Amada morta, cinema vivo

No cinema

01.04.16

Deixemos de lado as cir­cuns­tân­ci­as pito­res­cas que envol­vem o dire­tor bai­a­no Aly Muritiba, que foi cobra­dor de ôni­bus, bom­bei­ro e car­ce­rei­ro enquan­to estu­da­va his­tó­ria em São Paulo e depois cine­ma em Curitiba. O que impor­ta aqui é seu pri­mei­ro lon­ga-metra­gem, Para minha ama­da mor­ta, que aca­ba de che­gar aos cine­mas depois de ser pre­mi­a­do nos fes­ti­vais de Montreal e Brasília, entre outros.

É um dos gran­des fil­mes bra­si­lei­ros do ano e a pro­va viva, mui­to viva, de que é pos­sí­vel sub­ver­ter os códi­gos e fór­mu­las dos gêne­ros esta­be­le­ci­dos e cons­truir uma obra ori­gi­nal.

Da ter­nu­ra à vin­gan­ça

No cen­tro do dra­ma está um homem obce­ca­do, o fotó­gra­fo da polí­cia Fernando (Fernando Alves Pinto, em sua melhor atu­a­ção), que há pou­co tem­po, não sabe­mos quan­to, per­deu sua jovem mulher, uma advo­ga­da cri­mi­na­lis­ta. Na pri­mei­ra quar­ta par­te do fil­me sua mono­ma­nia se resu­me a cul­tu­ar, de modo meio necró­fi­lo, a ama­da mor­ta, ali­san­do suas peças de rou­pa, aca­ri­ci­an­do seus per­ten­ces, reven­do seus víde­os. Parece um sonâm­bu­lo, cuja úni­ca ânco­ra no mun­do dos vivos é seu filho peque­no, com quem desen­vol­ve uma rela­ção lacô­ni­ca de afe­to e cum­pli­ci­da­de pou­cas vezes vis­ta no cine­ma recen­te.

Um dos víde­os domés­ti­cos encon­tra­dos no escri­tó­rio da mulher lan­ça Fernando de repen­te num pesa­de­lo de ciú­me que o faz rever retros­pec­ti­va­men­te, numa ver­ti­gem, sua rela­ção amo­ro­sa. Sua obses­são muda então de sinal, pas­sa da ter­nu­ra à vio­lên­cia, da para­li­sia à rumi­na­ção sur­da da vin­gan­ça.

Pouco mais pode ser dito do enre­do sem ris­co de estra­gar as sur­pre­sas e revi­ra­vol­tas que virão. Basta saber que Fernando se infil­tra­rá (este é o ver­bo) na vida da famí­lia de um ex-pre­si­diá­rio con­ver­ti­do em evan­gé­li­co devo­to, sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te cha­ma­do Salvador (Lourinelson Vladmir). Há um toque deTeorema, o fil­me de Pasolini, no efei­to cau­sa­do por essa intru­são, mas desen­vol­ver aqui a ana­lo­gia seria entre­gar demais a tra­ma.

O que impor­ta é a manei­ra segu­ra, enge­nho­sa e ori­gi­nal com que Muritiba nos con­duz pelos mean­dros da men­te obses­si­va do pro­ta­go­nis­ta em seu emba­te com o pas­sa­do e o pre­sen­te. Sem lan­çar mão dos tru­ques e mule­tas con­ven­ci­o­nais dos fil­mes de sus­pen­se (músi­ca enfá­ti­ca, mon­ta­gem fre­né­ti­ca, clo­ses didá­ti­cos), ele cons­trói em pla­nos lon­gos e flui­dos uma atmos­fe­ra de cres­cen­te ten­são.

Nunca sabe­mos a ati­tu­de que o pro­ta­go­nis­ta toma­rá em segui­da. O ros­to ao mes­mo tem­po ten­so e inson­dá­vel do ator suge­re todas as pos­si­bi­li­da­des, e somos leva­dos (até pela expe­ri­ên­cia de ter vis­to tan­tos fil­mes poli­ci­ais, de ação e sus­pen­se) a ante­ver as inú­me­ras for­mas que a vin­gan­ça pode assu­mir. Aquilo que não acon­te­ce pare­ce acres­cen­tar ten­são à ten­são, de tal manei­ra que o des­fe­cho é, ao mes­mo tem­po, sur­pre­en­den­te e o úni­co pos­sí­vel sem des­men­tir toda a cons­tru­ção.

Aqui é ine­vi­tá­vel um peque­no spoi­ler, ain­da que indi­re­to. Quem qui­ser pode pular este pará­gra­fo. Há no cine­ma nar­ra­ti­vo clás­si­co uma con­ven­ção não escri­ta segun­do a qual quan­do se mos­tra uma arma numa cena ela decer­to será usa­da em algum momen­to pos­te­ri­or. Pois bem: em Minha ama­da mor­ta pis­to­las, facões, pás e mar­te­los são armas poten­ci­al­men­te mor­tí­fe­ras que se man­têm como tais, sem explo­são ou catar­se.

Dança dos anta­go­nis­tas

Dois pla­nos-sequên­cia admi­rá­veis ates­tam a segu­ran­ça e o vigor da mise-en-scè­ne de Aly Muritiba, bem como a com­pe­tên­cia de seu dire­tor de foto­gra­fia Paulo Baião.

Num deles, à noi­te, os dois anta­go­nis­tas, Fernando e Salvador, con­ver­sam no quin­tal da casa do segun­do enquan­to rea­li­zam peque­nos tra­ba­lhos. Fernando, com uma pá, joga pedra ou areia (não vemos a ima­gem toda) de um mon­te a outro, enquan­to Salvador se movi­men­ta ora às suas cos­tas, ora à sua fren­te. O foco tam­bém se des­lo­ca de um a outro enquan­to se desen­vol­ve a con­ver­sa, fei­ta de remi­nis­cên­ci­as, alu­sões, mei­as-pala­vras. O rit­mo das paza­das, o arfar de Fernando, a cres­cen­te con­tra­ção do ros­to de Salvador dian­te dos rumos da con­ver­sa, tudo é orques­tra­do magis­tral­men­te numa úni­ca toma­da com a câme­ra pra­ti­ca­men­te fixa.

O outro pla­no-sequên­cia é ain­da mais extra­or­di­ná­rio em sua com­ple­xi­da­de. Ele come­ça quan­do os mes­mos dois per­so­na­gens estão no telha­do de uma edí­cu­la, reti­ran­do telhas e des­pre­gan­do tábu­as. Ouve-se o ruí­do de um aci­den­te na rua e a câme­ra vai inves­ti­gar do que se tra­ta. O cachor­ro da famí­lia foi atro­pe­la­do; é leva­do para den­tro, outras per­so­na­gens entram em cena, seguem-se uma con­ver­sa cris­pa­da e um novo con­fron­to psi­co­ló­gi­co entre os anta­go­nis­tas. Ao con­trá­rio da cena des­cri­ta no pará­gra­fo ante­ri­or, aqui a câme­ra des­cre­ve um movi­men­to con­tí­nuo e ousa­do e mui­tos ele­men­tos são core­o­gra­fa­dos de modo pre­ci­so.

O que se vê em Para minha ama­da mor­ta é, por­tan­to, uma rara ampli­tu­de de recur­sos expres­si­vos, um vir­tu­o­sis­mo nada exi­bi­ci­o­nis­ta, total­men­te vol­ta­do para a cons­tru­ção nar­ra­ti­va e dra­má­ti­ca. Cinema puro, da mais alta qua­li­da­de e ori­gi­na­li­da­de. Aly Muritiba, como já suge­ri­am seus cur­tas, é um nome que veio para ficar.

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