Há arte demais no mundo

Correspondência

25.08.11

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Caro Sérgio,

 

Eu hoje não estou bom, como dizia o com­ba­ti­vo sin­di­ca­lis­ta João Ferrador, memo­rá­vel cri­a­ção do car­tu­nis­ta Laerte. Tudo isso por­que uma sim­pá­ti­ca ami­ga vir­tu­al “pos­tou” (detes­to esse ver­bo, aliás) no Facebook um melo­so tex­to apó­cri­fo de auto­a­ju­da e o atri­buiu a Carlos Drummond de Andrade.

Como você cer­ta­men­te sabe, Drummond é, ao lado de Borges, Clarice Lispector e Fernando Pessoa, uma víti­ma pre­fe­ren­ci­al des­sa pra­ga de nos­sa épo­ca, que con­sis­te em difun­dir os mais pie­gas luga­res-comuns (geral­men­te sobre a “bus­ca da feli­ci­da­de”) como se tives­sem sido pro­du­zi­dos por gran­des escri­to­res. Ora, vão se catar. Quem faz isso devia ser pre­so para o res­to da vida.

Por falar em Pessoa, pas­sei o últi­mo fim de sema­na ven­do fil­mes por­tu­gue­ses em Cataguases, ter­ra de Humberto Mauro, como jura­do do fes­ti­val Cineport, que acon­te­ce em setem­bro na Paraíba. Mas isso não vem ao caso. O fato é que, entre os lon­gas que eu vi, esta­va o Filme do desas­sos­se­go, de João Botelho, ins­pi­ra­do no Livro do desas­sos­se­go, de Bernardo Soares, heterô­ni­mo de Fernando Pessoa.

Isso me incen­ti­vou a ler o livro, até então uma de minhas mui­tas lacu­nas, e nele me depa­rei com a seguin­te pas­sa­gem: “A ruí­na dos ide­ais clás­si­cos fez de todos artis­tas pos­sí­veis, e por­tan­to maus artis­tas. Quando o cri­té­rio da arte era a cons­tru­ção sóli­da, a obser­vân­cia cui­da­da de regras — pou­cos podi­am ten­tar ser artis­tas, e gran­de par­te des­ses são mui­to bons. Mas quan­do a arte dei­xou de ser tida como cri­a­ção, para pas­sar a ser tida como expres­são de sen­ti­men­tos, cada qual podia ser artis­ta, por­que todos têm sen­ti­men­to”.

Descontada cer­ta nos­tal­gia dos “ide­ais clás­si­cos”, pen­so que esse tre­cho diz mui­to sobre os dias de hoje. A faci­li­da­de de divul­gar qual­quer coi­sa pela inter­net — de víde­os domés­ti­cos a tex­tos pseu­do­li­te­rá­ri­os — fez de cada indi­ví­duo um “artis­ta em bus­ca do seu espa­ço”. Com as exce­ções de pra­xe, a como­di­da­de pro­por­ci­o­na­da pelos mei­os tec­no­ló­gi­cos gerou um como­dis­mo for­mal, uma enor­me pre­gui­ça téc­ni­ca e uma espan­to­sa auto­com­pla­cên­cia.

Claro que todo mun­do tem o direi­to de expres­sar seus sen­ti­men­tos — e res­sen­ti­men­tos -, suas idei­as banais ou extra­va­gan­tes sobre a vida na ter­ra. Para isso exis­te a mesa de bar, a roda de ami­gos, o ombro da namo­ra­da ou do namo­ra­do, o divã do psi­ca­na­lis­ta, o velho diá­rio pes­so­al. Mas a arte, a arte é outra coi­sa.

Basta ler uma estro­fe de João Cabral de Melo Neto, ou um pará­gra­fo de Guimarães Rosa, ouvir uma fra­se musi­cal de Tom Jobim, ver um tra­vel­ling de Stanley Kubrick, para ima­gi­nar quan­to de esfor­ço inte­lec­tu­al, quan­to de edu­ca­ção dos sen­ti­dos foi inves­ti­do ali, para além do talen­to natu­ral de seus cri­a­do­res.

Temo que me cha­mem de eli­tis­ta, aca­dê­mi­co ou pas­sa­dis­ta, mas con­cor­do com o artis­ta plás­ti­co Luiz Paulo Baravelli, que uma vez decla­rou que “há arte demais no mun­do”. Ele se refe­ria a cer­tas capas de livros que se enfa­ti­o­tam de sig­nos poé­ti­cos e refe­rên­ci­as esté­ti­cas para pare­cer “artís­ti­cas”. Mas a ideia pode se esten­der para todos os cam­pos da cri­a­ção, até mes­mo para o fute­bol, onde não é difí­cil dis­tin­guir o ver­da­dei­ro artis­ta do mero firu­lei­ro.

Os novos mei­os de cap­ta­ção e difu­são de ima­gens e de sons são fer­ra­men­tas pre­ci­o­sas nas mãos dos ver­da­dei­ros cri­a­do­res — pen­so no gran­de Eduardo Coutinho, cujo cine­ma docu­men­tal vol­tou a flo­res­cer na matu­ri­da­de por con­ta das câme­ras digi­tais -, mas tam­bém, como efei­to cola­te­ral, gera­ram uma miría­de de infe­li­zes “se expres­san­do” canhes­tra­men­te, inun­dan­do o mun­do com uma polui­ção esté­ti­ca que tor­na cada vez mais difí­cil — e indis­pen­sá­vel — sepa­rar o tri­go do joio.

Puxa, falei demais. Mas é só por­que não aguen­tei ver o Drummond ser saca­ne­a­do sem poder se defen­der.

Gostaria de saber o que você pen­sa sobre esses assun­tos.

Grande abra­ço, 

Zé Geraldo

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