E o que chama a atenção é justamente o modo como Hollywood, de tempos em tempos, a pretexto de questionar ou problematizar seus clichês, acaba por reafirmá-los. Em La la land essa operação abarca alguns dos mais recorrentes lugares-comuns do imaginário americano: a máxima de que vale a pena “acreditar em seus sonhos”, a ideia de que no meio da multidão há alguém especial para cada pessoa, o mito do self made man (ou woman). Não há nada de muito revolucionário aqui, portanto.
Não é mole, não
Corria o ano de 1957 e o fotógrafo Otto Stupakoff, então instalado no Rio de Janeiro, encomendou ao amigo e arquiteto Sergio Rodrigues um sofá confortável, no qual pudesse se “refestelar” em seu estúdio da Rua Sambaíba, no Leblon. A história é conhecida, mas merece ser sempre lembrada porque também fez História: do “sofazão do Otto”, como Rodrigues chamou o projeto, para a criação da poltrona Mole, um ícone do mobiliário brasileiro e internacional ainda hoje, 60 anos depois de seu lançamento, foi um pequeno passo. Ou traço.
Liberdade e luta
John Berger, falecido no último dia 2, não se contentava com pouco. Aliás, pouco se contentava. Era um radical, no melhor sentido do termo. Desde seu combativo, e delicioso, primeiro livro de ensaios críticos, nunca deixou de denunciar a ganância por poder, dinheiro e celebridade que põe em perigo os valores mais essenciais da humanidade, nem poupou as manobras de um meio cultural que busca enredar a arte em tramas e discursos capazes de esvaziá-la de seu sentido crítico e alinhá-la com os interesses de quem o controla. Tal procedimento, ele nomeava, em alto e bom som marxista, como ‘mistificação’. Arte, para Berger, era liberdade e luta.
Encontro com Dois irmãos
Em 2001, Milton Hatoum participou da série O escritor por ele mesmo, promovida pelo IMS. Na ocasião, leu trechos do primeiro livro, Relato de um certo Oriente, vencedor do Jabuti de melhor romance, e também do igualmente premiado Dois irmãos, que chega às telas da TV Globo nesta segunda-feira, dia 9, na minissérie homônima com texto da roteirista Maria Camargo e direção artística de Luiz Fernando Carvalho.
Dois olhares sobre as ruínas
O ano cinematográfico começa bem. Dois filmes de pungente atualidade estão em cartaz nos cinemas brasileiros: O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, Urso de Prata de melhor direção em Berlim, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes. São bem distintos em termos de temática, ambientação e estilo, mas talvez haja entre eles um ponto comum: a angústia diante dos rumos que a vida está tomando na Europa e no mundo.
Caixa de música
Se boas histórias costumam render boas imagens, belas imagens também podem inspirar, por si só, novas e distintas narrativas. A partir desta ideia estreia hoje no Blog do IMS a seção Primeira vista, que levará ao leitor textos inéditos escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do IMS. A cada mês um escritor será convidado a criar um breve texto de ficção sobre uma foto, da qual não terá informação alguma, nem a identidade do fotógrafo ou a data e lugar em que foi feita. O gaúcho Paulo Scott é o autor do primeiro texto, a prosa poética Caixa de música, inspirado em uma obra de Otto Stupakoff.
2016, entre sinistro e sublime
Num ano de grandes traumas no Brasil e no mundo, o cinema, se não serviu para consertar nada, ao menos nos ajudou a manter aguçados o olhar e a sensibilidade. Atendo-nos aos títulos lançados no circuito comercial, alguns veteranos fundamentais (Bellocchio, Verhoeven, Almodóvar, Clint Eastwood, Woody Allen) marcaram presença, ao lado de estreantes promissores, como Robert Eggers, do surpreendente A bruxa.
Pazienza: derrota e niilismo
A geração de Andrea Pazienza foi marcada pela derrota ideológica, aderindo ao niilismo de extração punk como forma de reação. O consumo de heroína, combatido anteriormente pela Autonomia Operaia, alastrou-se. O hedonismo desesperado da série de quadrinhos protagonizada por Zanardi, um machista cínico e manipulador, investigou a insinuante presença do mal nas ações cotidianas, no sexo e na falta de sentido das relações completamente desprovidas de afeto, a não ser aquele emanado pela associação masculina em prol da esculhambação mais sórdida.
A ousadia literária de 2016
Aviso: esta não é uma lista de melhores livros do ano. Listas costumam ser encaradas com desconfiança, e não sem razão. Este também não é um apanhado (quase sempre chatíssimo) do mercado editorial brasileiro em 2016. Este texto não é igualmente uma lista das perdas de grandes personagens do mundo literário, embora elas tenham sido muitas e sentidas. Estas linhas são para ressaltar que 2016 foi o ano em que a literatura galgou um novo patamar, e a ousadia foi referendada justamente pela mais vetusta e pomposa das instituições: a Academia Sueca.
Tonacci, cinema dos grandes
Hoje é preciso falar de Andrea Tonacci (1944-2016), o imenso cineasta que acaba de nos deixar. Num ano de graves perdas para o cinema brasileiro, esta foi uma das mais cruéis, pois Tonacci vivia uma fase de grande energia e criatividade, com vários projetos em mente ou em andamento. Muito querido por seus amigos, colegas e colaboradores (melhor seria dizer que todos os seus colegas e colaboradores tornavam-se instantaneamente seus amigos), o cineasta viu crescer nas últimas décadas uma legião de jovens admiradores, estimulados por seu trabalho, suas ideias e seu afeto.
