O filme “brasileiro” de Pablo Trapero

No cinema

09.11.12

De tan­to mani­fes­tar­mos inve­ja do cine­ma argen­ti­no, Pablo Trapero resol­veu fazer um fil­me “bra­si­lei­ro”, ou antes, o fil­me que os bra­si­lei­ros se esque­ce­ram de fazer. Não que não faça­mos “fil­mes de fave­la”, mas os nos­sos, em geral, são ban­gue-ban­gues de moci­nhos ver­sus ban­di­dos, ou de ban­di­dos ver­sus ban­di­dos. Filmes de ação à ame­ri­ca­na, em que o pri­mei­ro pla­no é ocu­pa­do pelo cri­me, como se fos­se isso o que cons­ti­tui, em últi­ma ins­tân­cia, aque­le mun­do. Elefante bran­co é outra coi­sa.

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Descontadas algu­mas dife­ren­ças de topo­gra­fia, tro­ca­dos os ros­tos de matriz indí­ge­na por outros mais afro, Elefante bran­co pare­ce­ria fil­ma­do numa fave­la do Rio ou de São Paulo. Mas é Buenos Aires — não a “euro­peia” Buenos Aires dos cafés e livra­ri­as, mas a Buenos Aires escon­di­da das vil­las e cor­ti­ços. Não por aca­so, o bair­ro mise­rá­vel onde se pas­sa a ação do fil­me cha­ma-se Ciudad Oculta, pois em tor­no dele foi cons­truí­do um muro por oca­sião da Copa do Mundo de 1978, para escon­dê-lo dos turis­tas e da impren­sa inter­na­ci­o­nal.

O que inte­res­sa aqui, a meu ver, são basi­ca­men­te duas coi­sas: 1) por que via Trapero pene­tra nes­se mun­do escon­di­do; 2) de que manei­ra o des­cre­ve.

A via de entra­da é a assis­tên­cia soci­al. Padres e assis­ten­tes soci­ais que par­ti­ci­pam do tra­ba­lho comu­ni­tá­rio nos con­du­zem pelo bair­ro ocul­to como Virgílio con­du­ziu Dante pelos cír­cu­los do infer­no. São indi­ví­du­os bran­cos, ins­truí­dos, de clas­se média, com os quais o gros­so da pla­teia atu­al de cine­ma pode se iden­ti­fi­car. Além do mais, são encar­na­dos por ato­res conhe­ci­dos e caris­má­ti­cos: o inde­fec­tí­vel Ricardo Darin e o bel­ga Jérémie Renier (dos fil­mes dos irmãos Dardene) como padres abne­ga­dos, Martina Gusman (de LeoneraAbutres etc.) como assis­ten­te soci­al empe­nha­da.

Labirinto em escom­bros

O retra­to que o fil­me nos dá des­se lugar é o de um labi­rin­to sem saí­da, domi­na­do por um gigan­tes­co pré­dio em escom­bros, o ele­fan­te bran­co do títu­lo, que era para ter sido o mai­or hos­pi­tal da América Latina e foi aban­do­na­do a meio cami­nho, como tan­tos edi­fí­ci­os de metró­po­les do Terceiro Mundo, ain­da em cons­tru­ção, mas já em ruí­nas.

O fato de ter em seu cen­tro per­so­na­gens movi­dos pelo huma­ni­ta­ris­mo e pela com­pai­xão cris­tã não faz de Elefante bran­co um fil­me assis­ten­ci­a­lis­ta ou de men­sa­gem edi­fi­can­te. Muito pelo con­trá­rio: à medi­da que a nar­ra­ti­va avan­ça, ficam cada vez mais cla­ros os limi­tes da ação huma­ni­tá­ria num con­tex­to soci­al con­fla­gra­do, bem como as con­tra­di­ções da Igreja enquan­to ins­ti­tui­ção e a omis­são do Estado, que só entra na fave­la como for­ça poli­ci­al, para repri­mir, espan­car e matar (outra seme­lhan­ça com o caso bra­si­lei­ro).

Trapero gos­ta das tin­tas for­tes, em ter­mos dra­má­ti­cos, e dos drás­ti­cos con­tras­tes, em ter­mos visu­ais. Seu fil­me come­ça com o clo­se de uma cabe­ça (a de Darín) sen­do exa­mi­na­da num apa­re­lho da mais avan­ça­da tec­no­lo­gia. Corta para a sel­va peru­a­na, numa noi­te chu­vo­sa, em que guer­ri­lhei­ros (ou sol­da­dos) dizi­mam um luga­re­jo. A sel­va e a cida­de, tec­no­lo­gia de pon­ta e bar­bá­rie ancestral,sol e chu­va, dia e noi­te, amor fra­ter­no e ódio anár­qui­co, anta­go­nis­mos de clas­se, de etnia e de cul­tu­ra: o cine­ma de Trapero é um cine­ma de atri­to.

Algumas ima­gens são mar­can­tes e per­tur­ba­do­ras. Exemplo: ao per­ce­ber que o jovem vici­a­do em crack Monito (Federico Barga) fugiu do apar­ta­men­to onde o man­ti­nha pro­te­gi­do, o padre Julián (Darín) sai à jane­la para pro­cu­rá-lo; o pla­no seguin­te, bem aber­to, mos­tra o garo­to agar­ra­do à pare­de do “ele­fan­te bran­co”, fei­to um arre­me­do canhes­tro do homem-ara­nha. Há algo de pri­me­vo e ine­xo­rá­vel nes­sa ima­gem — um ani­mal em bus­ca da satis­fa­ção de dese­jos pri­má­ri­os.

Outro pon­to for­te do fil­me é o modo docu­men­tal, vibran­te, como ence­na os con­fron­tos entre mora­do­res e a polí­cia, qua­se como se aqui­lo fos­se uma repor­ta­gem de tele­vi­são. Aqui, para vol­tar ao come­ço do tex­to, o con­fli­to cen­tral não é entre polí­cia e ban­di­do, mas entre a comu­ni­da­de uni­da, que ten­ta aos tran­cos melho­rar sua con­di­ção de vida, e a tro­pa de cho­que que inva­de o seu espa­ço para per­pe­tu­ar a injus­ta ordem vigen­te. Não é uma dife­ren­ça peque­na.

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