ca­das as pre­sen­ças de sam­bis­tas como Jamelão e Zé Kéti, por exem­plo, em fes­tas e sole­ni­da­des nas quais o modo de ves­tir, prin­ci­pal­men­te entre os homens (jaque­tão “tipo saco”, cal­ça “boqui­nha”, sapa­to de sal­to “car­ra­pe­ta” e cha­péu), era o prin­ci­pal tra­ço iden­ti­fi­ca­dor da con­di­ção de sam­bis­ta.

Nota do autor: Este tex­to apre­sen­ta argu­men­tos tam­bém pre­sen­tes no nos­so livro Zé Kéti, o sam­ba sem senhor, de 2000, no momen­to fora de catá­lo­go.

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