Hans Flieg/Acervo IMS

A seção Primeira Vista pub­li­ca men­salmente tex­tos inédi­tos de ficção, escritos a par­tir de fotografias sele­cionadas no acer­vo do Insti­tu­to Mor­eira Salles. O autor escreve sem ter infor­mação nen­hu­ma sobre a imagem, con­tan­do ape­nas com o estí­mu­lo visu­al. Neste mês de agos­to, Rosa Aman­da Strausz foi con­vi­da­da a escr­ev­er sobre uma foto de Hans Flieg.

Hans Flieg/Acervo IMS

Teatro do Museu de Arte de São Paulo, cujo pro­je­to arquitetôni­co é assi­na­do pela arquite­ta Lina Bo Bar­di, 1969

Vamos ten­tar de novo. Eu esta­va numa fes­ta. Puta fes­ta. Casarão. Pas­sou uma mul­her car­regan­do um gar­rafão de água, que é a coisa mais esquisi­ta que alguém pode car­regar numa fes­ta daque­las. E você sabe que aqui­lo não é nor­mal pelo jeito dela andar, com os braços ergui­dos, dançan­do e rodan­do o vidro pesa­do aci­ma da cabeça.

Per­gun­tei o que era. Água, ela riu. Com um tiquin­ho de áci­do que sobrou do réveil­lon, com­ple­tou. Me pas­sou a gar­rafa. Dei um gole. Ela se afas­tou, dançan­do e dis­tribuin­do dese­jo, aquária, peixa, sereia, carangue­ja, um zodía­co inteiro salpi­can­do estre­las no ar.

Não. Isso foi depois. Naque­le momen­to, ain­da não tin­ha estrela nen­hu­ma. Era só uma ond­i­na de fes­ta. Antes dela se trans­for­mar em onda do mar, eu tirei a roupa e pulei na pisci­na. Mais gente me seguiu.

Quan­do o áci­do bateu, eu dança­va no azul. Afun­da­va a cabeça na água e via os cabe­los com­pri­dos da min­ha namora­da se mex­erem feito car­dume. Então vier­am os polvos, de todas as cores, e se enroscaram nos meus seios. Deu um tesão fodi­do. Min­ha namora­da me bei­jou. E um pol­vo cin­za, maior do que todos, me enlaçou pela cin­tu­ra e me jogou no deck de madeira.

Ago­ra chega. Tu tem que pegar o ônibus das sete na rodoviária. Daqui não dá pra ir dire­to. Pega o metrô. Acho que foi o pol­vo que falou, mas tam­bém pode ter sido min­ha namora­da. O sol nascia por trás da cabeça dela. Fui emb­o­ra. Ela ficou. Vesti a roupa por cima do cor­po mol­ha­do e cor­ri até a estação Pin­heiros.

Entrei, com­prei bil­hete, pas­sei pela role­ta e come­cei a seguir as pla­cas pelo labir­in­to que me levaria em segu­rança até a platafor­ma. Mas as pla­cas começaram a sumir. Tudo ficou cin­za. E eu soube que tin­ha que cor­rer, cor­rer muito, antes que até as pare­des desa­pare­cessem e eu não con­seguisse chegar ao ter­mi­nal Tietê, onde eu pegaria o ônibus que me levaria a Con­ceição do Jacareí.

Não. Não pode ter sido assim. Faz menos de 10 oC  em São Paulo a esta hora. Mes­mo doi­do, eu não teria tira­do a roupa e pula­do na pisci­na. E se tivesse feito isso, ninguém me seguiria. Então não, não era áci­do den­tro da gar­rafa de água.

Vamos ten­tar de novo. Eu esta­va na casa da min­ha namora­da e ela falou da fes­ta. Eu não que­ria ir. Tin­ha que dormir e acor­dar cedo para estar às cin­co da tarde em Con­ceição do Jacareí. Ela me chamou de fra­cas­sa­do porque só sendo muito mané alguém tem que ir tão longe para caçar tra­bal­ho. E tra­bal­ho mer­da, ain­da por cima. E a fes­ta era incrív­el, na casa de um pes­soal ricaço. Eu mere­cia e ela tam­bém. Antes que eu me enfi­asse no metrô, depois na rodoviária, rumo a Con­ceição do Jacareí.

Ela deu um gole numa gar­rafa de vin­ho. Acabamos entor­nan­do a gar­rafa inteira antes de sair. Já na por­ta, ela começou a rir. Tem um jacaré de nome Con­ceição chaman­do você, disse. Olhei para trás e tin­ha mes­mo. Então acho que foi ela que botou o áci­do na gar­rafa. Então a sereia me deu foi água mes­mo. Mas eu pos­so ter mer­gul­ha­do na pisci­na. Ou num fos­so. De jacarés, todos chama­dos Con­ceição. E um deles pas­sou a cau­da áspera nos meus seios. E aqui­lo deu um tesão fodi­do. E eu saí pela rua segu­ran­do cada mama far­ta em uma mão, pas­san­do a unha com­pri­da e pin­ta­da de azul cin­ti­lante em cada bico, só para pro­lon­gar a sen­sação da cau­da do bicho roçan­do em mim.

Nada dis­so expli­ca como vim parar num labir­in­to que dev­e­ria me levar ao metrô, que me con­duziria até a rodoviária, que me tele­trans­portaria até Con­ceição do Jacareí.

Vamos ten­tar de novo. De frente para trás. Estou ten­tan­do pegar o metrô. Alguém disse que eu pre­ciso estar às 17 horas em Con­ceição de Jaracareí porque tem um tra­bal­ho lá para mim. Não con­heço a cidade. Nem pre­ciso. Sei que é peque­na e deve ser pobre. Não faço ideia de que tra­bal­ho seja esse. E nem me impor­ta. Pre­ciso dele. Todas as cidades pobres são iguais. Já pas­sei por todas elas. Muito cimen­to, muito cin­za, mui­ta ares­ta. Como esta estação de metrô, se é que estou mes­mo no metrô. Pre­ciso encon­trar a platafor­ma.

É pouco prováv­el que eu ten­ha esta­do numa fes­ta de mil­ionários. Não con­heço nen­hum. Tam­bém é difí­cil que min­ha namora­da ten­ha me dado um áci­do. Não ten­ho namora­da. Se tivesse, não con­hece­ria gente rica, seria tão fodi­da quan­to eu. Nem pol­vo e nem jacaré roçaram os bicos de meus seios far­tos porque sou homem, o que ver­i­fi­co com facil­i­dade escor­re­gan­do a mão por den­tro da camise­ta de pro­pa­gan­da de um vereador cujo nome já me esque­ci. Meu tor­so é feito de ossos que saltam sob a pele. Meus mami­los não têm sen­si­bil­i­dade nen­hu­ma.

Faz frio, mas a camise­ta está mol­ha­da. Arran­co a mal­ha de poliami­da pela cabeça e a jogo em qual­quer lugar. Con­tin­uo a cor­rer. A platafor­ma. Ten­ho que chegar logo à estação Tietê.

Cor­ro por um fos­so seco. Não vejo os jacarés, mas sei que estão ali e me espre­itam. À min­ha vol­ta, só cimen­to, só cin­za, só arestas. Não sei onde estou, mas con­heço bem este lugar. Ele é meu e sem­pre me puxa de vol­ta. É um útero mas­culi­no e áspero. São sacos de cimen­to, bri­ta e areia car­rega­dos nas costas. É a pisci­na de cimen­to fres­co e den­so que me acol­he e imo­bi­liza.

Cor­ro e mer­gul­ho.

Pre­ciso chegar a Con­ceição de Jacareí.

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