Zanone Fraissat

A escritora Conceição Evaristo

Zanone Fraissat

A escritora Conceição Evaristo

Ainda está pouco

Literatura

24.07.17

Quando, há dez anos, conhe­ci a escri­to­ra Conceição Evaristo numa con­fe­rên­cia na UFSC, ela me sur­pre­en­deu em mui­tos aspec­tos. O prin­ci­pal, que hou­ves­se uma auto­ra de tan­tas obras publi­ca­das, com tama­nha den­si­da­de, sem nenhum reco­nhe­ci­men­to públi­co. Poucas sema­nas depois da pales­tra em Florianópolis esti­ve no seu apar­ta­men­to, no bair­ro cari­o­ca do Rio Comprido, para uma entre­vis­ta. No espa­ço de tem­po entre os dois encon­tros, des­co­bri que par­te do seu ano­ni­ma­to dizia res­pei­to ao fato de que a crí­ti­ca não a con­si­de­ra­va uma auto­ra de talen­to, mas alguém cuja obra era elo­gi­a­da ape­nas em fun­ção de ser iden­ti­fi­ca­da com a mili­tân­cia no movi­men­to negro.

De fato, a sep­tu­a­ge­ná­ria que será uma das estre­las des­ta edi­ção da Flip é negra, apren­deu a ler para con­fe­rir o rol de rou­pas lava­das pela mãe, na Belo Horizonte dos anos 1950, e tem seus livros publi­ca­dos pela Mazza, edi­to­ra enga­ja­da na lite­ra­tu­ra de auto­res e auto­ras negras. Parte de sua obra foi lan­ça­da nos Cadernos Negros, tam­bém dedi­ca­dos a dar visi­bi­li­da­de à pro­du­ção afro­li­te­rá­ria. Após todos os desa­fi­os que enfren­tou na vida – des­de esca­par do des­ti­no de empre­ga­da domés­ti­ca até defen­der um dou­to­ra­do em Letras na UFF, em 2011, foram mui­tos – ,  Conceição Evaristo esta­rá dian­te de imen­sos dile­mas em Paraty. A mulher de zela­dor, que escre­veu Becos da memó­ria em 1988, enca­ra o impas­se enfren­ta­do pelas lutas iden­ti­tá­ri­as: ser reco­nhe­ci­da como uma gran­de escri­to­ra negra, e com isso ficar con­fi­na­da à mar­ca­ção de negri­tu­de, ou ser rece­bi­da como uma gran­de escri­to­ra, e com isso enfra­que­cer sua posi­ção de mulher negra.

Na segun­da edi­ção da Flip, a espa­nho­la Rosa Montero foi con­vi­da­da a inte­grar uma mesa sobre lite­ra­tu­ra femi­ni­na, pen­sa­da como uma home­na­gem a gran­des escri­to­ras mulhe­res. Rosa acei­tou o con­vi­te e atra­ves­sou o Atlântico para negar sua posi­ção de escri­to­ra de “lite­ra­tu­ra femi­ni­na”. Aspirar o lugar uni­ver­sal – e assim esca­par da limi­ta­ção iden­ti­tá­ria – é um desa­fio que acom­pa­nha os movi­men­tos femi­nis­tas pelo menos des­de a França revo­lu­ci­o­ná­ria do sécu­lo XVIII. O impas­se entre par­ti­cu­lar e uni­ver­sal, ou sobre quem tem direi­to a ingres­sar na cate­go­ria uni­ver­sal, por­tan­to, não é exclu­si­vi­da­de de Conceição Evaristo.

Segundo a cura­do­ra da 15a edi­ção da Flip, Josélia Aguiar, a pro­gra­ma­ção des­te ano aten­de a deman­das de movi­men­tos de mulhe­res e de movi­men­tos negros, embo­ra já esti­ves­se sen­do con­ce­bi­da com a inten­ção de reti­rar da fes­ta de Paraty um cer­to cará­ter eli­tis­ta do qual é acu­sa­da des­de a pri­mei­ra edi­ção. Num país de 200 milhões de habi­tan­tes em que a ven­da total de livros em 2016 foi de 3,5 milhões de exem­pla­res, tudo que diz res­pei­to à lite­ra­tu­ra soa eli­tis­ta, o que tor­na oci­o­so o deba­te sobre o cará­ter pri­vi­le­gi­a­do da Flip, seja dos seus con­vi­da­dos, seja do públi­co. Mesmo as inú­me­ras ini­ci­a­ti­vas de popu­la­ri­zar a fes­ta lite­rá­ria – a mais impor­tan­te delas, a trans­mis­são ao vivo das mesas em Paraty e pela inter­net – sem­pre pode­rão ser acu­sa­das de insu­fi­ci­en­tes. É um pro­ble­ma ine­ren­te ao aces­so à lite­ra­tu­ra, não do aces­so à fes­ta.

Neste aspec­to, Conceição Evaristo é sím­bo­lo de todas as difi­cul­da­des que o mer­ca­do edi­to­ri­al ofe­re­ce. Seu pri­mei­ro roman­ce, Ponciá Vicêncio, saiu em 2003 da gave­ta onde dor­miu por mui­tos anos por­que a escri­to­ra jun­tou suas eco­no­mi­as para fazer a pri­mei­ra edi­ção. E o mer­ca­do edi­to­ri­al, embo­ra não ofe­re­ça espa­ço para auto­res que não reco­nhe­ce, tam­pou­co per­doa os que se auto­pu­bli­cam. Há dez anos, quan­do nos conhe­ce­mos, ela tinha orgu­lho da sua bibli­o­te­ca – aco­mo­da­da no quar­to de empre­ga­da do apar­ta­men­to onde mora­va – e da sua tra­je­tó­ria, que então incluía dois roman­ces e dois livros de poe­sia. Felizmente, ape­sar de todas as suas vitó­ri­as, Conceição Evaristo ter­mi­nou a nos­sa con­ver­sa de dez anos atrás me dizen­do “ain­da está pou­co”. Por mais que se faça para reco­nhe­cê-la, sem­pre será pou­co para repa­rar todo o racis­mo, o machis­mo e a dis­cri­mi­na­ção sofri­das pelas mulhe­res negras nes­te país.

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