Mundo cão e a barbárie à espreita

No cinema

25.03.16

No Brasil e no mun­do, vive­mos tem­pos fero­zes. A ani­ma­li­da­de do homem pare­ce estar à flor da pele, pres­tes a rom­per, por um nada, a fina cros­ta de civi­li­za­ção que nos sepa­ra da bar­bá­rie. Deliberadamente ou não, esse “espí­ri­to do tem­po” per­meia o dra­ma poli­ci­al Mundo cão, de Marcos Jorge. 

Políticos, jor­na­lis­tas e joga­do­res de fute­bol são fre­quen­te­men­te alcu­nha­dos (como xin­ga­men­to ou elo­gio) de pit­bulls ou rottwei­lers por con­ta de sua agres­si­vi­da­de. No cine­ma, de Cão bran­co (1982), de Samuel Fuller, a Amores bru­tos (2000), de Alejandro Iñárritu, cães rai­vo­sos apa­re­cem de quan­do em quan­do como sig­nos de lou­cu­ra e ódio cego.

O cão como arma

No fil­me de Marcos Jorge (o dire­tor de Estômago Corpos celes­tes), ambi­en­ta­do em São Paulo, os dois per­so­na­gens que o aca­so colo­ca­rá em con­fron­to têm em comum o uni­ver­so cani­no. Um deles, Santana (Babu Santana), tra­ba­lha no ser­vi­ço de con­tro­le de zoo­no­ses, reco­lhen­do cães da rua para um canil da pre­fei­tu­ra. O outro, Nenê (Lázaro Ramos), um ban­di­do com obs­cu­ras rela­ções com a polí­cia, cria rottwei­lers e dober­manns para inti­mi­dar e oca­si­o­nal­men­te estra­ça­lhar ini­mi­gos.

Embora a nar­ra­ti­va acom­pa­nhe ora um, ora o outro, somos leva­dos niti­da­men­te a uma iden­ti­fi­ca­ção com o per­so­na­gem de Santana, mos­tra­do como sim­pá­ti­co pai de famí­lia, tor­ce­dor do Corinthians e bate­ris­ta ama­dor nas horas vagas. É em tor­no de seu núcleo fami­li­ar – a mulher evan­gé­li­ca (Adriana Esteves), o filho cri­an­ça (Vini Carvalho) e a filha ado­les­cen­te (Thainá Duarte) – que se desen­vol­ve­rá o sus­pen­se do fil­me.

Dentro des­sa estru­tu­ra dra­má­ti­ca, diga­mos, clás­si­ca (a famí­lia “do bem” ame­a­ça­da pelo mal), que em alguns momen­tos faz lem­brar Cabo do medo, de Scorsese, o dire­tor Marcos Jorge inse­re porém uma série de sur­pre­sas e modu­la­ções ori­gi­nais.

O jogo no Pacaembu é uma delas, com direi­to a um pla­no de grua que é qua­se o inver­so exa­to do céle­bre pla­no-sequên­cia do está­dio de fute­bol em O segre­do dos seus olhos: no fil­me argen­ti­no, par­te-se de uma toma­da aérea de con­jun­to para cen­trar o foco nos per­so­na­gens na arqui­ban­ca­da; em Mundo cão, abre-se dos per­so­na­gens para o está­dio, com o recuo da câme­ra. A con­cep­ção da cena é melhor que sua rea­li­za­ção téc­ni­ca: quan­do se mos­tra o ter­re­no de jogo em pla­no geral, per­ce­be-se cla­ra­men­te que se tra­ta de um cam­po vir­tu­al, como de vide­o­ga­me.

Alguns diá­lo­gos, fil­ma­dos num campo/contracampo con­ven­ci­o­nal, enfra­que­cem um tan­to o fil­me. Por exem­plo: na cabi­ne da “car­ro­ci­nha” da pre­fei­tu­ra, logo no iní­cio, a con­ver­sa entre os três cole­gas de tra­ba­lho expli­ci­ta de modo des­ne­ces­sá­rio o tema civi­li­za­ção x bar­bá­rie a que alu­di aci­ma, atu­a­li­zan­do-o para as dis­cus­sões vigen­tes sobre “como lidar com os ban­di­dos” e coi­sas do tipo.

Sutilezas do som

Quando se entre­ga à nar­ra­ção sem pala­vras, mera­men­te por ima­gens e ruí­dos, Mundo cão cres­ce sen­si­vel­men­te, con­du­zi­do pela câme­ra desen­vol­ta de Toca Seabra (dire­tor de foto­gra­fia de O inva­sor Estômago, entre outros). Pelo fato de uma per­so­na­gem impor­tan­te ser sur­da-muda, o tra­ba­lho com o som é sutil e deci­si­vo. A ideia do estú­dio com iso­la­men­to acús­ti­co impro­vi­sa­do em que Santana se exer­ci­ta na bate­ria é mui­to bem uti­li­za­da.

No mais, o melo­dra­ma fami­li­ar, que por vezes pare­ce pres­tes a des­cam­bar, é iro­ni­za­do e mati­za­do por algu­mas inver­sões impre­vis­tas. Tudo é iman­ta­do por uma ten­são que se des­lo­ca entre os per­so­na­gens, con­cen­tran­do-se ora num ora em outro, cada um deles fla­gra­do em seus momen­tos de dúvi­da e soli­dão.

No con­jun­to, com todas as suas even­tu­ais irre­gu­la­ri­da­des, Mundo cão é um dig­no exem­plar de uma ver­ten­te de lon­gas-metra­gens bra­si­lei­ros que vêm tra­fe­gan­do na fron­tei­ra entre o cine­ma de gêne­ro e o “fil­me de autor”, de que fazem par­te O lobo atrás da por­ta, de Fernando Coimbra, Quando eu era vivo, de Marco Dutra, e os ain­da iné­di­tos no cir­cui­to Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira, e Para minha ama­da mor­ta, de Aly Muritiba.

Faltou dizer que o elen­co prin­ci­pal está per­fei­to e que a tri­lha musi­cal é exce­len­te.

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