Em janeiro de 1964

Cinema

15.01.14

A exi­bi­ção de Cleópatra,Harakiri e Velha a fiar nos dias 18 e 19 abre no IMS-RJ a série dedi­ca­da a fil­mes impor­tan­tes de 1964, que ocor­re­rá em um fim de sema­na por mês. E lan­ça, tam­bém, a pro­gra­ma­ção do ins­ti­tu­to sobre os 50 anos de 1964, quan­do ocor­reu o gol­pe mili­tar no Brasil e outros acon­te­ci­men­tos fun­da­men­tais. O Blog do IMS anun­ci­a­rá a pro­gra­ma­ção em bre­ve.

Harakiri, de Masaki Kobayashi

Em ter­mos de cine­ma, tal­vez seja pos­sí­vel dizer que 1964 come­çou em setem­bro de 1963, entre o lan­ça­men­to de Vidas secas, o apa­re­ci­men­to de Revisão crí­ti­ca do cine­ma bra­si­lei­ro e a aber­tu­ra da Comissão Parlamentar de Inquérito para inves­ti­gar as ati­vi­da­des da indús­tria cine­ma­to­grá­fi­ca.

O fil­me de Nelson, depois da estreia no Rio no final de agos­to, che­ga­va ao sul do país. O livro de Glauber, nas livra­ri­as des­de setem­bro, con­ti­nu­a­va a ren­der deba­tes nos jor­nais e a esti­mu­lar os deba­tes da CPI da indús­tria cine­ma­to­grá­fi­ca, vol­ta­da em gran­de par­te para as obser­va­ções do últi­mo capí­tu­lo do livro, Economia e téc­ni­ca, em que Glauber obser­va como as leis que regu­la­vam o mer­ca­do de cine­ma, “habil­men­te, e pro­cu­ran­do não ferir os inte­res­ses das fir­mas dis­tri­bui­do­ras estran­gei­ras ins­ta­la­das no Brasil do mais lon­gín­quo muni­cí­pio gaú­cho à mais remo­ta aldeia do Amazonas, não se con­cen­tram nos pro­ble­mas essen­ci­ais”. Nos pro­je­tos em dis­cus­são no con­gres­so, con­clui Glauber, “nada exis­te que dete­nha o trus­te ame­ri­ca­no. Nada exis­te que inte­res­se aos inde­pen­den­tes”. O impor­tan­te era cri­ar “um mer­ca­do desa­fo­ga­do (?), faci­li­da­des de impor­ta­ção de pelí­cu­la vir­gem, faci­li­da­des de impor­ta­ção de mate­ri­al téc­ni­co moder­no”.

O Ministério da Educação Cultura pro­mo­via uma Retrospectiva do Cinema Brasileiro. O can­to da sau­da­de de Humberto Mauro na ses­são de aber­tu­ra. Para o encer­ra­men­to, pre­vis­to para 16 de abril, Vidas secas de Nelson Pereira dos Santos. Na Retrospectiva, além dos fil­mes, um semi­ná­rio para dis­cu­tir “as difi­cul­da­des de toda ordem que o gêne­ro cur­ta-metra­gem enfren­ta no Brasil, pro­pon­do medi­das que faci­li­tem o seu desen­vol­vi­men­to; a abor­da­gem dos pro­ble­mas econô­mi­cos do cine­ma bra­si­lei­ro e a foca­li­za­ção dos pro­ble­mas cul­tu­rais de nos­so cine­ma, deten­do-se na aná­li­se da for­ma­ção da cul­tu­ra cine­ma­to­grá­fi­ca do país e da uti­li­za­ção do cine­ma na com­ple­men­ta­ção do ensi­no”.

Mas do mun­do cine­ma o que de ver­da­de ocu­pa­va as pági­nas dos jor­nais era a pre­sen­ça de Brigitte Bardot, no Rio em via­gem de féri­as com o namo­ra­do Bob Zagury e per­se­gui­da por fotó­gra­fos e repór­te­res des­de o ins­tan­te em que des­ceu do avião:

“O tiro de par­ti­da foi a entra­da de Bob e BB no car­ro. Os cor­re­do­res eram os repór­te­res e fotó­gra­fos. No ins­tan­te em que o volks par­tiu, par­ti­ram, tam­bém, cor­ren­do pela pis­ta os jor­na­lis­tas. Os jipes e peru­as dos jor­nais já esta­vam em fren­te do aero­por­to, numa for­ma­ção seme­lhan­te às lar­ga­das de Le Mans. E assim come­çou a caça a Bob e BB. Houve de tudo”, con­ta Carlos Leonam em sua colu­na De homem para homem (Diário de BB, a che­ga­da) na pri­mei­ra pági­na do Caderno B do Jornal do Brasil.

Na mes­ma pági­na José Carlos Oliveira come­mo­ra­va: Viva a mulher nua! “Oba! Chegou a mulher nua! Estas pala­vras, pro­nun­ci­a­das por um cari­o­ca de den­ta­du­ra pos­ti­ça e gogó sali­en­te ali num bote­co da Avenida Brasil, pro­vo­ca­ram gran­de como­ção popu­lar. Os auto­mó­veis buzi­na­vam impa­ci­en­tes, os guar­das de trân­si­to que não opta­ram res­fo­le­ga­vam atrás dos api­tos, de todas as jane­las apa­re­cia gen­te e todos só sabi­am repe­tir a ter­rí­vel per­gun­ta, cheia de espe­ran­ça: Cadê a mulher nua? Aonde?”.

Conhecida em todo o mun­do em espe­ci­al pelas cenas de nudez em E Deus cri­ou a mulher (Et Dieu… créa la fem­me, 1956) e em O repou­so do guer­rei­ro (Le repos du guer­ri­er,1962), ambos de Roger Vadim, em A ver­da­de (La veri­té, de Henri Georges Clouzot, 1960) e em Vida pri­va­da (Vie pri­vée de Louis Malle, 1962), dois dias depois de che­gar ao Rio, Brigitte reu­nia jor­na­lis­tas numa entre­vis­ta cole­ti­va no Copacabana Palace para dizer que gos­ta­ria de “pas­se­ar tran­qui­la, como uma turis­ta qual­quer” e con­tar que de madru­ga­da man­da­ra, atra­vés de Bob, “duas gar­ra­fas de cer­ve­ja para os jor­na­lis­tas que pas­sa­ram a noi­te de plan­tão” na ave­ni­da Atlântica, em fren­te ao apar­ta­men­to de Afraninho Nabuco, onde ela se hos­pe­dou.

Cleópatra, de Joseph K. Mankiewicz
Cleópatra, de Joseph K. Mankiewicz

Nos cine­mas, Sean Connery na pri­mei­ra aven­tu­ra de James Bond, O satâ­ni­co Dr. No (Dr. No, de Terence Young, 1962), Paul Newman mais uma vez como o jovem ame­ri­ca­no rebel­de, O indo­ma­do (Hud, de Martin Ritt, 1963), Elvis Presley como um luta­dor de boxe, Talhado para cam­peão (Kid Galahad, de Phil Karlson (1962), Claudia Cardinale em novo melo­dra­ma de Mauro Bolognini, Desejo que ator­men­ta (Senilità, 1962), Sandra Dee e Peter Fonda numa comé­dia român­ti­ca de Hollywood, Artimanhas do amor(Tammy and the Doctor, de Harry Keller, 1963) e, em dis­tri­bui­ção de Walt Disney um nova aven­tu­ra para cri­an­ças com um her­dei­ro da anti­ga série de Lassie da déca­da de 1950, Nikki, o valen­te indo­má­vel (Nikki, Wild Dog of the North, de Jack Couffer e Don Haldane, 1961).

Em des­ta­que, por razões dife­ren­tes, um fil­me de Hollywood e um fil­me japo­nês: Cleópatra (de Joseph L. Mankiewicz, 1963), uma super pro­du­ção super aci­den­ta­da — o orça­men­to ini­ci­al de 2 milhões sal­tou para mais de 40 milhões de dóla­res. E Harakiri (Seppuku, de Masaki Kobayashi, 1962), rece­bi­do com entu­si­as­mo des­de sua apre­sen­ta­ção em Cannes, no ano ante­ri­or, onde rece­beu o Prêmio Especial do Júri.

Entre o come­ço da fil­ma­gem, em 1958, e a estreia em 1963, Cleópatra pas­sou por duas dire­ções da Fox com visões bem dife­ren­tes: Spyros Skouras, que­ria uma refil­ma­gem de Cleópatra de 1917, base­a­do numa peça de Émile Moreau, diri­gi­do por Gordon Edwards e inter­pre­ta­do por Theda Bara. A ideia de refil­ma­gem do rotei­ro do fil­me mudo foi aban­do­na­da no meio da pro­du­ção, e foram com­pra­dos os direi­tos do livro The life and times of Cleopatra de Carlo Mario Franzero.

Pouco depois da reto­ma­da do pro­je­to, o dire­tor Rouben Mamoulian foi subs­ti­tuí­do por Joseph L. Mankiewicz, que ampli­ou o rotei­ro para trans­for­mar a pro­du­ção em um épi­co de dois fil­mes de três horas cada. Terminada as fil­ma­gens, Darryl F. Zanuck, na dire­ção do estú­dio para con­tro­lar os gas­tos, con­fis­cou as cópi­as de tra­ba­lho e cor­tou duas horas do pro­je­to de Mankiewicz.

A crô­ni­ca de Claudio Mello e Souza no Jornal do Brasil é um exem­plo da boa aco­lhi­da do fil­me de Masaki Koayashi em seu lan­ça­men­to: “Raramente pode-se dizer que um fil­me é per­fei­to. Pois dou este adje­ti­vo a Harakiri, cuja for­ma e cuja his­tó­ria estão repas­sa­dos daque­la pul­sa­ção, daque­la humil­da­de dra­má­ti­ca que pre­ser­va uma obra para a eter­ni­da­de. E é tão per­fei­to que o bom gos­to não o atra­pa­lha nem lhe dimi­nui o ímpe­to demo­nía­co que o ati­ra para a fren­te, numa mara­vi­lho­sa agres­são ao nos­so bom com­por­ta­men­to esté­ti­co”. Hélio Pólvora mani­fes­tou igual entu­si­as­mo: “Desde já uma das melho­res rea­li­za­ções do cine­ma japo­nês. O sopro épi­co que per­pas­sa em Os sete samu­rais e Sanjuro, de Akira Kurosawa, encon­tra um equi­va­len­te de igual qui­la­te na cena qua­se final de Harakiri, quan­do um samu­rai erran­te, vin­gan­do a memó­ria do filho ado­ti­vo, enfren­ta, a espa­da, mais de dez adver­sá­ri­os”.

Para adap­tar o livro de Yasuhiko Takiguchi, o dire­tor pas­sou “horas a olhar está­tu­as em nos­sas cida­des anti­gas. Quando jovem, estu­dei arte asiá­ti­ca, em par­ti­cu­lar a escul­tu­ra budis­ta. Harakiri foi fil­ma­do a par­tir de meu fas­cí­nio pela bele­za esti­li­za­da de nos­sas for­mas tra­di­ci­o­nais”.

Na apre­sen­ta­ção do fil­me no Festival de Cannes, comen­tou ain­da como encon­trou a solu­ção para fil­mar uma das cenas de mai­or impac­to, aque­la em que o jovem samu­rai come­te hara­ki­ri com uma espa­da de bam­bu. “Tentei vári­as abor­da­gens, nenhu­ma con­vin­cen­te. Lembro de ter pas­sa­do uma noi­te beben­do sake e pen­san­do. Dormi can­sa­dís­si­mo e quan­do des­per­tei, de repen­te, vi o que deve­ria ser fei­to. Impossível apu­nha­lar-se com uma espa­da de bam­bu. Só havia uma manei­ra: a espa­da apoi­a­da no tata­me, o homem ati­ra­va-se sobre ela. A par­tir daí, tudo foi fácil, fil­ma­mos rapi­da­men­te. Fiquei mui­to satis­fei­to com o resul­ta­do da cena e com seu efei­to sobre as sequên­ci­as vizi­nhas. Este exem­plo expli­ca como a men­te de um artis­ta tra­ba­lha. Criar é um desa­fio, mas uma ope­ra­ção sim­ples: se o lam­pe­jo de uma idéia bri­lha, tudo se reve­la como uma epi­fa­nia. Mas, cla­ro, esse tipo de reve­la­ção só acon­te­ce depois de mui­ta luta, depois de cui­da­do­sas aná­li­ses. O esfor­ço, a luta, toda aná­li­se e cons­ci­ên­cia devem então ser esque­ci­das. Assim que fil­ma­gem come­ça o fil­me é em gran­de par­te uma pro­je­ção da men­te do dire­tor. Trabalha-se então gui­a­do pelo ins­tin­to, a sen­si­bi­li­da­de pas­sa a ser o úni­co guia que um dire­tor de cine­ma obe­de­ce ao lon­go do tra­ba­lho”.

Há três anos Harakiri foi refil­ma­do por Takashi Miike (A mor­te de um samu­rai / Ichimei, 2011) e sua exi­bi­ção no Festival de Cannes trans­for­mou-se, mais do que num ver­da­dei­ro con­ta­to com o fil­me na tela, numa opor­tu­ni­da­de de rever na memó­ria, para os que conhe­ci­am o tra­ba­lho de Kobayashi e do ator Tatsuia Nakadai, as ima­gens do fil­me ori­gi­nal.

Enquanto isso, então com 67 anos, Humberto Mauro era home­na­ge­a­do pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna com uma retros­pec­ti­va no audi­tó­rio da Maison de France, e havia qua­se dez anos sem rea­li­zar um fil­me, pre­pa­ra­va-se para diri­gir A velha a fiar.

* José Carlos Avellar é coor­de­na­dor de cine­ma do IMS.

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