Em defesa do cinema desagradável

No cinema

25.04.14

Cães erran­tes ganhou o gran­de prê­mio do júri no Festival de Veneza do ano pas­sa­do, mas está lon­ge de ser uma una­ni­mi­da­de de crí­ti­ca e, mui­to menos, um suces­so de públi­co. Como todo o cine­ma do malaio (radi­ca­do em Taiwan) Tsai Ming Liang, é um fil­me duro, radi­cal, exi­gen­te.

Já nas pri­mei­ras ima­gens — um pla­no fixo de vári­os minu­tos que mos­tra um meni­no e uma meni­na dor­min­do numa cho­ça, enquan­to em pri­mei­ro pla­no uma mulher sen­ta­da pen­teia sem parar os lon­gos cabe­los, de modo que mal vemos seu ros­to — o dire­tor mos­tra seu rude car­tão de visi­tas, como se esta­be­le­ces­se ali um pac­to com o espec­ta­dor: “Deixai toda espe­ran­ça, vós que entrais”. Quem qui­ser diver­são ou con­for­to, que vá pro­cu­rar em outra sala.

Na con­ti­nu­a­ção da nar­ra­ti­va, essa mulher sai de cena e pas­sa­mos a acom­pa­nhar, de modo frag­men­ta­do e lacu­nar, o dia-a-dia des­sas duas cri­an­ças e de seu pai, um alcoó­la­tra que ganha a vida segu­ran­do tabu­le­tas de pro­pa­gan­da nas esqui­nas de Taipei. São eles, evi­den­te­men­te, os “cães erran­tes” do títu­lo, ain­da que cachor­ros vadi­os “lite­rais” apa­re­çam oca­si­o­nal­men­te num gal­pão aban­do­na­do, ali­men­ta­dos por uma mulher.

A for­ma é o con­teú­do

Mas a ideia de uma nar­ra­ti­va line­ar, pro­gres­si­va, se esgar­ça por con­ta das elip­ses, das ambi­gui­da­des, dos pon­tos sem expli­ca­ção. A lon­guís­si­ma dura­ção dos pla­nos-sequên­cia, qua­se sem­pre fixos, esva­zia-os da fun­ção de tijo­los numa cons­tru­ção nar­ra­ti­va, devol­ven­do-os, por assim dizer, à con­di­ção de pedra bru­ta, intra­tá­vel, insubs­ti­tuí­vel.

Ao comen­tar recen­te­men­te o fil­me Sem essa, ara­nha, de Rogério Sganzerla, Julio Bressane dis­se que, depois de alguns minu­tos de pla­no-sequên­cia o olhar do espec­ta­dor é atraí­do para a mate­ri­a­li­da­de da ima­gem, para o grão, para a tex­tu­ra, a com­po­si­ção, a luz. Os valo­res da for­ma, em suma, ganham rele­vo, dei­xan­do de ser­vir mera­men­te a um “con­teú­do”. Melhor dizen­do, o con­teú­do pas­sa a ser a pró­pria for­ma.

No caso de Cães erran­tes, mais do que con­tar a his­tó­ria daque­les pou­cos seres, o que impor­ta, ao meu ver, é a cons­tru­ção de uma ambi­ên­cia, de um esta­do. Os per­so­na­gens se movem nas bor­das, ou antes, nas fres­tas da metró­po­le capi­ta­lis­ta. Os becos, ter­re­nos bal­di­os, bar­ra­cos, cons­tru­ções aban­do­na­das, não ape­nas são estra­nha­men­te con­tí­guos à pai­sa­gem natu­ral (árvo­res, rios), como são inva­di­dos por ela, como as tou­cei­ras de mato que sur­gem nas racha­du­ras do cimen­to ou do asfal­to.

Seres sem lugar

Essa con­di­ção de seres sem lugar, inter­va­la­res, que ocu­pam esse espa­ço ambí­guo entre a metró­po­le e o mato, a natu­re­za e a cul­tu­ra, o ani­mal e o huma­no, é o que uni­fi­ca o fil­me e é, pro­va­vel­men­te, o que fica, ao fim da ses­são e depois, na sen­si­bi­li­da­de do espec­ta­dor que esti­ver dis­pos­to a se abrir à expe­ri­ên­cia.

Num dos epi­só­di­os mais des­con­cer­tan­tes do fil­me, a meni­na, que peram­bu­la sozi­nha por um enor­me super­mer­ca­do, leva para casa um repo­lho e o trans­for­ma numa bone­ca, pin­tan­do-lhe um ros­to, dan­do-lhe um nome. Uma noi­te, depois de che­gar em casa bêba­do, o pai da meni­na pri­mei­ro bei­ja lubri­ca­men­te o repo­lho (como se fos­se uma bone­ca inflá­vel ou algo do tipo) e em segui­da o devo­ra com vora­ci­da­de, cru mes­mo, e o des­pe­da­ça bru­tal­men­te. Um pra­to cheio para quem gos­ta da pala­vra “res­sig­ni­fi­ca­ção”.

Excluídos do mer­ca­do capi­ta­lis­ta e das mara­vi­lhas do con­su­mo, os per­so­na­gens de Cães erran­tes vivem das suas sobras, que eles reci­clam e adap­tam para cons­truir o seu mun­do — como o estra­nho sub­so­lo aban­do­na­do em que esbo­çam, já per­to do fim, o arre­me­do de um lar e de uma famí­lia.

O mun­do de Tsai Ming Liang é tris­te e deso­la­do como a chu­va num bar­ra­co de lona plás­ti­ca ou as man­chas de uma pare­de des­cas­ca­da. Não é agra­dá­vel. Mas quem dis­se que a arte tem que ser agra­dá­vel?

O infor­tú­nio neces­sá­rio

Numa car­ta que escre­veu em 1904 a seu ami­go Oskar Pollak, Kafka dis­se o seguin­te: “Penso que deve­mos ler somen­te os livros que nos mor­dam e piquem. Se o livro que esta­mos len­do não nos saco­de e acor­da como um gol­pe no crâ­nio, por que nos dar­mos o tra­ba­lho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como você diz? Ora, sería­mos feli­zes da mes­ma for­ma se não tivés­se­mos livros. Livros que nos façam feli­zes, em caso de neces­si­da­de, pode­ría­mos escre­vê-los nós mes­mos. Precisamos é de livros que nos atin­jam como o pior dos infor­tú­ni­os, como a mor­te de alguém que ama­mos mais do que a nós mes­mos, que nos façam sen­tir como se tivés­se­mos sido bani­dos para a flo­res­ta, lon­ge de qual­quer pre­sen­ça huma­na, como um sui­cí­dio”.

Podemos subs­ti­tuir a pala­vra “livro” por “fil­me” ou qual­quer outro meio de expres­são artís­ti­ca. Não vou tão lon­ge a pon­to de achar, como Kafka, que toda obra deva afli­gir e ator­men­tar. Que seria de nós sem as delí­ci­as do cine­ma de entre­te­ni­men­to? Mas de vez em quan­do um infor­tu­ni­o­zi­nho cai bem para nos lem­brar da nos­sa tris­te con­di­ção de huma­nos num mun­do desu­ma­no.

Assista ao trai­ler: