O diretor Felipe Sholl

O diretor Felipe Sholl

Inventário de solidões

No cinema

14.07.17

Fala comi­go, lon­ga-metra­gem de estreia do cari­o­ca Felipe Sholl, come­ça e ter­mi­na no escu­ro, isto é, com pala­vras sen­do ditas sobre a tela pre­ta. O fil­me pare­ce par­tir do prin­cí­pio (e che­gar à con­clu­são) de que sem­pre have­rá coi­sas – nos outros, no mun­do e em nós mes­mos – que nun­ca sabe­re­mos por com­ple­to.

Daí tam­bém a cons­tru­ção frag­men­tá­ria da nar­ra­ti­va, fei­ta de elip­ses, diá­lo­gos trun­ca­dos (ou redu­zi­dos a monó­lo­gos), sal­tos espa­ci­ais e tem­po­rais, clo­ses e pri­mei­rís­si­mos pla­nos que dei­xam a mai­or par­te dos cor­pos fora de qua­dro. Mas, para que este comen­tá­rio não fique abs­tra­to demais, é pre­ci­so dizer do que tra­ta o fil­me, ou seja, qual é o seu “enre­do”.

Filme de amor

Trata-se, em linhas gerais, do envol­vi­men­to de um rapaz de 17 anos, Diogo (o exce­len­te Tom Karabachian), com Angela (Karine Teles), uma paci­en­te qua­ren­to­na de sua mãe psi­ca­na­lis­ta (Denise Fraga). A par­tir des­sa situ­a­ção deli­ca­da desen­vol­ve-se um fil­me de amor que é ao mes­mo tem­po dra­ma de famí­lia, crô­ni­ca de cos­tu­mes e espe­cu­la­ção sobre temas como a sexu­a­li­da­de difu­sa da ado­les­cên­cia, rela­ções entre pes­so­as de gera­ções dife­ren­tes e, não menos impor­tan­te, os limi­tes da psi­ca­ná­li­se, sobre­tu­do quan­do esta dei­xa de ser uma fer­ra­men­ta liber­tá­ria para se tor­nar ins­tru­men­to nor­ma­ti­vo e repres­sor.

Unificando todas essas linhas de for­ça, o que vemos é um ensaio dra­má­ti­co sobre a soli­dão, sobre a carên­cia huma­na, sobre o cará­ter incom­ple­to de cada indi­ví­duo – e sua bus­ca meio ata­ba­lho­a­da de se com­ple­tar nos outros. Essa falha de ori­gem ou defei­to de fabri­ca­ção afe­ta todos os per­so­na­gens, não ape­nas os três pro­ta­go­nis­tas cita­dos, mas tam­bém os secun­dá­ri­os: o pai de Diogo (Emilio Melo), sua irmã mais nova (Anita Ferraz), seu melhor ami­go (Daniel Rangel) etc. É, de cer­ta for­ma, um inven­tá­rio de soli­dões.

No cen­tro de tudo, cla­ro, está o ator­men­ta­do Diogo, que fla­gra­mos em seu vício soli­tá­rio e secre­to logo na pri­mei­ra cena. Seu feti­che é tele­fo­nar para mulhe­res paci­en­tes da mãe e se mas­tur­bar enquan­to ouve a voz delas do outro lado da linha. Porém, ao con­trá­rio de um Todd Solondz (Bem-vin­do à casa de bone­cas, Felicidade, Histórias proi­bi­das), que exi­be as per­ver­sões de seus per­so­na­gens como aber­ra­ções, explo­ran­do o que têm de bizar­ro, Felipe Sholl pare­ce res­pei­tar essas pecu­li­a­ri­da­des ínti­mas como uma espé­cie de últi­mo redu­to da indi­vi­du­a­li­da­de e da liber­da­de. Nesse sen­ti­do, apro­xi­ma-se do huma­nis­mo radi­cal de O que se move, de Caetano Gotardo.

A carên­cia afe­ti­va de Diogo se expres­sa num ges­to recor­ren­te: ele dei­ta a cabe­ça no ombro de uma pes­soa pró­xi­ma: do pai (numa das cenas mais belas do fil­me, em que os dois com­par­ti­lham um fone de ouvi­do para escu­tar uma músi­ca, soli­tá­ri­os na noi­te), da mãe, da aman­te, da irmã.

Razão e vul­ne­ra­bi­li­da­de

Chama a aten­ção, na decu­pa­gem do fil­me, a rela­ti­va escas­sez de cenas resol­vi­das pelo campo/contracampo. Estes, quan­do apa­re­cem, não são mera­men­te expo­si­ti­vos: têm a for­ça de ver­da­dei­ros emba­tes entre os per­so­na­gens, de con­tras­tes radi­cais de pon­tos de vis­ta.

Não se tra­ta de um melo­dra­ma con­ven­ci­o­nal, onde uns têm razão e outros não. Todos têm suas razões e suas vul­ne­ra­bi­li­da­des. Clarice, a psi­ca­na­lis­ta mãe de Diogo, só se refu­gia na auto­ri­da­de clas­si­fi­ca­tó­ria e pres­cri­ti­va de seu ofí­cio por­que sen­te que está per­den­do seu papel pro­te­tor, sua ascen­dên­cia espe­ci­al sobre o filho. O cole­ga Guilherme hos­ti­li­za a namo­ra­da madu­ra de Diogo por­que não con­se­gue lidar com seu pró­prio dese­jo pelo ami­go.

Enfeixando pul­sões tão deli­ca­das e com­ple­xas, esse fil­me sur­pre­en­den­te­men­te segu­ro para um estre­an­te em lon­ga não está isen­to de fra­que­zas, entre elas uma cena um tan­to cli­chê de pais dis­cu­tin­do a sepa­ra­ção enquan­to os filhos ouvem escon­di­dos, ou a natu­ra­li­da­de pou­co crí­vel com que uma meni­na de dez ou onze anos anda sozi­nha de táxi pelo Rio de Janeiro.

Mas isso tudo é secun­dá­rio dian­te da inte­gri­da­de e con­sis­tên­cia cine­ma­to­grá­fi­ca de Fala comi­go, que no Festival do Rio do ano pas­sa­do con­quis­tou os prê­mi­os de melhor fil­me e melhor atriz (para a sem­pre óti­ma Karine Teles). Nestes tem­pos de rota­ti­vi­da­de pre­da­tó­ria no cir­cui­to exi­bi­dor, sem­pre cabe a dica: veja logo antes que saia de car­taz.

 

  • Fala comi­go será exi­bi­do no cine­ma do IMS Rio a par­tir do dia 20/7, quin­ta-fei­ra.

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