Chega de carro sem airbag, velhinho

Correspondência

11.04.11

Galera,

Eu pen­sei em uma por­ção de coi­sas a dizer sobre a nar­ra­ti­va da Steffany. Se eu não tives­se que­bra­do o dedo e demo­ra­do uma sema­na para res­pon­der, acho que teria fei­to umas colo­ca­ções bem per­ti­nen­tes. Mas aca­bei esque­cen­do tudo, cla­ro. E eu nun­ca tinha que­bra­do um osso, era um pon­to de hon­ra, fru­to de uma vida sem subir em árvo­res, andar de ska­te, tocar rock and roll e matar pas­sa­ri­nho. No tra­ba­lho, ain­da. Fui pegar um café, virei para dar bom-dia a uma cole­ga e bati, de leve, o min­di­nho direi­to na qui­na da por­ta. Nem doeu, só foi inchan­do ao lon­go do expe­di­en­te. Fiz um pou­co de dra­ma para valo­ri­zar, mas lá pelo fim da tar­de come­çou a ficar feio. Quando che­guei em casa, meu dedo tinha vira­do uma bolo­ta negra, um tro­ço assus­ta­dor, nem te con­to por­que sei que “tu” é sen­sí­vel a essas coi­sas. E eu pre­ci­sa­va escre­ver a colu­na da Folha, fechar seu tex­to de ore­lha do Liberdade, sen­sa­ção de mun­do ruin­do. Por sor­te, con­tei com o apoio ines­ti­má­vel de minha mão esquer­da, mais o dedão e o fura-bolo da direi­ta, e aca­bei os tex­tos.

Ainda assim, fiquei com a his­tó­ria do cachor­rão na cabe­ça. Que coi­sa admi­rá­vel, hein? E bateu com algo que venho pen­san­do há umas sema­nas, mas que ago­ra deci­di a sério, que é aca­bar meu livro. Bicho, eu gos­to de fic­ção, mas acho escre­ver um chu­te no saco. Não sei em que momen­to isso acon­te­ceu; lem­bro cla­ra­men­te que eu gos­ta­va de escre­ver, pas­sa­va um tem­pão nis­so, tinha pro­je­tos, a por­ra toda. Cheguei a ter­mi­nar duas his­tó­ri­as lon­gas, quan­do esta­va no iní­cio da facul­da­de. Depois de ler a saga da Steffany, fui reme­xer esses arqui­vos, e que hor­ror. Mas quer saber? Tem uma ou outra idéia engra­ça­da ali, e um tre­cho intei­ro que eu vou maca­que­ar no livro. Juro que não lem­bro em que momen­to de minha vida eu parei, sen­tei em fren­te ao com­pu­ta­dor e escre­vi uma his­tó­ria de ses­sen­ta pági­nas sobre um sujei­to cha­ma­do Filadelfo Bermuda, mas eu devo ter me diver­ti­do. É um lan­ce abso­lu­ta­men­te épi­co, que atra­ves­sa gera­ções e gêne­ros, ambi­ci­o­so pra bur­ro, escri­to numa pro­sa moder­na, ten­te ima­gi­nar o fra­cas­so. E digo isso sem um pin­go de auto­co­mi­se­ra­ção, o livro é ruim mes­mo.

Mas fiquei orgu­lho­so de uns tre­chos. Tem um momen­to que o Filadelfo assu­me a iden­ti­da­de de um poe­ta con­cre­to, ele pre­ci­sa sedu­zir essa mulher que per­ten­ce a um cír­cu­lo de con­cre­tos (cha­ma­do Círculo de Concreto), então dei­xa cres­cer um bigo­de, com­pra um cole­te, isso dura pági­nas e pági­nas, até que uma hora ele escre­ve um poe­ma con­cre­to para a tal Ilga

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e con­se­gue sedu­zi-la, mas eles entram numa dis­cus­são sobre a ori­gem da poe­sia con­cre­ta, por­que o Filadelfo defen­de que ela foi inven­ta­da no Paraguai, e que todos os expo­en­tes estão auto-exi­la­dos num vila­re­jo per­to de Assunção, eu li meio chu­ta­do, mas sei que no fim do capí­tu­lo eles vão ao Paraguai, atrás da Vila de Los Concretos, mas aí acon­te­ce um mon­te de coi­sas e a his­tó­ria per­de foco e ter­mi­na fran­ca­men­te ruim.

Na facul­da­de eu escre­vi con­tos, não sei onde esta­va com a cabe­ça. São uns tex­tos pre­ten­si­o­sos, for­ça­dos, ain­da bem que só um foi publi­ca­do. Mas vou rou­bar nomes de per­so­na­gens, duas cenas e uma ora­ção, “No Ceará a ter­ra tre­me todo dia”, que não sei como vou encai­xar, pos­to que meu livro se pas­sa a uma dis­tân­cia razoá­vel de Fortaleza. Mas enfim. Quando já esta­va na edi­to­ra, achei que era hora de escre­ver um livro. Primeiro deci­di por uma lon­ga pes­qui­sa, algo que durou cer­ca de um mês. Depois, resol­vi que ia inven­tar tudo, com base ape­nas em fil­mes e bus­cas rápi­das na inter­net. De repen­te, escre­vi umas vin­te pági­nas, fiquei todo ani­ma­do, mas o rit­mo foi cain­do e eu come­cei a achar cha­to. Dolorosamente cha­to. Não con­se­guia escre­ver um pará­gra­fo sem levan­tar, beber água, acen­der um cigar­ro, pro­cras­ti­nar.

Passei esses últi­mos anos bem con­ten­te de estar mexen­do só no tex­to dos outros, e sem­pre que eu pega­va um livro bra­si­lei­ro mui­to bom, dava gra­ças por não ter de escre­ver aqui­lo. Claro que no meu tra­ba­lho eu pre­ci­so escre­ver. Mas são tex­tos impes­so­ais, como uma ore­lha de livro, onde você segue uma téc­ni­ca, para aten­der a uma fun­ção. E quan­do você mexe no tex­to de alguém, ou numa tra­du­ção, é den­tro do uni­ver­so daque­le livro, não há nenhu­ma mar­gem de cri­a­ti­vi­da­de, exce­to nas solu­ções e suges­tões que vai apon­tar. Você já edi­tou livros e sabe como é baca­na ficar indo e vol­tan­do ao tex­to, e mes­mo não haven­do sua per­so­na­li­da­de impres­sa ali, o tra­ba­lho está de algu­ma for­ma pre­sen­te.

Acho que foi isso que me impres­si­o­nou no tex­to da Steffany. Posso estar ven­do coi­sas, mas me pare­ce que, den­tro des­sa apa­ren­te ino­cên­cia nar­ra­ti­va, há um boca­do de per­so­na­li­da­de, algo bas­tan­te difí­cil de se rea­li­zar, mes­mo que por intui­ção. Nesses últi­mos tem­pos, calhou que estou escre­ven­do bas­tan­te, por con­ta da Folha e do blog da edi­to­ra (além da comu­ni­ca­ção com os ami­gos). Fiquei apa­vo­ra­do no minu­to em que acei­tei a colu­na, aliás, por­que se a pri­mei­ra des­se um tra­ba­lho mons­tru­o­so, todas as outras seri­am sofri­das. Mas oquei, o assun­to me inte­res­sa e des­co­bri que dá para sen­tar e escre­ver uma colu­na tran­qui­la­men­te, é só lar­gar o dra­ma. De novo: gos­to mais de escre­ver sob res­tri­ções ? de tama­nho, tema, tom ?, ape­nas fica impos­sí­vel con­ce­ber algo tão for­te quan­to Amor em cin­co capí­tu­los.

Uma vez eu esta­va con­ver­san­do com um ami­go, e con­tei a pre­mis­sa do livro. Não lem­bro exa­ta­men­te se ele achou ruim (acho que não), mas dis­se que não ia dar pé, por­que o assun­to é dis­tan­te, e você pre­ci­sa escre­ver sobre o que sabe, con­tar uns casos engra­ça­dos, sei lá. E per­gun­tou sobre isso, sobre como eu ia colo­car algu­ma per­so­na­li­da­de no livro, se não tinha nenhu­ma rela­ção com a his­tó­ria. Pior é que con­si­go iden­ti­fi­car esse pro­ce­di­men­to sen­do bem rea­li­za­do em vári­os livros, mas de fato não sei se tenho TÔNUS lite­rá­rio para alcan­çar o mes­mo efei­to. Amarelei ali mes­mo.

E aí você vê um tex­to como o do cachor­rão, cheio de per­so­na­li­da­de e dra­ma (não obs­tan­te a inter­ven­ção peda­gó­gi­ca), e per­ce­be que nin­guém aqui é mais cri­an­ça. Chega de car­ro sem air­bag, velhi­nho. No segun­do dia da con­tu­são reli todo o mate­ri­al, mais as ano­ta­ções. Cortei um tre­cho e encon­trei um nome defi­ni­ti­vo para o pro­ta­go­nis­ta. A colu­na é legal e gos­to de escre­ver para o blog, mas que­ro mes­mo ter­mi­nar essa his­tó­ria, parar de fres­cu­ra. Estabeleci umas metas e tudo. Conto com seu apoio moral.

E pena que a gen­te só se viu bre­ve­men­te na sua pas­sa­gem por São Paulo. Mas eu esta­va arrui­na­do mes­mo, só ia pesar com meu dedo que­bra­do e recla­ma­ções e você sabe como é.

Abraços,

André

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