Vida louca, morte besta

Curumim, de Marcos Prado, é um registro impressionante da autodestruição de um homem, Marco Archer Cardoso Moreira, fuzilado em 2015 por tráfico de drogas na Indonésia depois de onze anos no “corredor da morte”. Em 2012, quando ainda fazia os últimos apelos na esperança de anular ou comutar a sentença, Curumim resolveu documentar seu cotidiano numa prisão de segurança máxima em que dividia a cela com terroristas da Al Qaeda e outros traficantes. Mandava os vídeos pela internet ao diretor, que teve também acesso a um vasto material de arquivo da família e de amigos do personagem.

Breve ensaio sobre a delicadeza

Ao assistir Anri Sala: o momento presente, mostra em cartaz no IMS-RJ até o dia 20 de novembro, Felipe Scovino se deparou “com uma circunstância cada vez menos exercida no cotidiano, mas que encontra uma força indelével em muitas obras de artistas visuais: a delicadeza”. Ela aparece na mostra sob as mais distintas configurações, e estabelece relações com três artistas brasileiros que têm a suavidade, a delicadeza e a sutileza como leitmotiv de seus trabalhos. São eles: Brígida Baltar, Cao Guimarães e Thiago Rocha Pitta.

Trigo e joio na Mostra

Na reta final da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cabe separar o trigo do joio para não perder tempo nem oportunidades. Os comentários a seguir não são críticas, mas impressões provisórias e precárias. Voltaremos oportunamente e com mais detença a algumas dessas obras.

O começo do fim

Não é simples atingir aquele ponto em que não há mais retorno, é o que costumo elucubrar em minha condição de quase cinquentão; Seconds (no Brasil, O segundo rosto), de John Frankenheimer, chegou aos cinquenta anos em outubro de 2016. Parece prudente, portanto, verificar como reage à passagem do tempo um filme que aborda justamente a crise de meia-idade masculina diante das possibilidades abertas pela contracultura norte-americana de finais dos anos 1960. Por tabela, reflito sobre como no meio do caminho desta vida me vi perdido. É o ponto a ser alcançado, segundo o aforismo de Kafka, mas o que acontece a partir dele, quando se está solitário, sem sol e sem saída?

Paterson, Pitanga e poéticas

No oceano de filmes da Mostra de São Paulo, muita gente escolhe o que vai ver com base nas sinopses divulgadas na imprensa ou no catálogo da própria mostra. Nesse contexto uma obra como Paterson, de Jim Jarmusch, tende a ficar em segundo plano, mas é uma pequena joia escondida em meio ao brilho falso de bijuterias mais vistosas. Igualmente revigorante, mas por motivos quase opostos, é Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. Não se trata propriamente de um documentário sobre, mas sim com Antonio Pitanga. 

Ferrez e Andujar no Prêmio Jabuti

Dois livros publicados pelo Instituto Moreira Salles estão entre os finalistas da 58ª edição do tradicional Prêmio Jabuti, concedido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro. Tanto Rio, de Marc Ferrez, como Claudia Andujar – No lugar do outro, figuram entre os dez títulos selecionados pelos jurados na categoria Arquitetura, Urbanismo, Artes e Fotografia. Os três vencedores (primeiro, segundo e terceiro lugares) em cada uma das 27 categorias serão conhecidos dia 11 de novembro.

O que se vê, o que se ouve

Construída a partir de sons e imagens que se relacionam em várias camadas de significados – políticos, históricos, pessoais – nem sempre fáceis de serem compreendidos de imediato, a obra do artista albanês Anri Sala pede ao público que “ouça o canto das sereias” e faça um movimento real de aproximação, caso queira de fato usufruí-la. A observação foi feita por André Parente, artista e teórico do cinema e novas mídias, que no dia 15 de outubro participou do projeto Conversas na Galeria, coordenado pelo setor educativo do Instituto Moreira Salles.  Na palestra, Parente discorreu sobre a obra do artista a partir de alguns dos trabalhos que integram a exposição Anri Sala: o momento presente, em cartaz no IMS-RJ até dia 20 de novembro.

Fantasma na máquina

“Quando finalmente olhei para dentro de mim e descobri o que eu queria dizer desde o início – que Blackwell é uma história sobre isolamento urbano – os games melhoraram muito”. Um perfil de David Gilbert, da Wadjet Eye, produtor e autor de games independentes celebrados pelos temas inusitados e pela qualidade da narrativa, como The shivah e a série Blackwell.

Vinicius sem filtro

Durante boa parte do ano de 1979 o poeta, jornalista, diplomata e compositor Vinicius de Moraes foi filmado pela filha Susana, quase sempre em casa, em momentos de conversa solta e trivial com amigos e filhos, cantando, bebendo, dormindo. Aos poucos ela foi montando um retrato terno e sem artifícios do pai, transformado em Vinicius de Moraes, um rapaz de família, documentário de 30 minutos que só seria finalizado pela diretora em 1983, três anos depois da morte do músico. Na quarta-feira, dia 19/10, às 19h30, o IMS lança, no Rio de Janeiro, o DVD restaurado e masterizado digitalmente, um antigo sonho de Susana Moraes, que iniciou todo o processo em 2014 e morreu em janeiro de 2015, antes de vê-lo pronto.