O peso dos livros

Correspondência

20.11.12

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Queri­da Vil­ma,

per­to de sua ativi­dade febril flanan­do por acad­e­mias, esco­las, par­ques e jantares, sou um tioz­in­ho seden­tário. Cá estou encer­ran­do o super­fe­ri­ado que pas­sei fecha­do em casa orga­ni­zan­do estantes, “des­ba­s­tan­do-as”, como me disse há pouco na Mer­cearia S. Pedro (são três da man­hã e estou vaga­mente bêba­do, ou seja, vaga­mente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e con­seguiu cora­josa e tal­en­tosa­mente reduzir seu acer­vo de 54 anos de leitu­ra a meros três mil livros.

Afi­nal, Vil­ma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou ape­nas três? Min­ha últi­ma mudança (últi­ma não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabun­do de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cig­a­r­ro, eu disse “tá, mas é o últi­mo, beleza?”, me repli­cou “últi­mo não, cama­ra­da. Mais recente. Nun­ca diga últi­mo”, um dos grandes ensi­na­men­tos que a rua me trouxe), min­ha mais recente mudança, da casa da min­ha ex-mul­her, trouxe a este aparta­men­to cer­ca de seis mil livros, sem con­tar as cen­te­nas de revis­tas e recortes de jor­nais; e é esta “poupança” que pas­sei des­ba­s­tan­do todo o feri­ado. Questões telúri­c­as se me assober­bavam: lerei mes­mo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com ded­i­catórias, devol­vo-os ao Grande Oceano da Infor­mação Indifer­en­ci­a­da (sebos ou ofic­i­nas de reci­clagem de papel), ou quem sabe me deten­ho sobre eles mais uma vez, abrindo qual­quer exem­plar ao aca­so, para me deparar com a Frase Genial Per­di­da, aque­la pela qual vive­mos durante toda a nos­sa vida entre bib­liote­cas, livrarias, sebos e catál­o­gos de vel­hos alfar­rábios?

Resolvi que pre­cisa­va dis­pen­sar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redon­do, nas mãos do Fer­réz. O autor de Capão Peca­do orga­ni­zou, jun­to com o Mano Brown, uma bela bib­liote­ca em um ter­reno onde antes havia fun­ciona­do uma boca de fumo — que vis­itei, jun­to com o bib­lió­fi­lo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quan­do jun­tei as bib­liote­cas com min­ha ex-esposa, havia muitos livros repeti­dos — lá se foram para a nova bib­liote­ca que o Fer­réz mon­ta­va em uma casa que ele mes­mo com­prou, no Jardim Com­er­cial, uma das muitas que­bradas do Capão. Na sep­a­ração, para sair mais leve de min­ha ex-casa, man­dei para lá mais meia-dúzia de caixas. É recon­for­t­ante saber que meus livros “voltam” ao lar — é que mor­ei no Capão dos 2 aos 8 anos, quan­do ain­da era um bair­ro da zona sul iso­la­do entre vas­tas porções de mata atlân­ti­ca orig­i­nal, não a atu­al cidade de 1 mil­hão e 200 mil pes­soas.

(Nota de Bicha Ressen­ti­da: doei/vendi cer­ca de cem livros que me foram envi­a­dos com ded­i­catória e tudo — quase todos livros que gan­hei sem pedir. É triste, mas isso acon­tece. Antes de passá-los adi­ante, porém, con­forme a eti­que­ta, arran­quei as pági­nas com as ded­i­catórias. Afi­nal, vai que um deles reen­con­tra o próprio livro num sebo, ded­i­ca­do a mim. Imag­i­no os bons pen­sa­men­tos que o escritor me dedi­caria. Já me acon­te­ceu isso, e foi pés­si­mo. Eu esta­va à toa em Por­to Ale­gre, entrei num sebo da Rua da Pra­ia e topei com a lom­ba azul de um livro meu. Abri-o e reen­con­trei a sen­su­al ded­i­catória a uma jor­nal­ista gaúcha que havia con­heci­do em São Paulo. Lem­brei que ela mes­ma tin­ha reit­er­adas vezes me implo­rado pelo livro, e me fez sair do bar, voltar para casa, retornar até lhe dar o mimo em mãos. Ela pode­ria ao menos ter sido disc­re­ta e elim­i­na­do min­ha ded­i­catória, não acha, Vil­ma? Com­prei o livro, envelopei-o e man­dei-o de vol­ta, com uma nova ded­i­catória: ‘Perdeu este, queri­da’. Ressen­ti­da, eu?)

Enfim, Vil­ma, depois das primeiras des­bas­tadas na estante, vi que ain­da pre­cisa­va me des­faz­er de mais livros, e eis-me aqui, espiando atôni­to todas essas lom­badas col­ori­das. Há mui­ta coisa que com­prei ou gan­hei que, por algum moti­vo, afe­ti­vo ou profis­sion­al, guardei, mas nun­ca li. Saudade do tem­po em que domi­na­va total­mente min­ha coleção: ago­ra ela é uma bib­liote­ca poten­cial, devo ter lido uns 60% no máx­i­mo, e há coisas que sequer fol­heei. Chega aque­la hora de se per­gun­tar: vou real­mente ler esse troço? Pra que guardar essa enci­clopé­dia Cau­das Aulete que, sejamos sin­ceros, abri umas dez vezes nos últi­mos dez anos? Este livro de filosofia não ficaria em mel­hores mãos do que as min­has relap­sas? E este esquisi­to livro de poe­sia que o ami­go pub­li­cou, não encon­trará leitor mais ade­qua­do nas futuras ger­ações? Vou real­mente pre­cis­ar das obras com­ple­tas desse obscuro autor aus­traliano? Até quan­do vou ficar levan­do esse peso nas costas?

No que caí­mos neste novo dile­ma — caí­mos, digo, porque você e sua bib­liote­ca de dez mil livros devem saber como é com­pli­ca­do esse rela­ciona­men­to -: em tem­pos de nuvem de infor­mação, iPad e e-book read­er, pra que ter tan­to livro? Não seria muito mais ecológi­co, econômi­co e inteligente ter somente um Kin­dle que baix­as­se tudo o que pre­cisamos pra ler? Guardar tan­to livro assim não é uma velei­dade pequeno-bur­gue­sa, um feito para impres­sion­ar vis­i­tas, ou, pior, para impres­sion­ar a nós mes­mos?

Acon­te­ceu algo pare­ci­do com as dezenas de envelopes e caixas com tex­tos que jun­tei nas últi­mas décadas. Ano­tações, car­tas, recortes, bil­hetes, tex­tos alheios, ideias para serem usadas mais tarde… mais tarde quan­do, Vil­ma? Me pega­va estran­han­do aque­le sujeito que havia guarda­do tan­ta tran­queira. Come­cei a enten­der os “acu­mu­ladores”, aque­les rad­i­cais lat­i­fundiários de todo tipo de tre­co. Legião, eles têm até um pro­gra­ma de TV no Dis­cov­ery Chan­nel, o que quer diz­er que é uma doença que se alas­tra: a doença das coisas (Perec tin­ha razão em seu As Coisas, quan­do radi­ografa os pro­tag­o­nistas: “No mun­do deles, era quase regra dese­jar sem­pre mais do que se podia com­prar”). No fim, são as coisas que guardam os guardadores, e eles não con­seguem mais sair de casa, pre­sos aos obje­tos que cole­cionaram durante anos, e dos quais não con­seguem se desven­cil­har. Eu os com­preen­do: um acu­mu­lador pre­tende nada menos que preser­var o tem­po, esta­cioná-lo, flex­ioná-lo até seu pon­to de está­tua — e, se o ter­mo guardar tam­bém está rela­ciona­do com olhar (como no belo poe­ma de Anto­nio Cícero, “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, ilu­miná-la ou ser por ela ilu­mi­na­do”), o acu­mu­lador se tran­quil­iza ape­nas por olhar as coisas que jun­tou e vê-las ali paradas, tais como no momen­to em que foram col­hi­das, como se ele tivesse logra­do, final­mente, par­al­is­ar o tem­po que corre, ou, ao con­trário, como se elas o tivessem encan­ta­to­ri­a­mente tor­na­do jovem para sem­pre.

Há dois con­so­los em ver os livros enfileira­dos arru­mad­in­hos nas estantes. Um é serem meus ami­gos (muitos são real­mente pes­soas com quem con­ver­sei, bebi, amei, ouvi histórias). Quem tem uma bib­liote­ca jamais estará soz­in­ho, eis o cre­do número um da Carençolân­dia que habita­mos todos nós tara­dos por lit­er­atu­ra. Out­ra tran­quil­i­dade me con­vém quan­do obser­vo os livros que cole­cionei: a certeza de que um dia terei tem­po sufi­ciente para lê-los. Eles em si são uma cáp­su­la do tem­po futuro: lem­brarão ao homem que serei que havia um homem pre­ocu­pa­do com ele, com suas leituras, com seu tem­po. Pobre homem.

Quan­ta besteira, Vil­ma. Mais meia-dúzia de caixas com livros esper­am a visi­ta de um com­prador de sebos (mal aí, Fer­réz, mas pre­ciso fat­u­rar algum em cima). Enchi dez sacos de lixo com esse mon­tão de car­tas e pre­ten­sos tesouros que havia guarda­do para mim mes­mo e joguei tudo fora. Por muito pouco não me colo­quei ali jun­to.

P.S.1: Tor­ci, como sem­pre, pelo Oba­ma, mas é claro que se tra­ta de um voto ide­al­iza­do. Mal o negão foi reeleito e já chega com essa lenga-lenga de que Israel tem todo o dire­ito de retal­iar a Palesti­na etc. Em qua­tro anos, Guan­tá­namo con­tin­ua aí, assim como o embar­go a Cuba, as inter­venções em país­es como Afe­gan­istão, e, você bem lem­brou, os EUA estão há 10 anos em guer­ra e seu exérci­to tem 70% de mer­cenários e 30% de pobres. No fun­do, repub­li­canos e democ­ratas são tão pare­ci­dos quan­to… tucanos e petis­tas, non?

P.S.2: Ah, sim: o Jura­do C é um tal Rodri­go Gurgel, um críti­co (?) que embananou as notas dadas aos indi­ca­dos ao prêmio Jabu­ti, dis­tribuin­do zeros e dez aleato­ri­a­mente, o que acabou por influir can­hes­tra­mente no resul­ta­do.

P.S.3: Os desas­tres do cor­reio ou da min­ha recente mudança de endereço me pri­varam de con­hecer o Dar­d­ará que você me man­dou, mas vou atrás. Li a resen­ha do Amân­cio e só por pare­cer um romance anti-real­ista já me inter­es­sou. Não acha que nos­sa lit­er­atu­ra con­tem­porânea está por demais infes­ta­da de real­is­mo? Fica como mote para sua próx­i­ma car­ta…

P.S.4: Des­ta vez não man­do nen­hu­ma ficção como brinde porque acho que achei um esquete para nos­sa peça, mas não o ter­minei. Basi­ca­mente um cara está num divã con­tan­do seu son­ho para a psi­canal­ista, que enquan­to isso fica checan­do sua pági­na no Face­book, tui­tan­do ou ven­do a time­line do seu Insta­gram e fazen­do “hum hum, hum hum”. O eixo é o que você sug­eriu quan­do con­tou aque­la história sobre o sujeito gri­tan­do no celu­lar no ônibus sem se impor­tar com os demais pas­sageiros: o estar sem estar con­tem­porâ­neo, esse nos­so “esta­mos onde não esta­mos”. Que é, me parece, o lugar des­ta fal­sa car­ta…

Bei­jo,

Ronal­do

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