O som ao redor

Em cartaz

08.09.16

Dizer que o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abri­ga, entre setem­bro e novem­bro, a mai­or e mais abran­gen­te expo­si­ção do alba­nês Anri Sala no Brasil é ape­nas uma meia ver­da­de. Isso por­que a casa na Gávea, pro­je­ta­da por Olavo Redig de Campos e con­si­de­ra­da um mar­co da arqui­te­tu­ra moder­na da déca­da de 1950, não ser­vi­rá somen­te como gale­ria para Anri Sala: o momen­to pre­sen­te. Muito além dis­so, a casa é uma coad­ju­van­te de peso da expo­si­ção, pro­je­ta­da espe­ci­al­men­te para o espa­ço, evi­den­ci­an­do a rela­ção entre som e arqui­te­tu­ra que o artis­ta vem explo­ran­do cada vez mais em seus tra­ba­lhos. Durante o perío­do da mos­tra, que foi inau­gu­ra­da dia 10,  com uma con­ver­sa entre o artis­ta e a cura­do­ra Heloisa Espada, andar pelos cor­re­do­res, salas e jar­dins do IMS-RJ será, para o públi­co, uma expe­ri­ên­cia sen­so­ri­al impac­tan­te, em que a músi­ca dis­so­nan­te inva­de os ambi­en­tes para com­por his­tó­ri­as jun­to a foto­gra­fi­as, obje­tos e vide­oins­ta­la­ções pro­du­zi­das em vári­as épo­cas.

A arqui­te­tu­ra é a mol­du­ra do som, ela con­tém o som”, resu­me Sala, que reor­ga­ni­zou a cir­cu­la­ção natu­ral dos espa­ços da casa, con­vi­dan­do os visi­tan­tes a fazer um per­cur­so dis­tin­to e, por­tan­to, a lan­çar um olhar dis­tin­to sobre o lugar enquan­to o per­cor­re. “Uma expo­si­ção não ser­ve ape­nas para mos­trar obras edi­ta­das na ori­gem, mas tam­bém para mos­trá-las onde per­ten­cem, ao aqui e ago­ra, à visi­ta que é o des­ti­no final”, diz ele. Heloisa Espada tam­bém res­sal­ta a ques­tão do momen­to pre­sen­te no tra­ba­lho de Sala. “Ano que vem abri­re­mos uma expo­si­ção dele no IMS de São Paulo, e ela não será exa­ta­men­te essa que vere­mos aqui no Rio”.

Dos jar­dins às gale­ri­as inter­nas, o som esta­rá sem­pre ao redor. Logo na entra­da, por exem­plo, a ins­ta­la­ção bati­za­da de No win­dow no cry traz , cola­da num dos vidros do cor­re­dor, uma peque­ni­na cai­xa de músi­ca que toca sua­ve­men­te “Should I stay or should I go”, da ban­da ingle­sa The Clash. Espécie de hino punk, nor­mal­men­te toca­da e dan­ça­da de for­ma qua­se rai­vo­sa, a músi­ca está pre­sen­te de for­ma deli­ca­da em outros dois tra­ba­lhos de Sala, ambos em vídeo: em Le Clash (2010), a can­ção é ouvi­da num rea­le­jo e numa cai­xa de músi­ca nas ruas de Bordeaux, na França; em Tlatelolco Clash (2011), fil­ma­do na Praça das Três Culturas, na Cidade do México, “Should I stay or should I go” é toca­da tam­bém num rea­le­jo por diver­sas pes­so­as que vão inse­rin­do os car­tões per­fu­ra­dos com a músi­ca, geran­do rit­mos dife­ren­tes.

Na área dos cobo­gós, a ins­ta­la­ção Bridges in the dol­drums reú­ne qua­tro tam­bo­res que vibram ao som dos tre­chos de 74 músi­cas de gêne­ros diver­sos, do folk ao jazz, toca­dos por três ins­tru­men­tis­tas de sopro. Em outra vide­oins­ta­la­ção, Answer me, uma mulher ten­ta sem suces­so cha­mar a aten­ção do par­cei­ro, que aba­fa o som da voz dela ao tocar bate­ria numa altu­ra ensur­de­ce­do­ra. “A músi­ca, para Sala, é qua­se uma metá­fo­ra da difi­cul­da­de que temos de lidar, de manei­ra obje­ti­va, com a his­tó­ria. Ela é inva­di­da pelas cir­cuns­tân­ci­as do momen­to pre­sen­te”, obser­va Heloisa.

Por isso a cura­do­ra refor­ça que, tão fun­da­men­tal quan­to a rela­ção entre som e arqui­te­tu­ra é o entre­la­ça­men­to des­tas com aspec­tos polí­ti­cos e his­tó­ri­cos que Sala explo­ra em sua obra. Um dos tra­ba­lhos vis­tos no IMS-RJ é Intervista – Find the words, vídeo de 1998 fei­to por Sala como tra­ba­lho de gra­du­a­ção na École Nationale Supérieure dês Arts Décoratifs, em Paris. Misturando fic­ção e fatos reais, o artis­ta, que nas­ceu em Tirana, em 1974, abor­da a situ­a­ção de seu país natal pós-que­da do regi­me comu­nis­ta ao bus­car recons­ti­tuir, de vári­as for­mas, um velho fil­me no qual a mãe dis­cur­sa num con­gres­so do par­ti­do. Sem o som ori­gi­nal, há mui­to tem­po per­di­do, Sala usa diver­sos recur­sos para recu­pe­rar as pala­vras exa­tas da mãe, tam­bém sua entre­vis­ta­da. Ela aca­ba não reco­nhe­cen­do o que foi dito há tem­pos, num estra­nha­men­to pre­sen­te. “Sala ganhou mui­tos prê­mi­os com este fil­me, que o pro­je­tou inter­na­ci­o­nal­men­te”, con­ta Heloisa.

Em Làk-kat 3.0 o que está em ques­tão são as rela­ções de poder. Gravado no Senegal, o vídeo mos­tra uma cri­an­ça que ten­ta repe­tir, em uólo­fe, a lín­gua local, vári­as pala­vras que foram se per­den­do ao lon­go do tem­po no país colo­ni­za­do pela França. Muitos vocá­bu­los sumi­ram do uólo­fe e se man­ti­ve­ram ape­nas em fran­cês. “Sala notou tam­bém  que há no uólo­fe mui­to mais pala­vras para desig­nar os mati­zes entre o pre­to e o bran­co, nomes que não exis­tem no fran­cês. Ou seja, o que ele mos­tra é que há cir­cuns­tân­ci­as cul­tu­rais que cri­am um voca­bu­lá­rio qua­se intra­du­zí­vel”, diz Heloisa, que quis tra­zer o tra­ba­lho ao Brasil jus­ta­men­te para apon­tar estas dife­ren­ças cul­tu­rais. Para isso ela con­tou com a cola­bo­ra­ção de três escri­to­res que legen­da­ram as pala­vras fala­das em uólo­fe pela cri­an­ça: José Luis Peixoto, de Portugal; Ondjaki, de Angola, e Noemi Jaffe, do Brasil.

A cura­do­ra reco­nhe­ce que a apro­xi­ma­ção do públi­co com o tra­ba­lho de Sala não se dá de ime­di­a­to, e pode ocor­rer de manei­ras dife­ren­tes. “As cama­das vão che­gan­do, se inter­pon­do aos pou­cos”, diz ela, que pre­pa­rou um peque­no guia para o visi­tan­te com bre­ves expli­ca­ções sobre a mos­tra, sufi­ci­en­tes para infor­mar sem inter­fe­rir na com­pre­en­são que cada um pode­rá ter das obras.

O con­vi­te para o pas­seio sen­so­ri­al está fei­to pelo pró­prio Sala: “Espero que o espec­ta­dor e ouvin­te tenha a for­te sen­sa­ção de se estar aqui e ago­ra”.

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