O diretor e ator Selton Mello

O diretor e ator Selton Mello

A serra e o pampa

No cinema

04.08.17

De 3 a 16 de agos­to, a Sessão Vitrine Petrobras apre­sen­ta Rifle, de Davi Pretto, no cine­ma do IMS Rio.

Entram em car­taz dois bons fil­mes bra­si­lei­ros, coin­ci­den­te­men­te ambos fil­ma­dos no Rio Grande do Sul, mas con­tras­tan­tes em tudo mais. Um deles, O fil­me da minha vida, de Selton Mello, tem poten­ci­al para atin­gir um gran­de públi­co. O outro, Rifle, de Davi Pretto, é um pro­je­to comer­ci­al­men­te mais modes­to, mas não menos ambi­ci­o­so na esté­ti­ca e no alcan­ce soci­o­po­lí­ti­co.

Comecemos pelo pri­mei­ro. Selton Mello já mos­trou que tem talen­to como dire­tor (como ator, nem se fala). Aqui, em seu ter­cei­ro lon­ga-metra­gem, ele con­fir­ma suas qua­li­da­des e mos­tra uma notá­vel segu­ran­ça e um esbo­ço de mar­ca auto­ral, não isen­ta de pro­ble­mas e limi­ta­ções, como vere­mos mais adi­an­te.

O fil­me trans­plan­ta para um vila­re­jo da ser­ra gaú­cha a tra­ma bási­ca do roman­ce Um pai de cine­ma, do chi­le­no Antonio Skármeta: um rapaz, Tony Terranova (Johnny Massaro), filho de fran­cês com bra­si­lei­ra, vai estu­dar na cida­de gran­de e quan­do vol­ta, já pro­fes­sor de fran­cês, cru­za na esta­ção com o pai (Vincent Cassel), que toma o mes­mo trem para ir embo­ra, “de vol­ta para sua ter­ra”.

Acompanhamos então o dra­ma des­se moço na fase de tran­si­ção da ado­les­cên­cia à ida­de adul­ta: a atra­ção por duas lin­das irmãs (Bruna Linzmeyer e Bia Arantes); a ami­za­de com um cri­a­dor de por­cos (Selton Mello) que fun­ci­o­na como um pai subs­ti­tu­to; a angús­tia pela fal­ta de notí­ci­as do pai ver­da­dei­ro.

Memória afe­ti­va

Haverá inú­me­ras revi­ra­vol­tas, sur­pre­sas e com­pli­ca­ções nes­se enre­do. O que impor­ta aqui é obser­var o modo como essa nar­ra­ti­va se desen­ro­la, o mun­do que ela des­ve­la ao espec­ta­dor. A loca­li­za­ção tem­po­ral, iní­cio dos anos 1960, pro­pi­cia um olhar nos­tál­gi­co à vida de pro­vín­cia, banha­da por uma qua­se oni­pre­sen­te con­tra­luz dou­ra­da que con­fe­re ao seres e obje­tos uma aura sen­ti­men­tal. O ter­ri­tó­rio em que tudo se pas­sa é o da memó­ria afe­ti­va.

Há um tan­to de Truffaut (no encan­ta­men­to de Tony pelas duas irmãs) e outro tan­to de Fellini (no humor maro­to do gru­po de alu­nos da esco­la e sua rela­ção com o sexo), há o arre­ba­ta­men­to român­ti­co das can­ções fran­ce­sas (Charles Aznavour, Françoise Hardy), há os voos poé­ti­cos que lite­ral­men­te tiram o pro­ta­go­nis­ta do chão. Por momen­tos, temos a impres­são de estar dian­te de um fil­me fran­cês.

A par des­sa ope­ra­ção de desen­rai­za­men­to, porém, o dire­tor inse­re pon­tu­al­men­te refe­rên­ci­as à cul­tu­ra popu­lar-indus­tri­al bra­si­lei­ra que lhe são caras (como se viu em seu lon­ga ante­ri­or, O palha­ço): radi­o­no­ve­la, bor­dão de “recla­me” do Rhum Creosotado, Sergio Reis can­tan­do “Coração de papel”, expres­sões sabo­ro­sas como “faque­a­ram o bode” e, não menos impor­tan­te, a esca­la­ção de Rolando Boldrin no papel de um maqui­nis­ta de trem.

Crítica e nos­tal­gia

É curi­o­so que, no meio des­se com­pó­si­to euro­peu-bra­si­lei­ro, apa­re­ça rei­te­ra­da­men­te um fil­me ame­ri­ca­no por exce­lên­cia: o faro­es­te Rio ver­me­lho, de Howard Hawks. Um diá­lo­go sub­ter­râ­neo se esta­be­le­ce entre o épi­co de Hawks e a his­tó­ria de Tony Terranova: ambos têm em seu cen­tro uma rela­ção pro­ble­má­ti­ca de pai e filho, ain­da que no wes­tern se tra­te de um filho ado­ti­vo.

Em mais uma vol­ta no para­fu­so das refe­rên­ci­as, lem­bre­mos que em A últi­ma ses­são de cine­ma (1972), outra evo­ca­ção crí­ti­co-nos­tál­gi­ca da vida de pro­vín­cia, Rio ver­me­lho era o últi­mo fil­me exi­bi­do no cine­mi­nha local antes de seu fecha­men­to. O dra­ma de Peter Bogdanovich era mais crí­ti­co do que nos­tál­gi­co, o de Selton Mello é mais nos­tál­gi­co do que crí­ti­co.

Nos cami­nhos que se bifur­cam no iní­cio e no final de O fil­me da minha vida há um dese­jo-qua­se-cer­te­za de que tudo vai dar cer­to, uma pre­o­cu­pa­ção de que a via­gem do espec­ta­dor seja o tem­po todo pra­ze­ro­sa, emba­la­da por músi­ca doce e ima­gens enfa­ti­ca­men­te “poé­ti­cas” (com direi­to ao vir­tu­o­sis­mo de Walter Carvalho).

Essa edul­co­ra­ção da vida, ou de sua repre­sen­ta­ção, que em O palha­ço de cer­to modo se jus­ti­fi­ca­va pelo pró­prio tema da obra, é um trun­fo e ao mes­mo tem­po um ris­co que Selton Mello deve­rá man­ter sob con­tro­le se não qui­ser se tor­nar um rea­li­za­dor de fil­mes sen­ti­men­tais e, no limi­te, “água com açú­car”. Um pou­co menos de músi­ca, de câme­ra len­ta, de con­tra­luz e de locu­ção em off com voz rou­ca (uma carac­te­rís­ti­ca do ator Selton Mello trans­fe­ri­da a seu pro­ta­go­nis­ta) tal­vez des­se um pou­co mais de vigor e pun­gên­cia a esse belo cine­ma.

Rifle e o espa­ço ame­a­ça­do

Uma pro­pos­ta esté­ti­ca qua­se opos­ta é a de Rifle. À doçu­ra do fil­me de Selton Mello, o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de Davi Pretto con­tra­põe aspe­re­za. Ao trans­bor­da­men­to meló­di­co, silên­ci­os per­tur­ba­do­res. À pro­fu­são roma­nes­ca, escas­sez de acon­te­ci­men­tos dra­má­ti­cos. Aos astros famo­sos, ato­res não-pro­fis­si­o­nais, ou melhor, não-ato­res, gen­te do pró­prio ambi­en­te fil­ma­do.

A situ­a­ção é a seguin­te: Dione (Dione Avila de Oliveira), jovem capa­taz de uma peque­na fazen­da do pam­pa gaú­cho, obser­va com amar­gu­ra o esva­zi­a­men­to e des­ca­rac­te­ri­za­ção da região, com o avan­ço dos gran­des pro­du­to­res de soja e da agri­cul­tu­ra meca­ni­za­da sobre a pecuá­ria e as pro­pri­e­da­des meno­res. Ele namo­ra a filha do patrão e se inqui­e­ta com a pos­si­bi­li­da­de de a famí­lia par­tir para a cida­de, onde ele já viveu e com a qual se desi­lu­diu. Sobre o seu pas­sa­do só sabe­mos isso – e que ser­viu o exér­ci­to, pro­va­vel­men­te na arti­lha­ria.

Em tor­no des­se per­so­na­gem taci­tur­no, impe­ne­trá­vel, de pou­cas pala­vras e expres­são imu­tá­vel, e da pai­sa­gem hori­zon­tal em que ele se move, Pretto cons­trói uma nar­ra­ti­va essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca, elíp­ti­ca, que não dei­xa cla­ro o que se pas­sa no pla­no da ima­gi­na­ção de Dione e o que se pas­sa na “rea­li­da­de”.

Rifle se desen­vol­ve entre o fres­cor docu­men­tal do dia a dia na lida do cam­po e o dra­ma lacu­nar que somos con­vo­ca­dos a com­ple­tar pre­en­chen­do os espa­ços em bran­co. Assim como pou­co sabe­mos sobre a vida pre­gres­sa do pro­ta­go­nis­ta, tam­bém igno­ra­mos o que ele fará em segui­da, e a ten­são bro­ta da vio­lên­cia sur­da que pode explo­dir a qual­quer momen­to (e que even­tu­al­men­te explo­de).

Faroeste cre­pus­cu­lar

No meio dos agra­de­ci­men­tos cons­tan­tes dos cré­di­tos finais cons­ta o nome de John Ford. Mais do que uma pia­da inter­na, soa como um tri­bu­to sin­ce­ro ao mes­tre nor­te-ame­ri­ca­no, com sua poé­ti­ca dos gran­des espa­ços, sua empa­tia pelo homem rude do cam­po des­lo­ca­do pelo avan­ço do capi­ta­lis­mo moder­no. Rifle tem algo de faro­es­te cre­pus­cu­lar, até no seu for­ma­to sco­pe, explo­ran­do a imen­si­dão da pla­ní­cie.

Um movi­men­to rei­te­ra­do ao lon­go do fil­me é o de um auto­mó­vel, moto ou cami­nhão ras­gan­do hori­zon­tal­men­te a exten­são deser­ta. É esse cor­te, essa intru­são, que Dione quer bar­rar com seu rifle. Personagem estra­nho, enig­má­ti­co, um ros­to ímpar, expres­si­vo como pou­cos. Sem lite­ra­tu­ra, tea­tro ou soci­o­lo­gia. Cinema em esta­do puro.

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