A arte de falar mal

Literatura

07.11.12

Joseph Epstein não é uma cobra, é uma medu­sa. Em cada cabe­ça, uma sen­ten­ça, peço­nhen­ta, diri­gi­da indis­tin­ta­men­te a con­tem­po­râ­ne­os e ante­pas­sa­dos, nomes con­sa­gra­dos e con­tro­ver­sos. Aos 75 anos, é mes­tre na arma­di­lha que Cynthia Ozick asso­cia ao bom ensaio: sua voz tem auto­ri­da­de e inso­lên­cia para lan­çar o lei­tor numa lógi­ca que não rara­men­te con­tra­ria suas con­vic­ções mais pro­fun­das e que o per­su­a­de a assis­tir à demo­li­ção de pes­so­as e argu­men­tos que lhe são caros. É uma estra­nha ideia de diver­são essa de ler Joseph Epstein, de se sen­tir cons­tran­gi­do, pelo menos por um tem­po, por suas pró­pri­as opi­niões.

Em Essays in bio­graphy, que aca­ba de ser publi­ca­do nos EUA, pode-se ler os seguin­tes afa­gos:

“Susan Sontag per­ten­ce menos à his­tó­ria da lite­ra­tu­ra do que à da publi­ci­da­de”.

“Walter Benjamin está cer­ta­men­te entre os auto­res mais supe­res­ti­ma­dos do sécu­lo XX. Paris, Berlim, Moscou, Karl Kraus — Benjamim pode tor­nar ári­do os temas mais ape­ti­to­sos”.

“Nas revis­tas em que são publi­ca­dos, os ensai­os de Gore Vidal são o equi­va­len­te inte­lec­tu­al dos qua­dri­nhos”.

“Em Lucking Out, as memó­ri­as dos anos 1970 de James Wolcott, des­co­bri­mos que o autor é um homem de ori­gem pobre. E come­çou sua vida pro­fis­si­o­nal de for­ma ain­da mais pobre, como crí­ti­co de rock do Village Voice. Na hie­rar­quia da crí­ti­ca de arte, a crí­ti­ca de rock fica ligei­ra­men­te abai­xo da cri­ti­ca de már­mo­res”.

“Joseph Mitchell era um sulis­ta escre­ven­do sobre os encan­tos de Nova York essen­ci­al­men­te como um refi­na­do e sim­pá­ti­co turis­ta”.

A anto­lo­gia pode pros­se­guir inde­fi­ni­da­men­te. Epstein, que só teve lan­ça­do no Brasil “Inveja” (Arx, 2004), é um enter­tai­ner per­ver­so que man­tém o públi­co ocu­pa­do com vitu­pé­ri­os estri­den­tes enquan­to des­ti­la silen­ci­o­sa­men­te um con­ser­va­do­ris­mo feroz, tal­vez difí­cil de engo­lir sem os seus con­fei­tos da mal­da­de. E é jus­ta­men­te aí que, ao lê-lo, pen­so na recor­rên­cia entre os ensaís­tas — e entre alguns dos melho­res deles — des­ta ati­tu­de que com­bi­na o des­pren­di­men­to do sar­cas­mo com o ape­go, às vezes dema­si­a­do, a valo­res tra­di­ci­o­nais. Como se con­ju­gas­sem a prá­ti­ca de incen­diá­rio com a cabe­ça de bom­bei­ro.

William Pritchard resu­me bem a ques­tão ao rese­nhar Essays in bio­graphy para o Boston Globe. Epstein, diz, tem como alvo pre­fe­ren­ci­al o que ele, o rese­nhis­ta, cha­ma de “sis­te­mas sal­va­ci­o­nis­tas con­tem­po­râ­ne­os”, ou seja, os dis­cur­sos que de for­ma mais ou menos inte­li­gen­te com­ple­tam com cer­te­zas as equa­ções de dúvi­das de nos­sos dias. Atitude que con­duz à linha de fogo, qua­se natu­ral­men­te, deter­mi­na­do pen­sa­men­to de esquer­da e a jar­go­ni­te aca­dê­mi­ca.

Por terem leva­do vidas estri­den­tes e com­ba­ti­vas, Gore Vidal e Susan Sontag são espe­ci­al­men­te vul­ne­rá­veis a este tipo de ata­que. Para encor­par seu argu­men­to, Epstein evo­ca as cau­sas mais pre­cá­ri­as de cada um, usan­do e abu­san­do de hipér­bo­les, no limi­te da injus­ti­ça. O que é bom e ruim. Se, por um lado, expur­ga a cor­di­a­li­da­de exces­si­va das dis­cus­sões e faz com que o pau que­bre para valer, por outro faz com que Epstein seja coop­ta­do por todo tipo de con­ser­va­do­ris­mo e não rara­men­te pelo anti-inte­lec­tu­a­lis­mo que hoje for­ça a bar­ra em diver­sos fronts, tan­to lá como cá.

Quando Tom Wolfe dizia que gra­fi­te é arte na cida­de dos outros ou Nelson Rodrigues levan­ta­va a sus­pei­ta de que Guimarães Rosa não pas­sa­va de um Coelho Neto, ambos esta­vam inves­ti­dos da insub­mis­são típi­ca do gêne­ro. Estavam, cada um a seu tem­po, espe­tan­do os bem pen­san­tes de for­ma sau­dá­vel; mas, no mes­mo movi­men­to, levan­do água para o moi­nho do con­ser­va­do­ris­mo em arte e lite­ra­tu­ra. Um para­do­xo ine­vi­tá­vel, que não requer pou­co esfor­ço para ser enfren­ta­do.

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