O futuro no passado

Correspondência

21.07.11

Clique aqui para ver a car­ta ante­ri­or                                                                 Clique aqui para ver a car­ta seguin­te

Caro Sérgio,

Sim, cla­ro, Jung. Você não repa­rou, mas eu dis­se que foi ele que comen­tou os escri­tos da filha esqui­zo­frê­ni­ca do Joyce. Aliás, devo ter lido isso no livro do Ricardo Piglia que você citou, ou ouvi­do da boca do pró­prio, numa pales­tra dele na Folha de S. Paulo, alguns anos atrás. O Piglia é um autor que me agra­da mui­to, como fic­ci­o­nis­ta e como pen­sa­dor da lite­ra­tu­ra. Há outro livro lumi­no­so dele em por­tu­guês, cha­ma­do O labo­ra­tó­rio do escri­tor.

Sobre o Piglia eu tenho uma his­tó­ria inte­res­san­te. Em 1996, fui a Buenos Aires para fazer uma maté­ria espe­ci­al sobre o lega­do lite­rá­rio de Borges, dez anos depois de sua mor­te. Entre outras pes­so­as que tinham mui­to a dizer sobre ele (a viú­va Maria Kodama, o ami­go Bioy Casares, a bió­gra­fa e secre­tá­ria Maria Esther Vásquez etc.), con­ver­sei com Piglia. Ele me con­tou então que, na juven­tu­de, tinha fei­to uma entre­vis­ta com o Borges que nun­ca fora publi­ca­da. “Tenho as fitas e as trans­cri­ções em algum lugar”, dis­se, abran­gen­do com um ges­to a bagun­ça do seu escri­tó­rio de tra­ba­lho.

Voltei para o hotel e con­tei isso por tele­fo­ne ao meu então edi­tor no cader­no Mais! da Folha, o Alcino Leite Neto. “Uau! Uma entre­vis­ta iné­di­ta do Borges para o Piglia? Diz para ele que paga­mos mil dóla­res por ela”, dis­se o Alcino. Liguei de novo para o Piglia. Foi a vez dele se espan­tar: “Uau! Mil dóla­res! Por esse dinhei­ro eu sou capaz de inven­tar uma entre­vis­ta iné­di­ta do Borges.” Não duvi­do que fos­se mes­mo, mas o fato é que ele pro­cu­rou em vão a tal entre­vis­ta, e tive­mos de nos con­ten­tar com um arti­go iné­di­to dele sobre o mes­tre. Brilhante, por supu­es­to.

Agora a ques­tão das car­tas e das novas tec­no­lo­gi­as. Sua deli­ci­o­sa evo­ca­ção dos enve­lo­pes com a bor­da ver­de e ama­re­la me fez lem­brar da minha pri­mei­ra via­gem à Europa, em que eu, na extre­ma penú­ria, me hos­pe­da­va em alber­gues da juven­tu­de e pega­va de quan­do em quan­do a cor­res­pon­dên­cia vin­da do Brasil nas “pos­tas-res­tan­tes” dos cor­rei­os de cada cida­de. A visão daque­le enve­lo­pe fami­li­ar (em que vinha escri­to, como você deve lem­brar, “via aérea — par avi­on”) fazia meu cora­ção bater mais for­te.

Você fala do GPS, do celu­lar com tela de TV e de outras enge­nho­cas do nos­so tem­po. Acho que temos a sor­te de ain­da nos mara­vi­lhar com essas coi­sas que vemos sur­gir a cada dia.

Comecei a car­rei­ra jor­na­lís­ti­ca na máqui­na de escre­ver, mas logo as reda­ções se infor­ma­ti­za­ram. A pri­mei­ra rede de com­pu­ta­do­res da Folha não era mui­to con­fiá­vel. Dizia-se que era de fabri­ca­ção para­guaia. Não tenho cer­te­za dis­so, mas sei que a todo momen­to as maté­ri­as sumi­am das telas, per­di­am-se dias intei­ros de tra­ba­lho, era um deus nos acu­da na reda­ção.

Lembro-me niti­da­men­te de uma noi­te em que, pró­xi­mo do horá­rio de fecha­men­to do jor­nal, o sis­te­ma deu pau. Simplesmente parou, como um car­ro que “mor­re” por fal­ta de bate­ria. Uma cena para não esque­cer: o dire­tor do jor­nal, Otavio Frias Filho, e os dois secre­tá­ri­os de reda­ção, para­dos em silên­cio, per­ple­xos e expec­tan­tes, dian­te do ter­mi­nal iner­te da pri­mei­ra pági­na. Como sel­va­gens ao pé de um totem, à espe­ra de um mila­gre. No fun­do, acho que nos­so mara­vi­lha­men­to com os pro­dí­gi­os tec­no­ló­gi­cos tem algo do res­pei­to reli­gi­o­so dos pri­mi­ti­vos dian­te do des­co­nhe­ci­do.

Quando vi o 2001 do Kubrick, na pré-ado­les­cên­cia, fiquei encan­ta­do com o “tele­fo­ne com ima­gem” usa­do por um dos pro­ta­go­nis­tas para falar com a famí­lia a par­tir de uma esta­ção espa­ci­al. Hoje, com o Skype, o Msn e outros ins­tru­men­tos de con­ver­sa com ima­gem, isso é banal. Mas as via­gens espa­ci­ais tri­pu­la­das, ao con­trá­rio, não foram além da Lua, aqui per­ti­nho. Um estu­do fas­ci­nan­te, que cer­ta­men­te alguém já fez, é pas­sar em revis­ta as visões do futu­ro ofe­re­ci­das pela lite­ra­tu­ra e pelo cine­ma em cada épo­ca. No pas­sa­do, o futu­ro era bem mais baca­na.

Uma das coi­sas mais boni­tas da sua car­ta foi a ana­lo­gia que você fez entre o voo do pau­lis­ti­nha, “pilo­ta­do na mão e no visu­al”, com a escri­ta a cane­ta. O encan­to do arte­sa­nal, do cor­po a cor­po com a maté­ria, é algo que não tem pre­ço e que tal­vez este­ja se per­den­do.

No mais, obri­ga­do pela dica do livro do Ivan Sant’Anna sobre desas­tres aére­os. A jul­gar pelos outros dele, deve ser mui­to bom. Vou pro­cu­rar. Quem sabe o leio, por puro maso­quis­mo, na minha pró­xi­ma via­gem de avião.

Grande abra­ço,

Zé Geraldo

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: cena do fil­me 2011 — Uma odis­seia no espa­ço (1968), de Stanley Kubrick

 

 

, , , , , , , , , ,