Vera Damian

Vera Damian

Marrom e amarelo

Em processo

26.04.17

Estou tra­ba­lhan­do nes­te roman­ce, Marrom e ama­re­lo, já há três anos (o con­tra­to para o livro com a Alfaguara foi assi­na­do em 2012, quan­do esta onda mun­di­al de deba­tes em tor­no do racis­mo nem sequer esta­va suge­ri­da no hori­zon­te). O volu­me do mate­ri­al reco­lhi­do é expres­si­vo, na ver­da­de, imen­so. O que dizer? Parece um livro sobre racis­mo no Brasil (e é), mas pen­so que está mais para uma nar­ra­ti­va sobre modos diver­sos de vitó­ria, de afir­ma­ção vito­ri­o­sa. Volto à temá­ti­ca da iden­ti­da­de que, à exce­ção da sáti­ra O ano em que vivi de lite­ra­tu­ra, tem sido a mar­ca da minha pro­du­ção no cam­po da nar­ra­ti­va lon­ga fic­ci­o­nal.

 

Águas de lastro

No meio daque­les olha­res aguar­dan­do eu falar, apre­sen­tar um posi­ci­o­na­men­to que jus­ti­fi­cas­se minha pre­sen­ça como o últi­mo mem­bro con­vo­ca­do pra­que­la comis­são mon­ta­da às pres­sas pelo novo gover­no, minha pos­tu­ra, meu tênis, minha cal­ça jeans, minha cami­se­ta, nada ale­a­tó­ria, com a estam­pa dos Public Enemy no pei­to, a con­ver­sa que minha mãe teve comi­go e meu irmão, quan­do eu tinha sete anos e ele seis, ten­tan­do dimi­nuir a per­ple­xi­da­de desen­ca­de­a­da nele pelas gros­se­ri­as ditas por três cole­gui­nhas seus do jar­dim de infân­cia, cole­gui­nhas que, logo no segun­do dia de aula, cha­ma­ram ele de pico­lé de piche, de saci, de magui­la gori­la, por­que numa brin­ca­dei­ra de pega-pega duran­te o recreio ele não se sub­me­teu aos coman­dos deles como uma cri­an­ça bra­si­lei­ra negra deve­ria se sub­me­ter a um trio de cri­an­ças bra­si­lei­ras bran­cas naque­le ano de mil nove­cen­tos e seten­ta e três. No meio dos olha­res está­ti­cos dos que che­ga­ram antes de mim na comis­são, da ima­gem da minha mãe segu­ran­do o deses­pe­ro pra ate­nu­ar a per­ple­xi­da­de do meu irmão, as pre­ga­ções dela que pas­sa­ram a acon­te­cer com frequên­cia, ain­da naque­le ano de seten­ta e três, por­que eu, tal­vez que­ren­do con­fron­tá-la, tal­vez que­ren­do res­pon­sa­bi­li­zá-la pela dife­ren­ça que antes não exis­tia daque­la for­ma agres­si­va na minha vida e na do meu irmão e se repe­tia nas fra­ses que se repe­ti­am nas bocas não dum trio de cape­tas bran­cos irre­le­van­tes, mas de qua­se todos os cole­gas, de alguns fun­ci­o­ná­ri­os e pos­si­vel­men­te até de algu­ma pro­fes­so­ra mais des­cui­da­da daque­la esco­la, fra­ses sobre não ser­mos irmãos de ver­da­de, irmãos de san­gue, mes­mo ele res­pon­den­do e eu res­pon­den­do, como cri­an­ças res­pon­dem entre­gan­do tudo que lhes per­ten­ce, Sim, Sim, A gen­te é sim irmão de san­gue, por­que, no padrão dos que per­gun­ta­vam, no padrão de Porto Alegre, no padrão do Brasil daque­le ano de seten­ta e três, eu, de pele bem cla­ra, cabe­lo liso cas­ta­nho cla­ro puxan­do pro loi­ro, era um bran­co, e ele, o meu irmão, de pele escu­ra, mar­rom, cabe­lo pre­to cres­po, era um pre­to, per­gun­tar pra ela de qual raça a gen­te era, e ela, dis­si­mu­lan­do a pró­pria rai­va, res­pon­der que raças não impor­ta­vam, e eu insis­tir, e ela então afir­mar, em fala que seria repli­ca­da não só naque­le ano de seten­ta e três, mas por toda minha infân­cia, que éra­mos negros, que a nos­sa famí­lia, ela, de pele cla­ra, cabe­lo liso, meu pai, de pele escu­ra, menos escu­ra que a pele do meu irmão, cabe­lo bem cres­po, o meu irmão e eu, éra­mos uma famí­lia negra. No meio daque­les olha­res dos caras da comis­são, olha­res que o meu evi­ta­va apa­nhar de punha­do, minha mãe ten­tan­do anu­lar a per­ple­xi­da­de do meu irmão, que tinha che­ga­do do segun­do dia de pré-esco­la muda­do, minha mãe inven­tan­do a senha de ser­mos qua­tro negros, uma famí­lia negra, blin­dan­do meu irmão e blin­dan­do a mim pra sem­pre, meu ani­ver­sá­rio de oito anos quan­do a minha tia, a irmã da minha mãe, apa­re­ceu com os seus dois filhos e tam­bém com um pri­mo deles, o que tinha a minha ida­de, o que eu nun­ca tinha vis­to antes, o que, num momen­to de ruí­do na dinâ­mi­ca de amor­te­ci­men­tos e ata­ques de cri­an­ças se conhe­cen­do e se entro­san­do numa fes­ta de ani­ver­sá­rio, me ele­geu seu opo­nen­te e ficou dizen­do que, ape­sar daque­le meu cabe­lo lam­bi­do, cla­re­a­do, o cabe­lo do meu pai era pixaim, era cara­pi­nha, e só ser­via pra lim­par a sola do sapa­to do pai dele, que era bran­co e tinha cabe­lo loi­ro de ver­da­de e liso de ver­da­de, o que me fez aguar­dar pra depois que ter­mi­nas­se a série de brin­ca­dei­ras da dinâ­mi­ca de cri­an­ças que se se entro­sa­ram numa fes­ta de ani­ver­sá­rio, quan­do todas as cri­an­ças do ani­ver­sá­rio esti­ves­sem can­sa­das, ente­di­a­das ou dis­traí­das, aguar­dar o momen­to em que aca­ba­ria se des­cui­dan­do e se afas­tan­do da área de obser­va­ção dos adul­tos, pra me apro­xi­mar e, igual a todos os fil­mes de ter­ror a que eu já tinha assis­ti­do na tele­vi­são, sen­do mons­tro com­ple­to, levar as mãos até o seu pes­co­ço, pren­sá-lo con­tra a pare­de e come­çar a esga­ná-lo, gru­nhin­do Vou te matar, Depois meu pai vai matar o teu, e só não levar o estran­gu­la­men­to a con­sequên­ci­as mais gra­ves por­que meus dois pri­mos, que eram alguns anos mais velhos do que eu, mas de por­te físi­co menor do que o meu, se agar­ra­ram nos meus bra­ços me obri­gan­do a inter­rom­per a úni­ca rea­ção que me pare­ceu jus­ta, a de aca­bar com aque­le guri, de aca­bar com qual­quer bran­co que falas­se mal do meu pai. No meio daque­les pana­cas e da sua curi­o­si­da­de pana­ca, meu pri­mei­ro dia na tal da comis­são, minha mãe, ain­da com trin­ta e dois anos, con­ver­san­do com nós dois ain­da peque­nos, meu irmão que nun­ca mais fica­ria per­ple­xo, minha mãe inven­tan­do uma regra pra que­brar o mun­do, eu estran­gu­lan­do o filho da puta do bran­qui­nho, a tar­de de domin­go em que meu irmão esta­va com dor de gar­gan­ta e febre, e meu pai se pre­pa­ran­do pra sair de casa até o cam­po de fute­bol do Parque Municipal Ararigbóia onde ia dis­pu­tar um tor­neio qua­dran­gu­lar entre times da polí­cia civil e da polí­cia mili­tar, e minha mãe pediu pra ele me levar jun­to, dele dizer que não dava por­que ia ser um tor­neio dis­pu­ta­do, ten­so, e além do mais não ia ter quem cui­das­se de mim, dela dizer que tinha cer­te­za que ele ia encon­trar uma solu­ção, dele ficar con­tra­ri­a­do, como às vezes fica­va quan­do tinha de sair só comi­go, mas aca­bar aten­den­do ao pedi­do dela, e no Ararigbóia ele, o meu pai, des­co­brir que o téc­ni­co do time dele não esta­va lá por­que teve uma cri­se de cál­cu­lo renal e esta­va medi­ca­do em casa e que ele era o úni­co com expe­ri­ên­cia sufi­ci­en­te pra ficar na vaga, vaga que pelo regu­la­men­to do tor­neio não podia ficar deso­cu­pa­da, e me dei­xar com qua­tro caras que já esta­vam far­da­dos enquan­to ele, assu­min­do a bron­ca, ia resol­ver as pen­den­gas buro­crá­ti­cas da subs­ti­tui­ção do nome do téc­ni­co que não apa­re­ceu pelo seu e da inclu­são do novo joga­dor, o que entra­ria no seu lugar, na ficha de ins­cri­ção e na súmu­la, e do mais alto entre os caras far­da­dos, um meio care­ca, logo depois do meu pai se afas­tar na dire­ção da outra late­ral do cam­po, per­gun­tar Esse guri bran­co des­se jei­to é filho do Ênio, um dos outros três res­pon­der É pare­ci­do com o Ênio, dos outros dois fica­rem em silên­cio, do mais alto insis­tir Branco demais, dum quin­to cara far­da­do com o mes­mo uni­for­me sur­gir por trás de mim e em segui­da per­gun­tar Temos novo con­tra­ta­do do time, e depois, sem me dar tem­po de rea­ção, Qual teu nome aí, novo con­tra­ta­do, e eu res­pon­der que era Felipe, ten­tan­do olhar pro ros­to dele, mas ten­do difi­cul­da­de por­que ele esta­va na dire­ção de onde vinha a luz do sol, e o cara alto meio care­ca dizer que eu era o filho do Ênio, e o recém-che­ga­do dizer Que legal, Um guri­zão for­te, igual ao pai, e pas­sar a mão pesa­da na minha cabe­ça dizen­do Bah, piá, tu tá com jei­to de quem vai ser zaguei­ro que­bra­dor de cen­tro­a­van­te, Bah, Olha a gros­su­ra des­sas per­nas, Tô botan­do minhas fichas em ti, e sair na mes­mas dire­ção do meu pai, e d’eu vol­tar a aten­ção pro cara alto meio care­ca, e o cara alto meio care­ca, com um sor­ri­so de pei­xe mor­to, ficar olhan­do pros outros três enquan­to coça­va o quei­xo e, em micro inter­va­los fre­né­ti­cos, ficar olhan­do pra mim tam­bém. No meio dos olha­res dos que pro­va­vel­men­te já esta­vam se con­si­de­ran­do os donos da comis­são, a von­ta­de de dizer que eu não era um deles, não era um afe­ta­do pseu­do­no­tá­vel de mer­da igual a eles, minha mãe assus­ta­da e per­di­da dian­te dos dois filhos peque­nos recém vin­dos da esco­la, sema­nas depois se arris­can­do pelo cami­nho mais lon­go, Somos negros, e tor­cen­do pra um dia um de nós con­se­guir que­brar a por­ca­ria do mun­do por ela, eu, cri­an­ça, sen­tin­do pela pri­mei­ra vez a von­ta­de de matar e ten­do a chan­ce de matar, eu e meu pai no cam­po do Ararigbóia, um leve cons­tran­gi­men­to, e nos­sas peles, crô­ni­cas, de escu­ri­dão dife­ren­te, um dia de mar­ço de mil nove­cen­tos e seten­ta e sete, o dia duma sema­na em que fal­tou água por cin­co dias na zona cen­tro-les­te de Porto Alegre atin­gin­do a rua onde a gen­te mora­va, e meu pai nos levan­do, pelo ter­cei­ro dia segui­do, até o pré­dio  onde tra­ba­lha­va como peri­to da polí­cia civil, onde enchía­mos dois galões com água fil­tra­da e tomá­va­mos banho, e era tar­de da noi­te, e eu e Jonas está­va­mos exci­ta­dos, um exci­ta­men­to que vinha da irri­ta­ção de não ter­mos água em casa pelo quar­to dia segui­do, de ser tar­de, por vol­ta das onze da noi­te, mas que vinha tam­bém da dis­cus­são tipo dis­cus­são sem gran­des moti­vos que cos­tu­má­va­mos ter fre­quen­te­men­te, dis­cus­são que come­çou com um Vou tomar banho pri­mei­ro, que teve como res­pos­ta um Não, Mas não mes­mo, Tu já tomou banho pri­mei­ro ontem e antes de ontem, Hoje eu é que vou pri­mei­ro, dis­cus­são que se alon­gou e que no momen­to da saí­da do meu pai do banhei­ro já tinha vira­do empur­rões e xin­ga­men­tos, vira­do eu ata­can­do meu irmão com Vai se foder, negui­nho bur­ro de mer­da e ele con­tra-ata­can­do com Vai tomar no teu cu, bicha sara­rá recal­ca­da, meu pai empre­ga­va a pala­vra recal­ca­do quan­do que­ria se refe­rir aos mula­tos cla­ros conhe­ci­dos nos­sos que ali­sa­vam o cabe­lo e tinham ver­go­nha de serem apon­ta­dos como mula­tos, negros, e aqui­lo foi o sufi­ci­en­te pra que ele dei­xas­se a toa­lha recém usa­da de lado, agar­ras­se a nós dois pelas golas das cami­se­tas e nos levas­se até a sala de trei­na­men­to e mus­cu­la­ção, um mini­gi­ná­sio onde além dos apa­re­lhos de malhar tinha um rin­gue de piso de tata­me, acen­der as luzes, fazer a gen­te subir no tata­me, pegar uma cor­da de pular dizen­do que se a gen­te que­ria bri­gar então ele ia fazer a gen­te bri­gar, ati­rar dois pares de luvas aos nos­sos pés, man­dar a gen­te ves­ti-las, dizer que se a gen­te não lutas­se, e enquan­to lutas­se não xin­gas­se um ao outro de negui­nho e sara­rá, ele ia nos sur­rar com aque­la cor­da, olhei pra ele, pedi des­cul­pas, ele dis­se pra eu não pedir des­cul­pas pra ele, dis­se que eu, sen­do o mais velho, o que tinha de dar o exem­plo, tinha era de pedir des­cul­pas pro meu irmão, man­dou a gen­te ves­tir as luvas duma vez e se abra­çar, ficar de ros­tos cola­dos um no do outro, pegar a cor­da de pular e nos amar­rar aper­ta­do dizen­do que íamos ficar ali gru­da­dos um no outro pra pen­sar no que, Pelo amor de Deus, leva­va um irmão a xin­gar o outro irmão usan­do pala­vras e um tom de falar que só racis­tas usa­vam, ele apa­gou as luzes do mini­gi­ná­sio e saiu tran­can­do a por­ta, vol­tan­do vin­te minu­tos depois pra nos encon­trar desa­mar­ra­dos, dei­ta­dos no tata­me do rin­gue, um pró­xi­mo ao outro. No meio deles e da comis­são deles, a cer­te­za de que tudo o que eu não podia fazer era levan­tar e ir embo­ra, minha mãe olhan­do pro meu irmão e depois pra mim, saben­do que eu nun­ca seria cha­ma­do de maca­co como ele foi, minha mãe pin­tan­do sua famí­lia mes­ti­ça com a pala­vra negra, minhas mãos ata­can­do um des­co­nhe­ci­do, eu no Ararigbóia ten­tan­do com­pre­en­der o que o homem alto esta­va que­ren­do dizer, meu cor­po mai­or amar­ra­do con­tra o cor­po menor do meu irmão, a manhã quan­do um cara da minha tur­ma da oita­va série, um cara tími­do e bom alu­no com quem eu até me dava bem, colo­cou duas bana­nas na mochi­la duma cole­ga no inter­va­lo das aulas, sem que nin­guém per­ce­bes­se, e ela, ao vol­tar pra sala acom­pa­nha­da de outras duas cole­gas, per­ce­ben­do que a mochi­la não esta­va na posi­ção e no lugar onde tinha dei­xa­do, abriu o zíper e encon­trou o paco­te de papel par­do com as fru­tas den­tro, paco­te onde esta­va escri­to com pin­cel atô­mi­co gros­so EXPRESSO DA SELVA, e uma das acom­pa­nhan­tes gri­tou Meu Jesus e ficou repe­tin­do Bananas, Duas bana­nas, Que hor­ror, Que fal­ta de res­pei­to, des­fa­zen­do qual­quer chan­ce da situ­a­ção pas­sar des­per­ce­bi­da pelo res­to da tur­ma, cara que aca­bou des­mas­ca­ra­do por­que era da sele­ção de bas­que­te do colé­gio e eu tam­bém era da sele­ção de bas­que­te do colé­gio e no dia seguin­te, antes de come­çar o trei­no, quan­do entrei no ves­tiá­rio pra tro­car de rou­pa, sur­pre­en­di ele se van­glo­ri­an­do pra dois outros alu­nos que fazi­am par­te da sele­ção de han­de­bol, que trei­na­va no horá­rio ante­ri­or ao nos­so, com cer­te­za os dois mais men­tal­men­te per­tur­ba­dos da equi­pe de han­de­bol, a equi­pe mais men­tal­men­te per­tur­ba­da de toda a esco­la, e quan­do um deles per­gun­tou sobre ela feder mui­to ou pou­co foi que nota­ram a minha pre­sen­ça, se dan­do con­ta de que eu esta­va lá fazen­do nada além de escu­tá-los, e eu não dar satis­fa­ção, e trei­nar como se nada tives­se acon­te­ci­do, e no dia seguin­te, toma­do por uma fri­e­za abso­lu­ta, ir à sala do dire­tor da esco­la e dela­tá-lo, o que resul­tou na sus­pen­são dele da esco­la e na minha exclu­são sumá­ria do cír­cu­lo do com­pa­nhei­ris­mo macho alfa da equi­pe de bas­que­te pela mai­or par­te dos caras da equi­pe, mai­or par­te que pas­sou a se refe­rir a mim como o dedo-duro e a me boi­co­tar de todas as for­mas até que, dois meses depois, eu desis­tis­se dos trei­nos e desis­tis­se do bas­que­te. Eu no meio daque­la gen­te, sen­do ava­li­a­do, mes­mo já sen­do ofi­ci­al­men­te mem­bro da comis­são, minha mãe falan­do, minha mãe pre­gan­do, eu esprei­tan­do o pri­mo dos pri­mos, eu, o fute­bol, os outros e o meu pai se des­do­bran­do, eu, meu irmão e a ordem pra lutar, eu dedu­ran­do um cole­ga que ten­tou fer­rar uma cole­ga, um sába­do de outu­bro de mil nove­cen­tos e oiten­ta e dois em que men­ti pros meus pais que ia de caro­na jun­to com outros dois cole­gas de esco­la pra casa da famí­lia dum deles em Gramado e que ia vol­tar no domin­go, quan­do na ver­da­de fui de ôni­bus pra Caxias do Sul pro Cio da Terra, um even­to que esta­va acon­te­cen­do nos pavi­lhões do Parque de Eventos Festa da Uva e que tinha sido divul­ga­do pelos orga­ni­za­do­res como o pri­mei­ro encon­tro livre da juven­tu­de gaú­cha, um fes­ti­val de arte e deba­tes onde não ia ter cen­su­ra, onde não ia ter repres­são, e lá me jun­tei a uns caras que aca­bei conhe­cen­do na hora pra rachar uns gar­ra­fões de vinho, umas cucas e umas per­nas de sala­me de por­co, matar a fome, a sede, e depois me sepa­rar, ficar cir­cu­lan­do entre os gru­pos de pes­so­as espa­lha­dos pelo par­que, escu­tan­do os shows de lon­ge, obser­van­do, ten­tan­do apren­der o que aque­les hip­pi­es todos mais velhos do que eu sabi­am e eu ain­da não, e só na hora do show do Ednardo, lá pelas três da manhã, por­que Ednardo come­çou a can­tar Pavão Misterioso, eu me apro­xi­mei pra assis­tir, fiquei a uns cin­quen­ta metros do pal­co, para­do, absor­to, até, qua­se no final da apre­sen­ta­ção, um homem, meio em tran­se, pas­sar falan­do em loop Não tem negro aqui, Não tô ven­do juven­tu­de negra aqui, e eu, nego­ci­an­do com a sobri­e­da­de que naque­les dias era o padrão de regu­la­gem da minha vida sem gra­ça, seguir atrás dele, man­ten­do dis­tân­cia, falan­do tam­bém Não tem negro aqui, Não tô ven­do juven­tu­de negra aqui, e con­ti­nu­ar cir­cu­lan­do e falan­do, por uns dez minu­tos ao menos, mes­mo depois que ele desis­tiu do tran­se da fala. Eu, no meio daque­les olha­res aguar­dan­do minha mani­fes­ta­ção. Eu, pron­to a dar mos­tra dos fan­tas­mas que ocu­pa­vam meus pen­sa­men­tos (fan­tas­mas que foram as vezes em que me sen­ti emba­ra­ça­do por ser quem eu era, por estar onde esta­va; pron­to a dizer que em nenhu­ma delas me sen­ti tão obri­ga­do a tomar a deci­são de come­çar a me decla­rar negro como da vez em que me apre­sen­tei no Oitavo Batalhão Logístico pra sele­ção do ser­vi­ço mili­tar em mil nove­cen­tos e oiten­ta e qua­tro e pre­sen­ci­ei a cena, a cena mais estú­pi­da). Eu (saben­do que não pas­sa­va dum des­co­nhe­ci­do para eles, qua­se todos ali por indi­ca­ção do novo gover­no), menos aris­co, come­çan­do a falar e falan­do até che­gar à altu­ra do A pes­soa nun­ca adi­vi­nha qual vai ser a gota d’água que, Bem, Vocês sabem, A minha gota d’água, como eu tava dizen­do, foi esse dia da sele­ção pro Exército, Aquilo afe­tou minha cabe­ça por anos. E, na pau­sa que ocu­pou dois ou três segun­dos, pude ver nos seus olhos que, fei­to eu, não tinham a menor ideia aon­de che­ga­ría­mos com as reu­niões daque­la comis­são. Aqueles dias, vocês sabem, tão des­pro­vi­dos da cer­te­za do que é cer­to e do que é erra­do, Quase como estes de hoje, eu dis­se. O medo, o velho medo de sem­pre, eu dis­se. Então eles come­ça­ram a me escu­tar.

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