Espalhar Clarice — quatro perguntas a Benjamin Moser

Quatro perguntas

10.12.15

A reu­nião de todos os con­tos de Clarice Lispector, The Complete Stories, publi­ca­da em agos­to nos Estados Unidos, foi fes­te­ja­da como um dos lan­ça­men­tos mais impor­tan­tes do ano. O New York Times, em sua lis­ta, res­sal­tou que “a bra­si­lei­ra foi uma das ver­da­dei­ras [vozes] autên­ti­cas da lite­ra­tu­ra lati­no-ame­ri­ca­na”, ao lado de Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Juan Rulfo. O volu­me de 86 con­tos será lan­ça­do no Brasil pela Rocco em abril do ano que vem, com o títu­lo Todos os con­tos. Na entre­vis­ta abai­xo, Benjamin Moser – bió­gra­fo e orga­ni­za­dor da obra de Clarice, que há mais de 12 anos se dedi­ca a tor­nar a auto­ra reco­nhe­ci­da lá fora – fala sobre a reper­cus­são inter­na­ci­o­nal do livro e comen­ta o ver­da­dei­ro fenô­me­no que Clarice se tor­nou nas redes soci­ais. Para Moser, o impor­tan­te é que essas peque­nas amos­tras façam com que o nome dela cir­cu­le e que ganhe cada vez mais lei­to­res.

Por que você acha que a Clarice faz tan­to suces­so nas redes soci­ais? Você acha que as pes­so­as que com­par­ti­lham as cita­ções são de fato lei­to­ras da obra dela, ou lei­to­ras em poten­ci­al?

Acho que cita­ção em rede soci­al tem vida pró­pria. Pelo que vejo no Twitter, por exem­plo, são sem­pre as mes­mas cin­co ou sete fra­ses, algu­mas dela, outras não. Mas, na ver­da­de, eu nun­ca esti­ve con­tra este tipo de mito­lo­gi­za­ção. Porque é impor­tan­te que pelo menos o nome dela (na ver­da­de, de qual­quer artis­ta que mere­ce ser lem­bra­do) cir­cu­le no mun­do. Quem sabe alguém vai pegar e ir mais lon­ge para conhe­cer a obra dela.

Em entre­vis­ta à Paris Review, você dis­se que, para ler Clarice, “você pre­ci­sa de uma cer­ta cons­ti­tui­ção emo­ci­o­nal”. Além dis­so, em A pai­xão segun­da G.H., ela afir­ma que pre­fe­re que o livro seja lido por pes­so­as de “alma já for­ma­da”. Nessas peque­nas amos­tras na inter­net, você acha que essa lei­tu­ra tor­na a auto­ra mais sua­ve, menos den­sa?

Não sei. Eu já vi mui­tas fra­ses boni­tas que me ins­ti­ga­ram a pen­sar sem que tam­bém fos­se ins­ti­ga­do a dedi­car (como ago­ra) doze anos de minha vida a tal autor. Então cla­ro que a minha lei­tu­ra da Clarice é mais den­sa do que a de alguém que só sabe uma fra­se dela. Mas não me inco­mo­da. O que que­ro é que as pes­so­as sai­bam que está ali. Alguns, depois, irão mais fun­do.

Na lis­ta dos 100 livros do ano, o New York Times sele­ci­o­nou The Complete Stories e dis­se que Clarice é “con­sis­ten­te­men­te deli­ran­te”. Na sua opi­nião, como ela está sen­do rece­bi­da nos Estados Unidos, depois des­sa cole­tâ­nea de con­tos, dos roman­ces tra­du­zi­dos e da sua bio­gra­fia, Why this World? Quais são os pró­xi­mos livros e pro­je­tos dela no pre­lo?

Quando come­cei com este pro­je­to, há mais de 12 anos, não podia ima­gi­nar que teria a recep­ção que vem ten­do. é o que Clarice mere­ce, mas de mere­cer até ter é uma dis­tân­cia mui­to lar­ga. E con­se­gui­mos supe­rar essa dis­tân­cia até fazer dela uma das gran­des des­co­ber­tas dos últi­mos anos na lite­ra­tu­ra inter­na­ci­o­nal. Agora o pró­xi­mo pas­so é con­ti­nu­ar com a tra­du­ção dos livros que ain­da fal­tam, mas depois de uma pau­sa minha para ter­mi­nar a bio­gra­fia da Susan Sontag.

A Rocco anun­ci­ou que em abril de 2016 vai lan­çar a ver­são bra­si­lei­ra de The Complete Stories. Você acha que o fato de Clarice rece­ber aten­ção inter­na­ci­o­nal faz com que o Brasil olhe para ela com outros olhos?

Claro, é sem­pre assim, em todos os paí­ses. Acho (por­que mui­ta gen­te me falou) que o meu tra­ba­lho aju­dou a cri­ar uma nova onda de lei­to­res de Clarice no Brasil. O que não era a minha ambi­ção: pen­sei que esta­va levan­do a obra dela para fora. Mas ago­ra, pen­san­do bem, acho que é lógi­co, por­que quan­do alguém tem mui­to suces­so inter­na­ci­o­nal é natu­ral os con­ter­râ­ne­os pen­sa­rem: inte­res­san­te, vou dar uma outra olha­da para aque­la escri­to­ra que só lem­bro vaga­men­te do cur­so de por­tu­guês no colé­gio. E foi o que acon­te­ceu.

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