A seção Primeira Vista publica todo mês textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do IMS. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Neste fevereiro, Carola Saavedra foi convidada para escrever sobre uma foto de Maureen Bisilliat, pertencente a uma série sobre travestis no carnaval do Rio de Janeiro (c.1980)
Luto e barbárie
Somos um país sem tradição de luto público, o que de certa forma ajuda a explicar tanto descaso por determinadas vidas em detrimento de outras. Nada mais apropriado para refletir sobre as reações à morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia da Silva.
Renoir, amigo dos homens
Uma obra única e essencial, de encanto perene, está quase completa na grande retrospectiva A vida lá fora: o cinema de Jean Renoir, destacando aquilo que lhe perpassa e unifica: o infinito interesse por indivíduos concretos, imperfeitos, contraditórios, mais do que por ideias abstratas, enredos dramáticos ou grandes construções estéticas. Descendo vários degraus na escala de grandeza do cinema, entram em cartaz dois filmes norte-americanos candidatos ao Oscar e ambientados no mesmo período: o início da década de 1960.
Cloro
Eu sempre quis escrever sobre autocontrole. O romance no qual trabalho atualmente, cujo título provisório é Cloro, explora essa questão. O narrador, Georges, é um homossexual enrustido casado com uma mulher, e passou a vida toda se controlando. Ele morreu no dia anterior, mas manteve a consciência e se encontra numa espécie de limbo, decidindo quais histórias contaria sobre si na eventualidade de um juízo final.
Políticas do grafite
O grafite – antes de qualquer debate sobre ser ou não arte – é uma ação política, e não só pelo que pode dizer ou representar, mas por sua própria natureza: uma inscrição sobre um local não previamente designado para tal. A imprevisibilidade é, antes de tudo, um índice de humanidade. Uma cidade totalmente previsível, onde nada escapa, nada sai do lugar, não é uma cidade limpa, mas uma cidade triste.
Comunicar o incomum
Qual o sentido da vida? A pergunta que todo ser humano se faz, pelo menos uma vez ao longo de sua existência, não tem uma única resposta. Se é que comporta alguma resposta. Foi a partir desta indagação, contudo, que o diretor Carlos Nader começou a filmar, em 1995, o documentário Homem comum (2014), novo título da coleção de DVDs do IMS. Durante quase 20 anos Nader acompanhou o caminheiro paranaense Nilson de Paula, registrando suas viagens e a vida em família, e compôs um retrato ao mesmo tempo particular e universal do cotidiano corriqueiro atravessado pela proposição de uma questão metafísica, grandiosa, e nunca resolvida.
Tiradentes, o anti-Oscar
Não vamos falar, ao menos por enquanto, dos famigerados “filmes do Oscar”, que inundam as telas e a mídia todo início de ano. Tem tempo para isso. Hoje é dia de falar da Mostra de Cinema de Tiradentes, a pleno vapor em sua vigésima edição. Entre os festivais brasileiros, é o que aposta mais radicalmente no cinema autoral, de invenção, de experiência, ou seja lá como se queira chamar esse punhado de filmes estranhos ao mercado e avessos às classificações.
Cinema como experiência
Kleber Mendonça Filho, desde dezembro de 2016 coordenador de cinema do Instituto Moreira Salles, apresenta algumas das novidades e planos para os cinemas do IMS e resume sua responsabilidade em poucas linhas: “O que devemos defender é a própria experiência de se ver um filme numa sala de cinema. E isso defendemos com programação, qualidade técnica e respeito ao espectador”.
A hora da comédia, a comédia da hora
“Numa terra radiosa vive um povo triste”, escreveu celebremente Paulo Prado no começo de seu Retrato do Brasil. Talvez por isso tenhamos tanta necessidade de rir – de nós mesmos, por suposto. No atual e conturbado momento em especial, as comédias estão com tudo: dos dez filmes brasileiros de maior bilheteria em 2016, nada menos que sete pertencem ao gênero. O fenômeno da hora é Minha mãe é uma peça 2, de César Rodrigues, que já passou dos seis milhões de espectadores.
Escritor sem pais nem filhos
A reedição dos romances do mineiro Campos de Carvalho, morto em 1998, recoloca a questão: como um escritor de imaginação tão poderosa é ainda desconhecido no Brasil?
