Maracanazo, as elipses e a morte

Colunistas

13.01.16

Elipse é um recur­so de lin­gua­gem cuja fun­ção no enun­ci­a­do é supri­mir ele­men­tos que podem ser suben­ten­di­dos, seja pelo con­tex­to, seja pelas cir­cuns­tân­ci­as des­cri­tas pelo tex­to. É em tor­no de elip­ses e de mor­tes que o jor­na­lis­ta Arthur Dapieve escre­ve os cin­co con­tos de Maracanazo,  em tex­tos que vão do gro­tes­co ao sofis­ti­ca­do numa velo­ci­da­de que, à pri­mei­ra lida, pode espan­tar. Mas não é nem espan­to­so nem sur­pre­en­den­te que o esti­lo de escri­ta de Dapieve seja cor­tan­te. Sua for­ma nar­ra­ti­va pare­ce fazer ques­tão de rom­per com qual­quer pre­ten­são de com­ple­tu­de, apon­tan­do para o ele­men­to que fal­ta. As for­mas elíp­ti­cas fun­ci­o­nam, assim, como a ausên­cia que faz a fal­ta pre­sen­te, ou como a mor­te que faz a vida exis­tir.

O for­ma­to cur­to dos con­tos – embo­ra, a rigor, “Maracanazo”, que dá títu­lo ao livro, pos­sa ser con­si­de­ra­do uma nove­la, publi­ca­da e pre­mi­a­da na França – ofe­re­ce ao lei­tor for­mas nar­ra­ti­vas que seus roman­ces ante­ri­o­res já esbo­ça­vam, mas que ama­du­re­cem quan­do o autor exer­ci­ta o cor­te que pare­ce bro­tar de ins­pi­ra­ção da psi­ca­ná­li­se laca­ni­a­na. Quando a nar­ra­ti­va come­ça a cor­rer o ris­co de virar puro gozo nar­cí­si­co, sua inter­rup­ção man­tém a for­ça do não dito, da qual se vale o bom tex­to lite­rá­rio.

A par­ti­da entre Chile e Espanha em 2014, no Maracanã, tema do con­to “Maracanazo”

Inspirado por auto­res ingle­ses como Ian McEwan e o nipo-bri­tâ­ni­co Kazuo Ishiguro, Dapieve faz com as elip­ses aqui­lo que faze­mos na vida: suben­ten­de­mos a fini­tu­de pelo con­tex­to, supri­min­do coti­di­a­na­men­te ele­men­tos que pode­ri­am tor­nar a mor­te uma evi­dên­cia explí­ci­ta. A estrei­ta liga­ção entre lin­gua­gem e mor­te, tema que desen­vol­vi em arti­go recen­te, não é uma ques­tão entre outras. É na incom­ple­tu­de da lin­gua­gem que nos tor­na­mos seres falan­tes, mas é tam­bém nes­sa incom­ple­tu­de que cons­ta­ta­mos que a expe­ri­ên­cia da mor­te é indi­zí­vel. Primeiro, por­que quem mor­re silen­cia. Depois, por­que quem sobre­vi­ve só pode falar sobre aqui­lo que não sabe, man­ten­do a mor­te – como as elip­ses de Dapieve – como o ele­men­to suben­ten­di­do de toda nar­ra­ti­va.

Os con­tos levam a expe­ri­ên­cia de lei­tu­ra até o limi­te do insu­por­tá­vel, como no pri­mo­ro­so “Tempo ruim”, aber­tu­ra do volu­me. A mor­te ali está explí­ci­ta, é con­ta­da em toda sua bru­ta­li­da­de, mas tam­bém é implí­ci­ta na per­gun­ta do ado­les­cen­te: cor­po ou tuba­rão? O lei­tor pode pre­fe­rir apos­tar em tuba­rão, mas a dúvi­da sobre o cor­po mor­to o acom­pa­nha­rá até depois do fim da lei­tu­ra, por que tal­vez a vida seja só isso mes­mo, saber e ao mes­mo tem­po igno­rar que a hipó­te­se da mor­te um dia se con­fir­ma­rá.

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