A diretora Eliane Caffé

A diretora Eliane Caffé

Maloca moderna

No cinema

17.03.17

Boa par­te da his­tó­ria soci­al e arqui­tetô­ni­ca de São Paulo está sin­te­ti­za­da na can­ção “Saudosa malo­ca”, de Adoniran Barbosa: “pala­ce­te asso­bra­da­do” da bur­gue­sia agro-indus­tri­al pau­lis­ta vira cor­ti­ço, que é der­ru­ba­do para a cons­tru­ção de um “edi­fí­cio alto”, e os mora­do­res da malo­ca vão viver ao relen­to, “pegan­do as palhas nas gra­mas do jar­dim”. Hoje seria neces­sá­rio um aden­do: o “edi­fí­cio alto” foi aban­do­na­do, está cain­do aos peda­ços, e uma mul­ti­dão de desa­bri­ga­dos o inva­de para cons­truir ali seu lar, con­tra as pres­sões da Justiça e da polí­cia.

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, é, de cer­ta for­ma, esse aden­do que fal­ta­va ao clás­si­co de Adoniran. Poucos fil­mes podem ser con­si­de­ra­dos mais atu­ais. O que vemos ali é a crô­ni­ca, entre a fic­ção e o docu­men­tá­rio, do dia a dia de uma “ocu­pa­ção” no cen­tro de São Paulo, às vés­pe­ras da sua “rein­te­gra­ção de pos­se”, eufe­mis­mo para des­pe­jo.

A nar­ra­ti­va é epi­só­di­ca, alter­nan­do his­tó­ri­as de vári­os mora­do­res e mis­tu­ran­do ato­res a per­so­na­gens “reais”, isto é, que vivem seus pró­pri­os papéis. Essa opção pela frag­men­ta­ção pro­pi­cia a Eliane Caffé a liber­da­de de tra­ba­lhar com os mais vari­a­dos mate­ri­ais, for­ma­tos e tex­tu­ras.

Forma hete­ro­gê­nea

home movi­es dos pró­pri­os mora­do­res, con­ver­sas por Skype de refu­gi­a­dos do Congo e imi­gran­tes da Palestina, flashes de cober­tu­ras jor­na­lís­ti­cas (cedi­dos pela Mídia Ninja e pelos Jornalistas Livres, entre outros), além evi­den­te­men­te das ações ence­na­das e fil­ma­das pela pró­pria dire­to­ra. Sem con­tar que os ocu­pan­tes resol­vem fazer um “audi­o­vi­su­al” artís­ti­co, mis­tu­ran­do tea­tro, dan­ça e músi­ca, e um blog para divul­gar e dis­cu­tir seu movi­men­to.

Em alguns momen­tos – como na ocu­pa­ção de outro pré­dio com a aju­da dos mora­do­res do Cambridge – é impos­sí­vel dis­tin­guir onde ter­mi­na o regis­tro docu­men­tal e come­ça a fic­ção. O fato de os per­so­na­gens comu­ni­ca­rem-se con­ti­nu­a­men­te com suas loca­li­da­des de ori­gem via inter­net per­mi­te que o mun­do todo se infil­tre naque­le espa­ço con­fi­na­do. Por meio des­se arti­fí­cio, vemos um pou­co de tudo, de minas de col­tan na África a cida­des bom­bar­de­a­das na Síria. Esse cará­ter híbri­do e hete­ro­gê­neo con­fe­re uma notá­vel vita­li­da­de ao fil­me, mas tam­bém cer­ta frou­xi­dão e fal­ta de rigor a algu­mas pas­sa­gens.

Há tra­mas secun­dá­ri­as que pare­cem enxer­ta­das arti­fi­ci­al­men­te no con­jun­to com o obje­ti­vo de for­çar uma iden­ti­fi­ca­ção do espec­ta­dor com os per­so­na­gens: por exem­plo, as cenas de amor entre uma moça bra­si­lei­ra e um refu­gi­a­do con­go­lês, ou o assé­dio de um jovem pales­ti­no por uma velha malu­ca (a exce­len­te Suely Franco). Os diá­lo­gos, sobre­tu­do os dos imi­gran­tes com seus fami­li­a­res dis­tan­tes, ten­dem a ser didá­ti­cos, expli­can­do uma situ­a­ção geo­po­lí­ti­ca e indu­zin­do a uma toma­da de posi­ção. O fato de o par­ti­do assu­mi­do ser o “cor­re­to” (con­tra a opres­são e a into­le­rân­cia, a favor da liber­da­de e da fra­ter­ni­da­de) não o isen­ta de ser uma espé­cie de mule­ta dra­má­ti­ca.

No mais, a mise-en-scè­ne é bas­tan­te efi­caz, explo­ran­do, mui­tas vezes com a câme­ra na mão e enqua­dra­men­tos em que a ima­gem está par­ci­al­men­te obs­truí­da, a sen­sa­ção de exigüi­da­de do espa­ço, de claus­tro­fo­bia e ao mes­mo tem­po de acon­che­go, tro­ca, calor huma­no. Corredores par­ci­al­men­te ilu­mi­na­dos e fos­sos de esca­da são ima­gens recor­ren­tes. O pla­no da espi­ral da esca­da fil­ma­da em con­tre-plon­gée enquan­to todos des­cem baten­do pane­las é uma lin­de­za. A luz é tão essen­ci­al para o fil­me como para os mora­do­res. Não por aca­so, uma das pri­mei­ras ima­gens é a de fia­ção impro­vi­sa­da e uma das pri­mei­ras cenas é a do con­ser­to da ins­ta­la­ção elé­tri­ca do pré­dio.

Teatro soci­al

Na pon­te entre a fic­ção e o “real” ocu­pa um lugar deci­si­vo o extra­or­di­ná­rio José Dumont, ator capaz de trans­mi­tir como pou­cos a vera­ci­da­de de uma expe­ri­ên­cia huma­na, qual­quer que seja o seu papel. Aqui ele é uma espé­cie de inte­lec­tu­al orgâ­ni­co dos mora­do­res, a todo momen­to conec­tan­do seu coti­di­a­no pro­sai­co com a dimen­são da filo­so­fia, do sonho e da poe­sia.

O outro ali­cer­ce dra­má­ti­co do fil­me é a sur­pre­en­den­te Carmen Silva, líder dos movi­men­tos de ocu­pa­ção e uma atriz nata. A cer­ta altu­ra, os mora­do­res ensai­am sua par­ti­ci­pa­ção numa audi­ên­cia no fórum sobre a ação de des­pe­jo que pesa sobre eles. Carmen assu­me o papel da juí­za que os rece­be­rá. O humor inci­si­vo, a cons­ci­ên­cia agu­da de cada deta­lhe do tea­tro soci­al, da litur­gia da domi­na­ção, faz des­se bre­ve momen­to uma cena de anto­lo­gia. Só ela já vale­ria o fil­me.

Cabe ain­da uma pala­vra sobre o final lite­ral­men­te explo­si­vo. Não é um final feliz ou catár­ti­co. A bem dizer, não é nem sequer um final. É como se o espec­ta­dor do cine­ma pres­sen­tis­se que a rua lá fora o espe­ra com a con­ti­nu­a­ção des­sa his­tó­ria.

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