Religiões afro-brasileiras, uma questão filosófica

Miscelânea

18.05.14

O juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, rejei­tou a reti­ra­da da inter­net de 15 víde­os con­tra o can­dom­blé e a umban­da, ale­gan­do que os cul­tos afro-bra­si­lei­ros “não cons­ti­tu­em reli­gião”, pois não se basei­am em ape­nas um livro nem têm ape­nas um deus. Os víde­os foram pos­ta­dos por repre­sen­tan­tes de igre­jas evan­gé­li­cas. No arti­go abai­xo, o escri­tor Nei Lopes expli­ca os fun­da­men­tos dos cul­tos de ori­gem afri­ca­na e seu cará­ter reli­gi­o­so.

Ritual de ini­ci­a­ção das filhas-de-san­to. Bahia, Brasil, 1951. Fotografia de José Medeiros/Acervo IMS.

Em junho de 1993, a Suprema Corte dos Estados Unidos garan­tiu aos pra­ti­can­tes de cul­tos de ori­gem afri­ca­na o direi­to de sacri­fi­car ani­mais em suas cerimô­ni­as reli­gi­o­sas. Esse rele­van­te fato his­tó­ri­co deveu-se, cer­ta­men­te, à arti­cu­la­ção das casas de cul­to de ori­gem cuba­na esta­be­le­ci­das no país a par­tir da déca­da de 1950, as quais na déca­da de 1970 já tinham, entre si, a Church of The Lukumi Babalu Ayé, a qual se pro­pu­nha, quan­do de sua fun­da­ção, a ter sede, esco­la, cen­tro cul­tu­ral e museu, para sua comu­ni­da­de e públi­co em geral. Na con­tra­mão de con­quis­tas como essa, no Brasil atu­al che­ga-se a negar aos cul­tos afro-ori­gi­na­dos até mes­mo a con­di­ção de reli­giões.

Filosofia. Em 1949 era publi­ca­do em Paris o livro La phi­lo­sophie ban­toue, obra em que o padre Placide Tempels dava a conhe­cer o resul­ta­do de suas pes­qui­sas de cam­po rea­li­za­das no então Congo Belga. Contrariando toda uma con­cep­ção pre­con­cei­tu­o­sa­men­te nega­ti­va a res­pei­to do pen­sa­men­to dos povos afri­ca­nos, o livro reve­la­va a exis­tên­cia, entre os pes­qui­sa­dos, de uma filo­so­fia base­a­da na hie­rar­quia das for­ças vitais do Universo, a par­tir de uma Força Superior. Assim, quan­to aos seres huma­nos, apren­dia o mis­si­o­ná­rio, entre outros pos­tu­la­dos, que todo ser huma­no cons­ti­tui um elo vivo na cadeia das for­ças vitais: um elo ati­vo e pas­si­vo, liga­do em cima aos elos de sua linha­gem ascen­den­te e sus­ten­tan­do, abai­xo de si, a linha­gem de sua des­cen­dên­cia. Consoante esses prin­cí­pi­os, todos os seres, vivos ou mor­tos, se inter-rela­ci­o­nam e influ­en­ci­am. E a influên­cia da ação de for­ças ten­den­tes a dimi­nuir a ener­gia vital se neu­tra­li­za atra­vés de prá­ti­cas que façam inte­ra­gir har­mo­ni­ca­men­te todas as for­ças cri­a­das e pos­tas à dis­po­si­ção do homem pela Força Suprema.

Meio sécu­lo depois, outro mis­si­o­ná­rio, o padre espa­nhol Raúl Ruiz Altuna, pes­qui­san­do a par­tir de Angola, con­se­guia esta­be­le­cer outra hie­rar­quia, tra­du­zi­da nos seguin­tes ensi­na­men­tos:

A Força Suprema reco­nhe­ci­da pelo pen­sa­men­to afri­ca­no cor­res­pon­de ao Ser Supremo das reli­giões mono­teís­tas. Criador do uni­ver­so e fon­te da vida, esse Ser infun­de res­pei­to e temor. Mas é tão infi­ni­ta­men­te supe­ri­or e dis­tan­te que não é cul­tu­a­do, ou seja: não pode nem pre­ci­sa ser agra­da­do com pre­ces nem ofe­ren­das. Abaixo des­se Ser situ­am-se, no sis­te­ma, seres ima­te­ri­ais livres e dota­dos de inte­li­gên­cia, os quais podem ser gêni­os ou espí­ri­tos.

Os gêni­os são seres sem for­ma huma­na, pro­te­to­res e guar­diões de indi­ví­du­os, comu­ni­da­des e luga­res, poden­do tem­po­ra­ri­a­men­te habi­tar nos luga­res e comu­ni­da­des que guar­dam, e tam­bém no cor­po das pes­so­as que pro­te­gem. Já os espí­ri­tos são almas de pes­so­as que tive­ram vida ter­re­na e, por isso, são ima­gi­na­dos com for­ma huma­na. Podem ser almas de anti­gos che­fes e heróis, ances­trais ilus­tres e remo­tos da comu­ni­da­de, ou ante­pas­sa­dos pró­xi­mos de uma famí­lia.

Ao con­trá­rio do Ser supre­mo, gêni­os e espí­ri­tos pre­ci­sam ser cul­tu­a­dos, para que, feli­zes e satis­fei­tos, garan­tam aos vivos saú­de, paz, esta­bi­li­da­de e desen­vol­vi­men­to. Pois é deles, tam­bém, a incum­bên­cia de levar até o Deus supre­mo as gran­des ques­tões dos seres huma­nos. Assim, já que con­tri­bu­em tam­bém para a ordem do Universo, eles devem sem­pre ser lem­bra­dos, aca­ri­nha­dos e satis­fei­tos, atra­vés de prá­ti­cas espe­ci­ais. Essas prá­ti­cas, que repre­sen­tam um cul­to em si, podem, quan­do sim­ples, ser rea­li­za­das pelo pró­prio inte­res­sa­do. Mas, quan­do com­ple­xas, devem ser ori­en­ta­das e diri­gi­das por um che­fe de cul­to, um sacer­do­te.

Dentro des­sas linhas gerais, segun­do enten­de­mos, foi que se desen­vol­veu a reli­gi­o­si­da­de afri­ca­na no Brasil e nas Américas.

Relevância. Os estu­dos dos padres Tempels e Altura desen­vol­ve­ram-se entre povos do gru­po Banto, do cen­tro-sudo­es­te afri­ca­no. Mas outros estu­dos, inclu­si­ve de sábi­os e cien­tis­tas nati­vos, nos deram con­ta de que, embo­ra as reli­giões negro-afri­ca­nas tenham suas pecu­li­a­ri­da­des, todas elas comun­gam de uma ideia cen­tral, a da inter-rela­ção entre as for­ças vitais, sen­do viven­ci­a­das segun­do prin­cí­pi­os comuns.

Por con­ta des­sas for­mu­la­ções, em 1950, no tex­to Philosophie et reli­gi­on des noirs (revis­ta Présence Africaine, nº espe­ci­al 8–9), o antro­pó­lo­go fran­cês Marcel Griaule pri­mei­ro inda­ga­va se seria pos­sí­vel apli­car as deno­mi­na­ções “filo­so­fia” e “reli­gião” à vida inte­ri­or, ao sis­te­ma de mun­do, às rela­ções com o invi­sí­vel e ao com­por­ta­men­to dos negros. Perguntava-se, ain­da, sobre a exis­tên­cia de uma filo­so­fia negra dis­tin­ta da reli­gião e de uma reli­gião inde­pen­den­te, de uma meta­fí­si­ca, enfim.

Ao final de sua inda­ga­ção, o cien­tis­ta afir­ma­va a exis­tên­cia de uma ver­da­dei­ra onto­lo­gia (par­te da filo­so­fia que estu­da a exis­tên­cia) negro-afri­ca­na, con­cluin­do pela anti­gui­da­de do pen­sa­men­to nati­vo, nive­lan­do algu­mas de suas ver­ten­tes a con­cep­ções filo­só­fi­cas asiá­ti­cas e da Antiguidade gre­co-roma­na; e res­sal­tan­do a neces­si­da­de e a impor­tân­cia do estu­do des­se pen­sa­men­to. Quatro déca­das depois, o já cita­do Altuna, fazen­do eco a Griaule, afir­ma­va: “Basta debru­çar­mo-nos sobre esse con­jun­to de cren­ças e cul­tos para encon­trar uma estru­tu­ra reli­gi­o­sa fir­me e dig­na”.

Definição. O ter­mo “reli­gião”, segun­do N. Birbaum, refe­ri­do no Dicionário de Ciências Sociais publi­ca­do pela Fundação Getúlio Vargas, em 1986, defi­ne um con­jun­to de cren­ça, prá­ti­ca e orga­ni­za­ção sis­te­ma­ti­za­das, com­pre­en­den­do uma ideia que se mani­fes­ta no com­por­ta­men­to dos segui­do­res. Daí afe­ri­mos que toda reli­gião se defi­ne, em prin­cí­pio, por um cul­to pres­ta­do a uma ou mais divin­da­des; pela cren­ça no poder des­ses seres ou for­ças cul­tu­a­dos; e em uma litur­gia, expres­sa no com­por­ta­men­to ritu­al; e final­men­te pela exis­tên­cia de uma hie­rar­quia sacer­do­tal.

Pelo menos des­de mea­dos do sécu­lo XIX, as reli­giões che­ga­das da África ao Brasil, ape­sar de todas as con­di­ções adver­sas, con­se­gui­ram recri­ar, no novo ambi­en­te, as cren­ças e as prá­ti­cas ritu­ais de sua tra­di­ção ances­tral, den­tro dos prin­cí­pi­os cien­tí­fi­cos que defi­nem o que seja reli­gião.

Na pró­pria África já se dis­tin­guia, por exem­plo, o fei­ti­cei­ro (ndo­ki, entre os ban­tos), agen­te de male­fí­ci­os, do ritu­a­lis­ta (mban­da ou ngan­ga), mani­pu­la­dor das for­ças vitais em bene­fí­cio da saú­de, do bem-estar e do equi­lí­brio soci­al de sua comu­ni­da­de. E no Brasil, como em outros paí­ses das Américas, as diver­sas ver­ten­tes de cul­to che­ga­ram a tal nível de orga­ni­za­ção que cons­ti­tuí­ram, de modo geral, cate­go­ri­as sacer­do­tais alta­men­te espe­ci­a­li­za­das. Por exem­plo, no can­dom­blé: um baba­lo­ri­xá (“pai daque­le que tem ori­xá”, e não “pai de san­to”, como se tra­du­ziu der­ro­ga­to­ri­a­men­te) não tem a mes­ma fun­ção de um “baba­laô” (“pai do segre­do”), res­pon­sá­vel por inter­pre­tar as deter­mi­na­ções do orá­cu­lo Ifá. Uma eque­de (sacer­do­ti­sa que aten­de os ori­xás quan­do incor­po­ra­dos) não tem as mes­mas fun­ções de uma iá-tebe­xê (a res­pon­sá­vel pelos cân­ti­cos ritu­ais). Da mes­ma for­ma que um axo­gum (sacri­fi­ca­dor ritu­al) não tem as mes­mas fun­ções de um ala­bê (músi­co litúr­gi­co), por exem­plo.

As reli­giões de matriz afri­ca­na no Brasil, em suas vári­as ver­ten­tes, pra­ti­cam uma litur­gia com­ple­xa, que com­pre­en­dem ritu­ais pri­va­dos e públi­cos. Nas prá­ti­cas pri­va­das, todo ritu­al se ini­cia pela invo­ca­ção nomi­nal dos ances­trais, remo­tos e pró­xi­mos, dos fun­da­do­res do tem­plo, em lis­tas tão mais lon­gas quan­to mais anti­go for o “fun­da­men­to” da casa. Nas fes­tas públi­cas, nota­da­men­te no cha­ma­do can­dom­blé jeje-nagô, oriun­do da região afri­ca­na do Golfo do Benin, as divin­da­des (ori­xás ou voduns) se mani­fes­tam numa ordem rigo­ro­sa­men­te obe­de­ci­da, da pri­mei­ra à últi­ma a entrar na roda das dan­ças. E por aí vamos.

Constitucionalidade. Não é o mono­teís­mo que carac­te­ri­za uma reli­gião. Se assim fos­se, as reli­giões ori­en­tais como o hin­duis­mo, o taoís­mo etc. não seri­am como tal con­si­de­ra­das. Muito menos o é a cir­cuns­tân­cia de as prá­ti­cas reli­gi­o­sas serem ou não base­a­das em tex­tos escri­tos. A pro­pó­si­to, o his­to­ri­a­dor nige­ri­a­no I.A. Akinjogbin, em arti­go na cole­tâ­nea Le con­cept de pou­voir em Afrique (Paris, Unesco, 1981), assim se mani­fes­tou: “O conhe­ci­men­to livres­co tem um valor for­mal e impor­ta­do, enquan­to o saber infor­mal é adqui­ri­do pela expe­ri­ên­cia dire­ta ou indi­re­ta. Os conhe­ci­men­tos livres­cos não con­fe­rem sabe­do­ria (…) O ensi­na­men­to tra­di­ci­o­nal deve estar uni­do à expe­ri­ên­cia e inte­gra­do à vida, até por­que há coi­sas que não podem ser expli­ca­das, ape­nas expe­ri­men­ta­das e vivi­das”.

Vejamos, em con­clu­são, que toda a tra­di­ção afri­ca­na de cul­to aos ori­xás, da qual no Brasil se ori­gi­na­ram prin­ci­pal­men­te o can­dom­blé da Bahia (nagô e jeje), o xangô per­nam­bu­ca­no, o batu­que gaú­cho e a umban­da flu­mi­nen­se, tem uma base filo­só­fi­ca. Esse fun­da­men­to é, em essên­cia, o vas­to conhe­ci­men­to que ema­na da tra­di­ção ioru­ba­na de Ifá, o orá­cu­lo que tudo deter­mi­na, em todos os momen­tos da vida de uma pes­soa, de uma famí­lia, de uma cida­de, de uma nação etc. Da tra­di­ção de Ifá é que vêm, por exem­plo, a ori­gem dos ori­xás, sua mito­lo­gia, suas pre­di­le­ções, suas cores etc. O popu­lar jogo de búzi­os é uma for­ma sim­pli­fi­ca­da de con­sul­ta ao orá­cu­lo.

Esse cor­po de dou­tri­na, com­pre­en­den­do mui­tos milha­res de pará­bo­las, foi trans­mi­ti­do de gera­ção a gera­ção entre os anti­gos baba­laôs, na África e nas Américas. E nos tem­pos atu­ais, embo­ra não uni­fi­ca­do, já come­ça a ter cir­cu­la­ção inclu­si­ve na inter­net.

Pois essa tra­di­ção remon­ta a mui­tos sécu­los; e sua his­tó­ria se con­ta a par­tir do momen­to em que Oduduá, o gran­de ances­tral dos ioru­bás, cuja pre­sen­ça his­tó­ri­ca, no sécu­lo XII d.C., é ates­ta­da cien­ti­fi­ca­men­te (cf. A. F. Ryder, História Geral da África, Unesco/MEC/UFScar, vol. IV, 2010, p. 389), após fun­dar a anti­ga cida­de de Ifé, envi­ou seus diver­sos filhos em vári­as dire­ções, para fun­dar cada um o seu rei­no.

Mas esta é ape­nas uma par­te da alen­ta­da e sábia tra­di­ção reli­gi­o­sa que os anti­gos afri­ca­nos lega­ram ao Brasil. A qual, como um todo, goza da pro­te­ção cons­ti­tu­ci­o­nal do arti­go 5º da Constituição Federal, bem como daque­la assim enun­ci­a­da: “O Estado pro­te­ge­rá as mani­fes­ta­ções das cul­tu­ras popu­la­res, indí­ge­nas e afro-bra­si­lei­ras, e das de outros gru­pos par­ti­ci­pan­tes do pro­ces­so civi­li­za­tó­rio naci­o­nal” (art. 215, pará­gra­fo 1º).

Nei Lopes é autor de, entre outros livros, Kitábu, o livro do saber e do espí­ri­to negro-afri­ca­nos (Ed. Senac-Rio, 2005).

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