Martin Scorsese em 1975

Martin Scorsese em 1975

Travis, eleitor de Trump

No cinema

02.06.17

Martin Scorsese rea­li­zou obras mar­can­tes em vári­os gêne­ros, do dra­ma de épo­ca à relei­tu­ra bíbli­ca, da comé­dia sur­re­a­lis­ta ao thril­ler, do musi­cal ao fil­me de gângs­te­res. Mas fica­rá na his­tó­ria do cine­ma sobre­tu­do por duas obras-pri­mas incon­tor­ná­veis: Taxi Driver (1976) e Touro indo­má­vel (1980), ambos pro­ta­go­ni­za­dos por Robert De Niro.

Taxi Driver, que vol­ta aos cine­mas bra­si­lei­ros em “cópia nova” (expres­são que é um para­do­xo em tem­pos de pro­je­ção digi­tal), não per­deu nem um pou­co do fres­cor e da con­tun­dên­cia. Pelo con­trá­rio, a saga suja do taxis­ta soli­tá­rio que se arvo­ra em anjo exter­mi­na­dor para “lim­par a sujei­ra do mun­do” pare­ce hoje ain­da mais atu­al do que na épo­ca em que sur­giu.

Conjunção de talen­tos

Foi um des­ses casos da his­tó­ria do cine­ma em que tudo pare­ce ter-se encai­xa­do à per­fei­ção: do rotei­ro de Paul Schrader (o pri­mei­ro de uma pro­fí­cua par­ce­ria com o dire­tor) à sur­pre­en­den­te esca­la­ção da atriz-mirim Jodie Foster como pros­ti­tu­ta, da foto­gra­fia “quen­te” de Michael Chapman à músi­ca envol­ven­te de Bernard Herrmann (a últi­ma que compôs), da ambi­en­ta­ção notur­na numa Nova York infer­nal à sober­ba atu­a­ção de De Niro.

Como em qua­se todo gran­de fil­me, entre­la­çam-se nele vári­as dimen­sões: a psi­co­ló­gi­ca, a polí­ti­ca, a soci­al, a moral e, em últi­ma ins­tân­cia, a espi­ri­tu­al. Uma visão de mun­do e, ao mes­mo tem­po, uma visão de cine­ma.

É curi­o­so que essa ambí­gua e inqui­e­tan­te pará­bo­la tenha resul­ta­do da par­ce­ria entre dois homens mar­ca­dos por uma pro­fun­da for­ma­ção reli­gi­o­sa: o cal­vi­nis­ta Schrader e o cató­li­co Scorsese. Desde as ima­gens dos cré­di­tos de aber­tu­ra – um táxi ama­re­lo emer­gin­do len­ta­men­te da bru­ma e das tre­vas – sabe­mos que o dra­ma que acom­pa­nha­re­mos se desen­ro­la­rá ao mes­mo tem­po numa cida­de mui­to con­cre­ta – a Nova York dos anos 1970 – e num outro ter­ri­tó­rio, que pode ser cha­ma­do de meta­fí­si­co, moral ou espi­ri­tu­al.

Como em vári­os fil­mes de Scorsese, tra­ta-se de uma des­ci­da aos infer­nos segui­da de uma reden­ção irô­ni­ca e duvi­do­sa. No caso, sem que­rer estra­gar sur­pre­sas (afi­nal, a obra tem 41 anos de ida­de), a que­da é de um jovem ex-fuzi­lei­ro naval, Travis Bickle (De Niro), que não con­se­gue dor­mir e, por isso, empre­ga-se como taxis­ta no perío­do notur­no. Ignorante, sem pers­pec­ti­vas, movi­do por con­fu­sos con­cei­tos patrió­ti­cos e reli­gi­o­sos, ele se eno­ja com a “escó­ria” que povoa as ruas nova-ior­qui­nas, apai­xo­na-se por uma asses­so­ra de sena­dor (Cybill Shepherd), ten­ta sal­var uma nin­fe­ta da pros­ti­tui­ção e das dro­gas.

Profético

Visto retros­pec­ti­va­men­te com os olhos de hoje, Taxi Driver impres­si­o­na por sua qua­li­da­de pro­fé­ti­ca, por ter detec­ta­do em seu con­tex­to his­tó­ri­co pul­sões e neu­ro­ses que só fari­am cres­cer nas déca­das seguin­tes: a ali­e­na­ção do indi­ví­duo urba­no bom­bar­de­a­do por men­sa­gens polí­ti­co-publi­ci­tá­ri­as; o ape­lo fácil do mora­lis­mo repres­sor, da xeno­fo­bia, do racis­mo; a ten­ta­ção da jus­ti­ça com as pró­pri­as mãos, ou antes, com as pró­pri­as armas; o cul­to às cele­bri­da­des, sejam polí­ti­cos, espor­tis­tas ou assas­si­nos psi­co­pa­tas.

O mais inte­res­san­te é que não é um fil­me per­fei­to, no sen­ti­do de obra pre­ci­sa, “redon­da”, sem dese­qui­lí­bri­os ou pon­tos sem nó. Há uma deli­be­ra­da “sujei­ra” na incor­po­ra­ção de ele­men­tos casu­ais da vida urba­na, e um desa­jus­te esté­ti­co fla­gran­te entre as cenas diur­nas e as notur­nas. O pró­prio Scorsese, em entre­vis­tas pos­te­ri­o­res, reco­nhe­ceu como dis­cu­tí­vel a opção de aban­do­nar em alguns momen­tos o pon­to de vis­ta do pro­ta­go­nis­ta – por exem­plo, numa con­ver­sa entre fun­ci­o­ná­ri­os do comi­tê de cam­pa­nha do sena­dor, ou no diá­lo­go ínti­mo entre a pros­ti­tu­ta mirim e seu cafe­tão (Harvey Keitel).

O dire­tor apa­re­ce em cena duas vezes: a pri­mei­ra numa bre­ve cameo appe­a­ran­ce à manei­ra de Hitchcock, como um cabe­lu­do meio hip­pie na  cal­ça­da por onde pas­sa, vapo­ro­sa, a per­so­na­gem de Cybill Shepherd; na segun­da, ele é o pas­sa­gei­ro engra­va­ta­do que vai de táxi até o pré­dio onde sua espo­sa está com o aman­te negro. Esta últi­ma par­ti­ci­pa­ção – que se cho­ca com a pri­mei­ra – foi uma solu­ção de últi­ma hora, pois o ator esca­la­do teve pro­ble­mas de saú­de e o pró­prio Scorsese pre­ci­sou subs­ti­tuí-lo. Sua atu­a­ção é pas­sá­vel.

Chama a aten­ção tam­bém, a par da atu­a­li­da­de do tema e da abor­da­gem, a inven­ti­vi­da­de de cer­tas solu­ções de mise-en-scè­ne e cons­tru­ção visu­al, como na sequên­cia em que Travis che­ga à gara­gem de táxis e a câme­ra se afas­ta dele, num giro de 180 graus pelo ambi­en­te, para depois reen­con­trá-lo em outro pon­to. Em vári­as outras pas­sa­gens há esse movi­men­to de afas­ta­men­to e apro­xi­ma­ção ao pro­ta­go­nis­ta, cons­truin­do uma espé­cie de “dis­cur­so indi­re­to livre” aná­lo­go ao da lite­ra­tu­ra. Nesse aspec­to, tal­vez a nar­ra­ção em off por Travis seja uma redun­dân­cia des­ne­ces­sá­ria, uma mule­ta dis­pen­sá­vel – ape­sar do suges­ti­vo tom de fil­me noir que ela intro­duz.

Sequências anto­ló­gi­cas

Algumas sequên­ci­as fica­ram céle­bres: Travis falan­do sozi­nho dian­te do espe­lho (“Are you tal­king to me?”), o banho de san­gue final nas esca­das e cor­re­do­res de um hotel sór­di­do e mal ilu­mi­na­do, o len­to pla­no em câme­ra alta, ver­ti­cal, reve­lan­do o que res­tou da apo­te­o­se de vio­lên­cia.

Se em sua épo­ca o fil­me rece­beu lei­tu­ras apres­sa­das e bur­ras, que viam seu pro­ta­go­nis­ta como um herói vin­ga­dor da estir­pe de Dirty Harry ou do Charles Bronson de Desejo de matar, hoje fica mais cla­ra a visão ao mes­mo tem­po crí­ti­ca e com­pas­si­va da dupla Schrader/Scorsese: com­pai­xão pelo per­so­na­gem em sua soli­dão e ali­e­na­ção, crí­ti­ca inci­si­va à soci­e­da­de que pro­du­ziu – e con­ti­nua pro­du­zin­do – imbe­cis peri­go­sos como ele. Se Travis Bicker vives­se hoje, cer­ta­men­te seria elei­tor de Donald Trump – ou de Jair Bolsonaro.

, , , , , , , , , , ,