Dois cinemas

Não faz sentido cobrar de um filme aquilo a que ele não se propõe, nem tampouco eleger um tipo único de cinema e avaliar todos os filmes em cotejo com esse parâmetro. Ralé, de Helena Ignez, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, são obras diametralmente opostas, frutos de concepções cinematográficas radicalmente distintas – mas não excludentes. São ambos dignos e legítimos, merecem e devem ser vistos.

Aquarela do Brasil punk

Provocados pela pergunta ‘Que Brasil é esse que você acaba de ver?’, 120 dos mais de 6 mil visitantes contabilizados no primeiro mês em cartaz da exposição Modernidades fotográficas, 1940-1964 responderam à enquete com um misto de admiração e melancolia. Resumindo os sentimentos mais comuns expressos nos formulários redigidos à mão, o público viu na mostra “o país do futuro que nunca chega”, “que não volta”, “que não existe mais”.

Ao passado, ao trabalho

No Brasil, coube à filósofa Jeanne Marie Gagnebin a importante tarefa de ressignificar a melancolia no pensamento de Walter Benjamin e recusar o senso comum de o pensador alemão seria um saudosista em busca do tempo perdido. Em seu livro mais recente, ela trabalha com a ideia de que memória e rememoração funcionam em Benjamin como instrumentos políticos de resistência. Com isso, Gagnebin ajuda a pensar no que estamos vendo acontecer todos os dias: numa crise política, a disputa nunca é apenas em torno do presente, mas também ou principalmente sobre a história.

Abstrações de Haruo

Raras fotografias abstratas de Haruo Ohara evidenciam que a essência da linguagem fotográfica reside tanto no olhar do autor como no diálogo que o fotógrafo estabelece consigo mesmo no isolamento do laboratório, onde suas visões do mundo materializam-se em ampliações trabalhadas pacientemente para expressar as formas, texturas, luzes e cenários de seu mundo particular.

O corpo e a paisagem

Exilados do vulcão, de Paula Gaitán, é um “filme de cinema”, para usar a expressão enganosamente tautológica de Rogério Sganzerla, o que significa que não é teatro nem literatura (embora se nutra dessas linguagens), é algo que só existe na tela e para a tela, em que a luz não apenas ilumina a cena, mas a constitui.

No vestiário

É um lugar-comum que, na falta de argumentos, um dos lados da discussão termine citando Hitler e o nazismo como exemplos do mal absoluto e indiscutível. Costuma ser uma saída fácil e burra, e uma comparação em geral improcedente e irresponsável. Bolsonaro não é Hitler nem nazista, claro, mas há lições da história que não deveriam ser esquecidas. Não se faz pacto com o fascismo. Por motivo nenhum. Não se condescende com o fascismo nem por piada.

Millôr, duas sílabas fortes

Na época de Pif-Paf na revista O Cruzeiro, Millôr Fernandes deu início à série “Retratos 3×4 de amigos 6×9”, dedicada a breves perfis impressionistas de amigos e pessoas que admirava. Uma das homenageadas foi a atriz Fernanda Montenegro.
Anos mais tarde, em 2012, a atriz escreveu um texto em resposta a esse 3×4, para ser lido na inauguração do Largo do Millôr, entre o Arpoador e a praia do Diabo, no Rio de Janeiro. Assista à leitura.

O mundo vertiginoso de Kiarostami

Quando o cineasta iraniano Abbas Kiarostami surgiu aos olhos do mundo com filmes como Onde fica a casa do meu amigo? (1987) e Close-up (1990), houve quem se apressasse em dizer que seu sucesso no circuito dos festivais se devia a uma curiosidade pelo exotismo. O tempo provou que esses críticos estavam errados. Nas décadas que se seguiram Kiarostami construiu uma das filmografias mais sólidas e originais de nossa época.

Shakespeare na Batuta

A morte de William Shakespeare completa 400 anos no próximo sábado, dia 23 de abril, e a Rádio Batuta marca a data com O mundo musical de Shakespeare. Dividida em três capítulos, com seleção e apresentação de Roberto Muggiati, a série apresenta 60 momentos marcantes de obras musicais inspiradas nas peças do bardo inglês.

O que as palavras dizem das coisas

Para Pierre Dardot e Christian Laval, autores de A nova razão do mundo, o importante é mostrar como, no neoliberalismo, a concorrência, método capitalista por excelência, despreza qualquer regulação de trocas e destitui o Estado do papel de conter o mercado a partir de regras do direito público. A supremacia da gestão privada se expande das empresas para a vida e para a “arte neoliberal de governar os indivíduos”.