“Tudo que eu faço é bom”

No último dia 30 de julho, como parte da série Conversas na Galeria, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro recebeu o desenhista, arquiteto e designer Claudius Ceccon para uma conversa com o caricaturista Cássio Loredano sobre Millôr Fernandes. Assista ao bate-papo na íntegra.

O diabo entre nós

Quando se fala em “aclimatar” gêneros consagrados às condições brasileiras, pensa-se logo em elementos de “cor local” (paisagem, humor paródico, signos da nossa cultura). Aqui entra uma das grandes sacadas dos realizadores de O diabo mora aqui. O que pode haver de mais profundamente brasileiro que a herança da escravidão, da opressão e dos desmandos de uma oligarquia impiedosa? E é isso o que essa trama de terror concentrada numa única noite e vivida por poucos personagens traz à tona com uma força desconcertante.

Arquitetura de ruas e sonhos

De um lado, a arquitetura urbana, concreta, revelada em conjuntos de casas, fábricas, detalhes de fachadas e interiores. De outro, a arquitetura de sonhos que ganham forma em delicadas vitrines, tecidos e rendas de vestidos de casamento. Em comum, o olhar aguçado da fotógrafa Dulce Soares sobre duas áreas de São Paulo.

Quem conta a guerra são as mulheres

Para fazer o luto é preciso falar do luto, o que no caso dos mortos pela polícia, como no caso dos jovens de Costa Barros, implica também denunciar a violência do Estado. Entre os anos 2001 e 2011, o Rio de Janeiro registrou cerca de dez mil mortes em confronto com a polícia fluminense, conforme levantamento da OAB/RJ, muito bem nomeado de “Desaparecidos da democracia”. Sabemos que na Argentina são as Mães da Praça de Maio as mulheres que contam a guerra das ditaduras militares contra seus filhos. Sabemos que no Brasil foram as mulheres que lutaram pela Lei da Anistia, a fim de trazer de volta ao país seus maridos e filhos.

Sem lenço, sem documento

“Tudo que podia ser feito daqui foi feito. Tudo que podia ser feito nos Estados Unidos foi feito. E tudo foi inútil, pelo menos até agora”. É assim que um desolado Augusto Boal comunica à mãe, Dona Albertina, em carta de abril de 1973, os esforços feitos para conseguir, em Buenos Aires, a renovação de seu passaporte.  Logo depois o dramaturgo teve o documento concedido, mas dois anos adiante a história seria muito diferente.  Exilado na capital argentina desde 1971 com a mulher, Cecilia, e os filhos Fabian e Julian, em 1975, com o passaporte novamente expirado, Boal tentava em vão conseguir sua revalidação.

Tudo sobre sua mãe

O tema da maternidade, que de uma forma ou de outra atravessa toda a filmografia de Anna Muylaert, ganha centralidade em seus dois longas-metragens mais recentes. Se no filme anterior, Que horas ela volta? (2015), o ângulo de abordagem iluminava a estrutura social de dominação e suas transformações, em Mãe só há uma o foco é a identidade de gênero e orientação sexual. Trata-se ainda de uma opressão, mas de outra ordem.

Distopia da distopia

“É irônico que as ficções científicas fiquem tão datadas, por mais proféticas que sejam. Todo filme de ficção científica está de certa forma condenado a uma representação paroxística do seu tempo, ou seja, a fazer uma estilização do passado que só o espectador do futuro será capaz de ver”, diz Bernardo Carvalho. “Fassbinder parecia ter consciência dessa sina e jogar com ela ao conceber um futuro deliberadamente retrô e ultrapassado para caracterizar o mundo virtual criado pela grande corporação em O mundo por um fio. É um mundo povoado por “unidades identitárias”, homens e mulheres aos quais não ocorre que sejam meras criações de computador.”

Grande sertão: veredas sessentão

Grande sertão: veredas, romance de Guimarães Rosa, está completando sessenta anos. Em junho, o Clube de Leitura do IMS leu a obra sob orientação do professor Eduardo Coutinho. Em palestra disponível em áudio integral e apresentada aqui por Elvia Bezerra, coordenadora de internet do IMS, o professor ressalta a tríplice travessia que se percorre no livro.

Editora Ana C.

Além da prática constante da escrita na infância, Ana Cristina Cesar encarou e encarnou igualmente dos 10 aos 14 anos de idade o papel de editora, num interesse que culminou na criação da fictícia editora Problemas Universais, marcada também como Prouni em seus manuscritos.

Babenco, homem fora de lugar

Hector Babenco, morto esta semana, foi um artista marcado, se não pela contradição, ao menos pela ambiguidade. Disso extraiu sua força e sua originalidade. Meio argentino, meio brasileiro, realizou um cinema com um pé no desejo de expressão pessoal e outro na busca de comunicação com um público amplo. Para José Geraldo Couto, talvez o que unifique sua obra seja a impressão de alguém buscando seu lugar num ambiente hostil ou, no mínimo, inóspito.