Videogame do dinheiro

No cinema

03.06.16

Por algum moti­vo, ou por todos, a espe­cu­la­ção finan­cei­ra – com os desas­tres soci­ais decor­ren­tes – tor­nou-se um tema fre­quen­te no cine­ma nor­te-ame­ri­ca­no atu­al. Depois de O lobo de Wall Street (2013) e A gran­de apos­ta (2015), ago­ra é a vez de Jogo do dinhei­ro.

Cotejado com seus ante­ces­so­res, o fil­me diri­gi­do por Jodie Foster tem uma dife­ren­ça fun­da­men­tal: toda a sua ação con­cen­tra-se em pou­cas horas, ain­da que conec­te dife­ren­tes par­tes do pla­ne­ta. Concentração e cone­xão, con­for­me vere­mos, são as idei­as-cha­ve para apre­en­der o dis­po­si­ti­vo nar­ra­ti­vo do fil­me.

Em tem­po real

Tudo se pas­sa duran­te um pro­gra­ma tele­vi­si­vo de eco­no­mia, Money mons­ter, em que, entre dan­ci­nhas ridí­cu­las e jogos estú­pi­dos, um apre­sen­ta­dor–show­man, Lee Gates (George Clooney), dá dicas de inves­ti­men­to aos espec­ta­do­res. Um jovem desem­pre­ga­do (Jack O’Connell) inva­de o estú­dio duran­te o pro­gra­ma e toma Gates como refém, ame­a­çan­do explo­dir o pré­dio todo, em ple­no cen­tro de Manhattan. Exige, ao mes­mo tem­po, que as câme­ras con­ti­nu­em trans­mi­tin­do ao vivo o que se pas­sa.

Como a razão do “intem­pes­ti­vo ges­to” foi uma dica infe­liz do apre­sen­ta­dor, que levou o rapaz a inves­tir todas as suas eco­no­mi­as em ações que des­pen­ca­ram dras­ti­ca­men­te, o úni­co meio de evi­tar a tra­gé­dia é des­co­brir o que acon­te­ceu com tais ações, tare­fa que mobi­li­za a polí­cia, jor­na­lis­tas da emis­so­ra, ana­lis­tas econô­mi­cos, hac­kers e gêni­os da mate­má­ti­ca em locais tão dis­tan­tes como Coreia, Suíça e África do Sul.

Ao esmiu­çar a gigan­tes­ca frau­de finan­cei­ra fol­lowing the money numa nar­ra­ti­va que simu­la o tem­po real, Jodie Foster não ape­nas cons­trói um sus­pen­se ele­tri­zan­te, como aca­ba por retra­tar carac­te­rís­ti­cas cen­trais da nos­sa épo­ca: a eco­no­mia glo­ba­li­za­da, a cone­xão uni­ver­sal via inter­net, a trans­for­ma­ção ime­di­a­ta dos fatos em espe­tá­cu­lo.

O cir­co que se arma em tor­no do estú­dio inva­di­do, com trans­mis­são ao vivo e uma mas­sa de curi­o­sos na rua, lem­bra a situ­a­ção aná­lo­ga de Um dia de cão, de Sidney Lumet, e, em menor medi­da, de O pla­no per­fei­to, de Spike Lee. Só que aqui a conec­ti­vi­da­de e a inte­ra­ti­vi­da­de são tre­men­da­men­te exa­cer­ba­das. Configura-se um ver­ti­gi­no­so espa­ço vir­tu­al em que são abo­li­das as fron­tei­ras geo­grá­fi­cas, soci­ais e cul­tu­rais. É tudo ao mes­mo tem­po ago­ra, como num gigan­tes­co vide­o­ga­me.

Ritmo e humor

Não há tem­pos mor­tos nes­sa nar­ra­ti­va ten­sa e vibrá­til. Tudo é expos­to do modo menos lite­rá­rio, menos tea­tral, mais cine­ma­to­grá­fi­co pos­sí­vel. Um exem­plo sin­ge­lo: um poli­ci­al loca­li­za a casa do inva­sor do estú­dio, vê uma jovem entran­do nela e a abor­da, per­gun­tan­do qual a sua rela­ção com o rapaz. Ela ape­nas vira o cor­po e mos­tra a bar­ri­ga de grá­vi­da. É uma ima­gem que res­pon­de a per­gun­ta – e ain­da ilu­mi­na melhor as moti­va­ções do ges­to extre­mo do sujei­to.

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O ator George Clooney e a dire­to­ra Jodie Foster duran­te as fil­ma­gens

O rela­xa­men­to, sem­pre bre­ve, vem dos momen­tos de humor que pon­tu­am a nar­ra­ti­va – e que são óti­mos, gra­ças em gran­de par­te ao talen­to de Clooney para a paró­dia e a autoi­ro­nia. Boa por­ção da gra­ça vem do fato de ele se rela­ci­o­nar ao mes­mo tem­po com o ensan­de­ci­do que o ame­a­ça e com a “voz da razão” da dire­to­ra do pro­gra­ma (Julia Roberts) que fala ao seu ouvi­do atra­vés do pon­to ele­trô­ni­co.

No mais, Jodie Foster demons­tra como dire­to­ra uma gran­de segu­ran­ça na orques­tra­ção dos diver­sos pon­tos de vis­ta e no con­tro­le do rit­mo. Trabalha den­tro da tra­di­ção e das regras de gêne­ro, mas atu­a­li­zan­do-as e reno­van­do-as com a dinâ­mi­ca de seu (nos­so) tem­po. O resul­ta­do é um dos gran­des fil­mes ame­ri­ca­nos do ano até ago­ra.

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