Lygia Fagundes Telles indicada ao Nobel

Literatura

03.02.16

Des­de muito jovem, a paulis­tana Lygia Fagun­des Telles tin­ha uma certeza: que­ria ser escrito­ra. O que talvez não pudesse imag­i­nar era que, em 2016, aos 92 anos de idade, a União Brasileira dos Escritores (UBE) a indi­cas­se para o Prêmio Nobel de Lit­er­atu­ra, o que não deixa de ser dig­no de nota.

Quan­do tin­ha ape­nas 18 anos, e lin­da como per­manece­ria na maturi­dade, Lygia, em car­ta a Eri­co Veris­si­mo, nar­rou o episó­dio em que um edi­tor, antes mes­mo de ler os orig­i­nais do seu livro de con­tos inédi­tos, insis­tiu petu­lante­mente na ideia de que uma fotografia dela dev­e­ria estam­par a capa do livro, ao que Lygia respon­deu: “Min­ha cara nada tem a ver com a obra”. Não perdeu a chance de sug­erir que o edi­tor colo­casse “o retra­to da avó dele”. O episó­dio lhe cus­tou a poster­gação do lança­men­to de Pra­ia viva, pub­li­ca­do três anos depois do inci­dente.

No mes­mo perío­do, Lygia Fagun­des Telles ingres­sou na tradi­cional Fac­ul­dade de Dire­ito do Largo de São Fran­cis­co, quan­do a car­reira de advo­ca­cia era, ain­da, con­sid­er­a­da exclu­si­va­mente mas­culi­na. A auto­ra diz em entre­vista à Revista Brasileira de Psi­canálise: “Éramos cin­co ou seis mocin­has na tur­ma de quase duzen­tos rapazes  que nos per­gun­tavam com irôni­co espan­to, ‘Mas o que vocês vier­am faz­er aqui? Casar?’. No mes­mo tom bem-humora­do eu respon­di: ‘Casar tam­bém, por que não?’. Nes­sa época eu já escrevia os meus con­tos, out­ro ofí­cio con­sid­er­a­do mas­culi­no”.

Sua pos­tu­ra firme se nota igual­mente quan­do da adesão a movi­men­tos políti­cos de mea­d­os do sécu­lo 20, como a Mar­cha con­tra o Esta­do Novo e a Passea­ta dos Cem Mil. Na déca­da de 1970, jun­to a um grupo de int­elec­tu­ais que se pun­ham con­tra a cen­sura, vai pes­soal­mente a Brasília entre­gar o Man­i­festo dos Cem mil.

Sem nun­ca aban­donar questões da mul­her na (e da) sociedade, Lygia Fagun­des Telles escreveu quase vinte livros. Den­tre os quais, desta­cam-se seu primeiro romance, Ciran­da de pedra (1954), que, segun­do Anto­nio Can­di­do, é um mar­co da maturi­dade int­elec­tu­al da auto­ra e seria adap­ta­do para nov­ela homôn­i­ma na déca­da de 1980; Antes do baile verde (1970), livro de con­tos gan­hador do Grande Prêmio Inter­na­cional Fem­i­ni­no para Estrangeiros na França; e o romance As meni­nas (1973), lau­rea­do com os prêmios Coel­ho Neto e Jabu­ti, e adap­ta­do para o cin­e­ma em 1996. Neste livro, aliás, a auto­ra man­i­fes­ta-se aber­ta­mente con­tra a ditadu­ra mil­i­tar.

Por 32 votos a 7, Lygia foi, em 1985, a ter­ceira mul­her elei­ta para a Acad­e­mia Brasileira de Letras, onde ocu­pa, até hoje, a cadeira de número 16.

O acer­vo da auto­ra, que chegou ao Insti­tu­to Mor­eira Salles em 2004, tem uma bib­liote­ca com mais de mil livros e mate­r­i­al de pro­dução int­elec­tu­al (entre con­tos e adap­tações), além de car­tas, vas­to mate­r­i­al de recortes de jor­nais e de revis­tas, fotografias e cin­co desen­hos de auto­ria de Car­los Drum­mond de Andrade. O IMS guar­da ain­da sua máquina de escr­ev­er.

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