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Quando tudo desmorona

Literatura

10.10.16

Uma tar­de de abril, logo após o almo­ço, meu mari­do me comu­ni­cou que que­ria me dei­xar.” A pri­mei­ra fra­se de Dias de aban­do­no ante­ci­pa a par­ti­da de Mario, dis­pos­to a colo­car um pon­to final no casa­men­to de quin­ze anos com Olga. O tru­que de suge­rir tan­to uma deter­mi­na­da atmos­fe­ra quan­to sua fra­gi­li­da­de, con­cre­ti­za­do já no pará­gra­fo de aber­tu­ra, será repro­du­zi­do diver­sas vezes ao lon­go des­te livro da ita­li­a­na Elena Ferrante. No iní­cio, cada deta­lhe está ali para refor­çar a domes­ti­ci­da­de pres­tes a ruir: as cri­an­ças bri­gam, o cão dor­me, o casal dis­cu­te. O teor da dis­cus­são, cujo gati­lho é a ame­a­ça de Mario de aban­do­nar (e des­fa­zer) a cena, é o que garan­te a ins­ta­bi­li­da­de. Passando da inten­ção à ação, dei­xan­do Olga “como uma pedra ao lado da pia”, ele par­te.

Se Ferrante não cria uma situ­a­ção para então dis­sol­vê-la, mas, ao con­trá­rio, esta­be­le­ce a pre­ca­ri­e­da­de de saí­da, tam­bém a incons­tân­cia de Olga está pre­sen­te des­de as pági­nas ini­ci­ais. Essa incons­tân­cia não é, ou não neces­sa­ri­a­men­te, um tra­ço nega­ti­vo: suge­re o prin­cí­pio de uma tra­ves­sia tur­bu­len­ta depois de um lon­go perío­do de estag­na­ção. As pala­vras-cha­ve de Dias de aban­do­no: devir, tran­si­tó­rio, con­tin­gen­te.

Ao lei­tor, porém, ape­nas uma par­ce­la des­sa trans­for­ma­ção de Olga está dis­po­ní­vel. Não há mui­tos indí­ci­os de quem foi a nar­ra­do­ra antes da par­ti­da de Mario. Por mais que tenha a inten­ção de revi­sar o pas­sa­do em bus­ca de res­pos­tas, Olga não pode reas­su­mir a anti­ga pers­pec­ti­va para então nar­rar a par­tir dela. A rup­tu­ra é bru­tal. A fim de recons­truí-la, e tam­bém à pró­pria rea­ção a essa rup­tu­ra, o rela­to de Olga segue um flu­xo irre­gu­lar onde cabem digres­sões, des­cri­ções, lem­bran­ças, pro­je­ções e delí­ri­os.

O enre­do de Dias de aban­do­no é banal. Elena Ferrante, uma auto­ra habi­li­do­sa, aspi­ra a essa bana­li­da­de. Por sur­gir na super­fí­cie, é a úni­ca coi­sa que o lei­tor apres­sa­do enxer­ga. (Quando escre­vo sobre algum de seus livros, ten­to não per­der de vis­ta o fato incon­tes­tá­vel de que Elena Ferrante está no míni­mo cin­co pas­sos à fren­te da crí­ti­ca. Se você enten­deu Ferrante facil­men­te, você não enten­deu nada). Olga se apro­xi­ma da meia-ida­de. Os dois filhos ain­da são peque­nos. Por insis­tên­cia do então mari­do, um enge­nhei­ro, o tem­po de Olga é gas­to entre os cui­da­dos com a casa e com as cri­an­ças. Tudo des­mo­ro­na quan­do Mario resol­ve tro­car a roti­na fami­li­ar por uma vida ao lado de Carla, a aman­te mais jovem.

Ao ana­li­sar a situ­a­ção em retros­pec­to, o que pode ou não ser ape­nas um tru­que da memó­ria, Olga per­ce­be indí­ci­os de que o casa­men­to não ia bem. Tarde demais. Pela segun­da vez em quin­ze anos, Mario expres­sa “um vazio de sen­ti­do”. O afas­ta­men­to ago­ra é defi­ni­ti­vo. Olga sofre o que se pode­ria cha­mar de um colap­so ner­vo­so. O pro­ble­ma é que ela pre­ci­sa cui­dar de dois filhos e um cachor­ro. E, no esta­do em que ela se encon­tra, até um pas­seio no par­que pode ser peri­go­so.

Pelo pou­co que se pode infe­rir do pas­sa­do de Olga, é segu­ro dizer que (por como­dis­mo ou desin­te­res­se) suas esco­lhas não são exa­ta­men­te cons­ci­en­tes. Ela encon­tra um mari­do. Tem filhos. Aceita a pre­sen­ça de um cachor­ro que sequer dese­ja. Em outras pala­vras, segue um rotei­ro conhe­ci­do. Numa pas­sa­gem, dá a enten­der que não com­pre­en­de como ou por que o rela­ci­o­na­men­to com Mario teve iní­cio. Por que nos apai­xo­na­mos por alguém?, per­gun­ta a pro­ta­go­nis­ta. Parece não saber. A nota dis­so­nan­te em meio a tan­tos cli­chês é o dese­jo de Olga, até então pou­co explo­ra­do, de ser escri­to­ra. Já é uma boa lei­to­ra.

O caso é que Olga não quer se pare­cer com algu­mas das per­so­na­gens que encon­tra nos livros que lê — mulhe­res “cul­tas, de boa con­di­ção soci­al, [que se que­bram] fei­to bibelôs nas mãos de seus homens dis­traí­dos”. Na fic­ção que dese­ja escre­ver, e que toda­via não escre­ve, seri­am admi­ti­das somen­te “mulhe­res com mui­tos recur­sos, mulhe­res com pala­vras indes­tru­tí­veis”. A lite­ra­tu­ra com que Olga sonha, insi­nua Ferrante, é rasa, pan­fle­tá­ria e enga­no­sa. Não exis­tem, afi­nal, pala­vras indes­tru­tí­veis, como a pro­ta­go­nis­ta des­co­bre assim que Mario des­faz, com uma faci­li­da­de assom­bro­sa, um com­pro­mis­so que para ela era vital.

Numa pas­sa­gem reve­la­do­ra, Olga con­fes­sa não saber os nomes das árvo­res do par­que em fren­te ao pré­dio. “Se tives­se de escre­ver, não teria con­se­gui­do”, diz. Para quem dese­ja reor­ga­ni­zar a rea­li­da­de a par­tir dos arti­fí­ci­os da lin­gua­gem, sua fal­ta de curi­o­si­da­de é alar­man­te. Se, como afir­ma um per­so­na­gem peri­fé­ri­co, Olga é real­men­te uma mulher sen­sí­vel, sua sen­si­bi­li­da­de — jun­to com algu­mas capa­ci­da­des e carac­te­rís­ti­cas — este­ve ador­me­ci­da duran­te um bom tem­po. Coletando as pou­cas infor­ma­ções dis­po­ní­veis, enten­de­mos que ela per­ma­ne­cia imer­sa na pró­pria roti­na, tão aves­sa ao pen­sa­men­to e à refle­xão quan­to pos­sí­vel. É como se Olga intuís­se que algu­mas coi­sas não resis­ti­ri­am a um exa­me demo­ra­do. Se paras­se o que quer que esti­ves­se fazen­do, pen­sa­ria na pró­pria vida. Se pen­sas­se, pode­ria des­mo­ro­nar.

Olga só con­se­gue avan­çar na escri­ta do livro depois da par­ti­da de Mario. Tudo leva a crer que as ati­vi­da­des de mãe e dona de casa não a absor­vi­am por com­ple­to, tam­pou­co eram incom­pa­tí­veis com a escri­ta. O caso é que Olga, pre­sa a uma roti­na monó­to­na, com pou­ca inti­mi­da­de con­si­go ou com o mun­do, nada tinha a dizer. Uma vez que a ima­gi­na­ção deri­va dire­ta­men­te da curi­o­si­da­de, e que sem algu­ma dose de ima­gi­na­ção não há lite­ra­tu­ra, Olga per­ma­ne­cia como que para­li­sa­da. Não se tra­ta de ver aí uma ver­são român­ti­ca da cri­a­ção artís­ti­ca — segun­do a qual o sofri­men­to mol­da e apri­mo­ra o escri­tor —, mas de dar o devi­do peso à expe­ri­ên­cia liber­ta­do­ra da pro­ta­go­nis­ta. Olga deu alguns pas­sos em dire­ção ao auto­co­nhe­ci­men­to: garan­tiu cer­ta inti­mi­da­de com o pró­prio cor­po, pas­sou a pres­tar aten­ção naqui­lo que antes não lhe des­per­ta­va o inte­res­se. Poderia ter se tor­na­do escri­to­ra se não fos­se a par­ti­da de Mario? Se algo a for­ças­se a enca­rar a rea­li­da­de, sim. Nesse caso, porém, algu­mas pis­tas dei­xam cla­ro que tal­vez fos­se Olga a pedir o divór­cio.

Quando tudo des­mo­ro­na, uma nova lin­gua­gem se abre para a pro­ta­go­nis­ta. O colap­so des­trói, ain­da que ape­nas por algu­mas sema­nas, a más­ca­ra de civi­li­da­de de Olga — que ela dese­ja ver não como o ade­re­ço frá­gil que é, mas como um tra­ço con­sis­ten­te de per­so­na­li­da­de. O rom­pi­men­to das bar­rei­ras fran­queia o aces­so a um arse­nal antes inex­plo­ra­do. Num ins­tan­te a lin­gua­gem diplo­má­ti­ca, sem­pre pron­ta a medi­ar e agra­dar, é subs­ti­tuí­da pela lin­gua­gem feri­na e obs­ce­na. Ao uti­li­zá-la, Olga abre mão do dis­tan­ci­a­men­to e, em con­sequên­cia, de qual­quer garan­tia de pru­dên­cia, dis­cri­ção e auto­pre­ser­va­ção. Quando se dei­xa levar pela obses­são de ima­gi­nar o ato sexu­al de Mario e Carla, a nar­ra­do­ra se ser­ve de um voca­bu­lá­rio que refor­ça o cená­rio hipo­té­ti­co que para ela é dolo­ro­so.

Como é comum a todo rela­to de sepa­ra­ção, Olga tam­bém se per­gun­ta ao lado de quem viveu por quin­ze anos. Chega à con­clu­são de que não sabe quem é Mario. “Não sabe­mos nada das pes­so­as, nem mes­mo daque­las com quem par­ti­lha­mos tudo.” Segundo a nar­ra­do­ra, somos o ins­tan­te, ape­nas “vibra­ção das cor­das vocais”, e por isso mes­mo as pala­vras são enga­no­sas. Quando encon­tra a lin­gua­gem ajus­ta­da ao colap­so — chu­la, agres­si­va, dire­ta —, Olga a uti­li­za até esgo­tá-la, e em segui­da a aban­do­na como uma rou­pa que não ser­ve mais. Mas será que todo mun­do é tão osci­lan­te quan­to ela? Seria pos­sí­vel mol­dar a lin­gua­gem à oca­sião? Seria pos­sí­vel usar a lin­gua­gem como escu­do?

Como obser­va Olga, “para con­tar é neces­sá­rio, antes de qual­quer coi­sa, tomar dis­tân­cia”. Por esse moti­vo a nar­ra­do­ra, em alguns dos momen­tos mais ten­sos do rela­to, tran­si­ta com flui­dez da pri­mei­ra para a ter­cei­ra pes­soa. Aqui Olga come­ça a dri­blar algu­mas ver­da­des incô­mo­das, sem ir até o fim no auto­en­fren­ta­men­to. Ela tira a ven­da. E tor­na a colo­cá-la. Olga avan­ça aos tran­cos, tiran­do con­clu­sões efê­me­ras, não raro equi­vo­ca­das, e dedi­can­do aos filhos e ao cão a pou­ca aten­ção de que dis­põe.

Eis que tudo se enca­mi­nha para uma ten­são insu­por­tá­vel. Uma vez des­fei­ta, acre­di­ta­mos que tra­rá a reso­lu­ção espe­ra­da. É uma manhã quen­te de agos­to. Na noi­te ante­ri­or, Olga e o vizi­nho músi­co, Carrano, fize­ram ou ten­ta­ram fazer sexo — uma expe­ri­ên­cia que ela não pre­ten­de repe­tir. Está cla­ro que Olga che­gou ao limi­te da dor. Ao mes­mo tem­po em que é refém dos pró­pri­os pen­sa­men­tos obses­si­vos, Olga tam­bém per­ma­ne­ce tran­ca­da, com os filhos e o cachor­ro, no apar­ta­men­to. As novas fecha­du­ras da por­ta da fren­te não cedem.

As coi­sas saem rapi­da­men­te do con­tro­le. Gianni, o filho, tem febre alta. Otto, o cachor­ro, que tal­vez tenha inge­ri­do estric­ni­na, ago­ni­za. É deses­pe­ra­dor obser­var a nar­ra­do­ra, osci­lan­te, ten­tan­do man­ter algum con­ta­to com o que se pas­sa ao redor. É tudo em vão. Depois de uma ago­nia que tal­vez pudes­se ser rever­ti­da ou abre­vi­a­da, mas que aca­ba pro­lon­ga­da pela fal­ta de cui­da­dos, o cachor­ro mor­re nos bra­ços de Olga. Quando vem, a reso­lu­ção pare­ce apres­sa­da, e a neces­sá­ria catar­se da pro­ta­go­nis­ta soa insu­fi­ci­en­te ou incon­clu­si­va. Seria uma falha na nar­ra­ti­va de Ferrante ou uma con­fis­são de que o colap­so e a recu­pe­ra­ção nem sem­pre seguem uma lógi­ca pos­sí­vel de ser ras­tre­a­da e rela­ta­da?

A mor­te de Otto não ame­a­ça ati­rar Olga nova­men­te no abis­mo da angús­tia e da dor, mas a liber­ta. A cul­pa que Olga afir­ma sen­tir é apla­ca­da pela ideia recon­for­tan­te, ain­da que infan­til, de que o fan­tas­ma do ani­mal con­ti­nua vagan­do por ali. É um bom exem­plo do que ten­de a pas­sar des­per­ce­bi­do na escri­ta de Ferrante. A obses­são por ima­gi­nar o cão mor­to cor­ren­do pelo apar­ta­men­to seria uma espé­cie de deva­neio em que não se deve pres­tar aten­ção ou reve­la­ria algo mais inqui­e­tan­te sobre a per­so­na­li­da­de da nar­ra­do­ra?

Mais do que bus­car a con­fir­ma­ção da cul­pa, Olga bus­ca ser con­for­ta­da e con­so­la­da. Para ela, Otto é ape­nas uma coi­sa, um obje­to entre tan­tos, um ele­men­to de cená­rio, um saco de pan­ca­das, um cata­li­sa­dor. Por mai­or que seja a impor­tân­cia do cão no anda­men­to da tra­ma, é uma impor­tân­cia mais pró­xi­ma de um uten­sí­lio do que de um per­so­na­gem secun­dá­rio. Olga ten­ta expres­sar o con­trá­rio, mas não con­ven­ce.

Numa cena estra­nha, Olga, usan­do a colei­ra do cachor­ro, para em fren­te ao espe­lho e ame­a­ça desa­bar. É quan­do a empa­tia se mani­fes­ta, ain­da que por pou­cos segun­dos. Nesse momen­to Otto, já mor­to, pas­sa a adqui­rir algu­ma rea­li­da­de para a nar­ra­do­ra. Por mais que Olga se apro­xi­me de um punha­do de ver­da­des ao lon­go do perío­do em que ten­ta assi­mi­lar o aban­do­no, nem sem­pre é capaz de olhar de fren­te para aqui­lo que a cer­ca. Mas ali está ela, com a colei­ra de Otto em vol­ta do pes­co­ço, pres­tes, por um milé­si­mo de segun­do, a ter outro colap­so.

Seja quem for Elena Ferrante, sabe­mos que seu conhe­ci­men­to dos clás­si­cos, em espe­ci­al da tra­gé­dia gre­ga, é bas­tan­te amplo. Assim, não pare­cem casu­ais os para­le­los entre seu peque­no e a Hécuba de Eurípides. Como Olga, Hécuba acre­di­ta­va que era pos­sí­vel man­ter a fibra moral mes­mo em situ­a­ções adver­sas. Quando per­de os dois filhos, porém, a troi­a­na sucum­be. O rival Poliméstor pre­vê que ela se trans­for­ma­rá em um cão.

À medi­da que a tra­gé­dia de Eurípedes avan­ça, con­cre­ti­za-se aqui­lo que a filó­so­fa nor­te-ame­ri­ca­na Martha C. Nussbaum cha­ma de “o declí­nio de Hécuba”. Em A fra­gi­li­da­de da bon­da­de, Nussbaum comen­ta “a admis­são de Hécuba de que nos­sos valo­res cen­trais são sim­ples­men­te huma­nos e, no inte­ri­or do mun­do huma­no, soci­ais”, o que a dei­xa “em uma posi­ção vul­ne­rá­vel”. Essa ideia de tran­si­to­ri­e­da­de, que no fun­do é o temor da pre­ca­ri­e­da­de — de novo: devir, tran­si­tó­rio, con­tin­gen­te —, é a cha­ve de Dias de aban­do­no.

As últi­mas pági­nas são as mais reve­la­do­ras do livro. É fácil acre­di­tar que se está dian­te de uma comé­dia român­ti­ca quan­do não se conhe­ce a escri­ta de Ferrante. Olga acei­ta acom­pa­nhar uma ami­ga a um con­cer­to. Ali des­co­bre que Carrano, o vizi­nho, é um dos inte­gran­tes da orques­tra. Só naque­le momen­to ele lhe pare­ce atra­en­te. Olga não gos­ta de Carrano pela gen­ti­le­za que demons­tra, mas pela “osci­la­ção entre a figu­ra do homem tris­te e sem cores e aque­le vir­tu­o­so exe­cu­tor de sons lumi­no­sos”. Muito mais do que a osci­la­ção em si, o impor­tan­te é ter um polo que per­mi­ta essa osci­la­ção. Sem esse ver­niz de suces­so, Carrano não sig­ni­fi­ca nada para Olga. Até esse pon­to, a nar­ra­do­ra não escon­de nem de Carrano e nem do lei­tor que o vê como um fra­cas­sa­do.

Recuperada, resol­ve dar uma chan­ce ao vizi­nho. Sobre o colap­so, con­fes­sa a Carrano que “não havia pro­fun­di­da­de” naqui­lo. E não havia, ou não exa­ta­men­te. Porque assim é Olga: até o mer­gu­lho em si mes­ma tem um limi­te e um pra­zo de vali­da­de. Por isso o final ganha uma res­so­nân­cia inqui­e­tan­te. Olga agra­de­ce à capa­ci­da­de de Carrano de “inven­tar um sen­ti­men­to de ple­ni­tu­de e ale­gria” para os dois. E, como admi­te em segui­da, fin­ge acre­di­tar na fic­ção do vizi­nho. Um arre­ma­te per­fei­to para algo que vinha se deli­ne­an­do há algum tem­po — uma ima­tu­ri­da­de e uma fra­gi­li­da­de que, antes que pos­sam dar lugar à outra coi­sa, ter­mi­nam refor­ça­das. Olga se casa com Mario sem saber ao cer­to com quem irá viver, e tal­vez, suge­re Ferrante, pos­sa fazer o mes­mo com Carrano.

A tran­si­to­ri­e­da­de que ser­ve de ruí­do de fun­do para Dias de aban­do­no, e que de iní­cio pare­ce a tran­si­to­ri­e­da­de de Olga em bus­ca de si mes­ma — da debi­li­da­de aní­mi­ca rumo a algo mais con­cre­to —, atin­ge seu pon­to cul­mi­nan­te. O que se deli­neia, porém, é a tran­si­to­ri­e­da­de das rela­ções afe­ti­vas. Para Olga, que dese­ja ser escri­to­ra mas não acre­di­ta no poder das pala­vras, que con­se­gue ajus­tar a lin­gua­gem à situ­a­ção, que não con­fia que os vín­cu­los pos­sam ser mais do que tem­po­rá­ri­os e banais, tudo con­ti­nu­a­rá a ser ape­nas vibra­ção das cor­das vocais. Não há com­pro­mis­sos vitais. Não há nada fixo. Do ex-mari­do ao cão, não enxer­ga o outro para poder dar a ele algu­ma mate­ri­a­li­da­de e algu­ma per­ma­nên­cia.

Detalhe da capa da edição brasileira do livroDivulgação

Detalhe da capa da edi­ção bra­si­lei­ra do livro

Tentei encon­trar e remo­ver, das sub­ca­ma­das mais pro­fun­das da escri­ta de Ferrante, alguns sen­ti­dos que podem ter sido dei­xa­dos ali de pro­pó­si­to, mas que com a lei­tu­ra rápi­da ten­dem a pas­sar des­per­ce­bi­dos. O que tal­vez sin­ta o lei­tor de Elena Ferrante, e que pode estar na raiz do levan­te con­tra o jor­na­lis­ta que inves­ti­gou as con­tas ban­cá­ri­as de Anita Raja, é que o mis­té­rio mai­or é aque­le de sua escri­ta. Este tex­to não dei­xa, por­tan­to, de ser uma peque­na home­na­gem ao gênio de Ferrante, cujo mis­té­rio está ao alcan­ce dos lei­to­res em qual­quer livra­ria que se pre­ze, des­de que se dê a ele o tem­po, a paci­ên­cia e a gene­ro­si­da­de que mere­ce.

No mais, é pre­ci­so dizer algu­mas pala­vras sobre a polê­mi­ca dos últi­mos dias. Acreditar que a iden­ti­da­de da auto­ra per­ma­ne­ce­ria ocul­ta é ingê­nuo. Uma inge­nui­da­de que se apro­xi­ma, aliás, mais da pir­ra­ça mima­da do que da pure­za, e por isso não cola.

É pos­sí­vel argu­men­tar con­tra o pro­ce­di­men­to, con­tra as pró­pri­as jus­ti­fi­ca­ti­vas tor­tas com que o jor­na­lis­ta defen­deu a inves­ti­ga­ção, mas não con­tra a curi­o­si­da­de, o sen­sa­ci­o­na­lis­mo e a lógi­ca do espe­tá­cu­lo da qual a bus­ca pare­ce par­tir. Tudo isso é uma rea­li­da­de incon­tor­ná­vel, só tenho dúvi­das quan­to a Ferrante ter tido von­ta­de de esca­par des­sa rea­li­da­de. O que ela diz nas entre­vis­tas é uma coi­sa; o pró­prio fato de dar entre­vis­tas diz outra. Vejo em Ferrante alguém bri­lhan­te que jogou habil­men­te o jogo.

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