Contra o leitor

Colunistas

03.02.16

Ganhei no fim do ano a edi­ção bilín­gue, em ale­mão e em inglês, dos pri­mei­ros poe­mas de Thomas Bernhard: On Earth and in Hell (Na Terra e no Inferno, trad. Peter Waugh, ed. Three Rooms Press, NY, 2015). Bernhard tinha 26 anos quan­do o livro foi lan­ça­do na Áustria, em 1957. São poe­mas de juven­tu­de, influ­en­ci­a­dos por Baudelaire e Rimbaud, por Artaud e Georg Trakl, mas tam­bém pelo ima­gi­ná­rio bucó­li­co da lite­ra­tu­ra de gos­to duvi­do­so pro­fes­sa­da pelo avô mater­no, figu­ra míti­ca da infân­cia do autor. Há coi­sas extra­or­di­ná­ri­as nes­ses ver­sos. No pre­fá­cio, o tra­du­tor expli­ca que Bernhard era “um agen­te pro­vo­ca­dor impla­cá­vel, um sabo­ta­dor lite­rá­rio das posi­ções entrin­chei­ra­das da soci­e­da­de inte­lec­tu­al­men­te tolhi­da do pós-guer­ra”. Bernhard sur­giu para desa­gra­dar, para dizer o que não se que­ria ouvir, o inver­so do que hoje se acon­se­lha ao jovem escri­tor que quer ser publi­ca­do.

Há alguns anos, par­ti­ci­pei de um deba­te na França, com um escri­tor cana­den­se e um colom­bi­a­no. A cer­ta altu­ra, o medi­a­dor quis saber o que a lite­ra­tu­ra fran­ce­sa sig­ni­fi­ca­va para cada um de nós. Lembrei na mes­ma hora das ima­gens de arqui­vo de uma entre­vis­ta que o edi­tor Jerôme Lindon, das edi­ções de Minuit, con­ce­de­ra à tele­vi­são fran­ce­sa, no final dos anos 50, depois de lan­çar Samuel Beckett e os pri­mei­ros auto­res do Nouveau Roman. O entre­vis­ta­dor per­gun­ta­va o que pre­ten­dia a Minuit, e Lindon res­pon­dia, sem hesi­tar, com um sor­ri­so jovi­al, orgu­lho­so e rea­li­za­do: “Publicar os livros que nin­guém quer ler”. Eu dis­se ao medi­a­dor que, para mim, quan­do come­cei a escre­ver déca­das depois, a lite­ra­tu­ra fran­ce­sa teve o sig­ni­fi­ca­do des­sa liber­da­de.

Jerôme Lindon e Samuel Beckett na edi­to­ra Minuit

Lindon se tor­nou um mito da edi­ção. Filho de judeus pari­si­en­ses que se refu­gi­a­ram no sul da França duran­te a ocu­pa­ção, pas­sou a juven­tu­de entre a clan­des­ti­ni­da­de e a Resistência. Depois da guer­ra, aos vin­te e pou­cos anos, sem diplo­ma e sem pro­fis­são, dis­se ao pai que que­ria ser edi­tor. A Minuit era uma peque­na edi­to­ra cri­a­da na clan­des­ti­ni­da­de, duran­te a ocu­pa­ção, por um escri­tor e ilus­tra­dor da Resistência, Vercors. O nome (Minuit/Meia-noite) fazia refe­rên­cia à hora em que os livros eram impres­sos e dis­tri­buí­dos. A situ­a­ção finan­cei­ra da edi­to­ra não podia ser pior quan­do Lindon a assu­miu e a trans­for­mou em um mode­lo de exce­lên­cia e inde­pen­dên­cia, com uma recei­ta que hoje dei­xa­ria qual­quer edi­tor de cabe­lo em pé: publi­can­do os livros que nin­guém que­ria ler, alguns deles obras-pri­mas da lite­ra­tu­ra uni­ver­sal.

Ninguém que­ria publi­car Samuel Beckett.  Inconformada, a mulher do escri­tor deci­diu envi­ar os manus­cri­tos da tri­lo­gia (Molloy, Malone Morre e O Inominável) ao novo edi­tor na pra­ça. Ficou famo­sa a epi­fa­nia de Lindon, no metrô, len­do os manus­cri­tos pela pri­mei­ra vez, às gar­ga­lha­das, com as folhas voan­do pelo vagão. O pró­prio Beckett, ao saber que a Minuit deci­di­ra publi­cá-lo, dis­se à mulher que seus livros leva­ri­am o jovem edi­tor à falên­cia.

Ir “con­tra o lei­tor” pode sig­ni­fi­car escre­ver que a Terra é redon­da para gen­te acos­tu­ma­da a ouvir que a Terra é cha­ta. É cla­ro que é mui­to mais fácil (e moral­men­te jus­ti­fi­cá­vel) defen­der uma lite­ra­tu­ra “con­tra o lei­tor” depois da ocu­pa­ção e do nazis­mo do que num mun­do medi­do por “likes”. Que moral pode ter um lei­to­ra­do de ex-cola­bo­ra­do­res arre­pen­di­dos na França ou na Áustria? A lite­ra­tu­ra “con­tra o lei­tor” é tam­bém a lite­ra­tu­ra de (e por) um novo lei­tor. E é essa a bele­za radi­cal da pro­vo­ca­ção de Lindon e de Bernhard.

Esse pro­je­to civi­li­za­tó­rio se per­de (a pon­to de se tor­nar incon­ce­bí­vel) quan­do a lite­ra­tu­ra é seques­tra­da pelo gos­to. E aí não res­ta espa­ço para alar­gar a cons­ci­ên­cia e a com­pre­en­são do mun­do para além daqui­lo que já é apre­ci­a­do e conhe­ci­do. A novi­da­de pas­sa a ser uma pala­vra vazia, no máxi­mo um eufe­mis­mo para pre­ten­são. Dizer hoje que se escre­ve “con­tra o lei­tor” é ime­di­a­ta­men­te asso­ci­a­do à supos­ta arro­gân­cia e à pre­sun­ção de quem diz. É uma here­sia e um para­do­xo, uma con­tra­di­ção em ter­mos, além de ser con­si­de­ra­do uma ofen­sa. Porque o lei­tor é um cli­en­te e, como man­dam as regras do bom comér­cio, o cli­en­te vem em pri­mei­ro lugar. É o tem­po do aca­de­mi­cis­mo, da apli­ca­ção das nor­mas e das con­ven­ções, do pen­sa­men­to peque­no e da visão cur­ta. É o tem­po de sen­ten­ci­ar que tal roman­ce é cha­to ou bem cons­truí­do, bem ou mal escri­to, que os per­so­na­gens são psi­co­lo­gi­ca­men­te crí­veis, de car­ne e osso ou não. “Aquilo que você falou sobre o edi­tor fran­cês era pia­da, não era?”, o escri­tor colom­bi­a­no me per­gun­tou quan­do saí­mos do deba­te.

Não”, eu res­pon­di.

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