Encontro de olhares

No cinema

14.07.16

Consulte aqui os dias e horá­ri­os das ses­sões espe­ci­ais de Improvável Encontro, que acon­te­ce­rão nos finais de sema­na de 16 a 31/7 no cine­ma do IMS-RJ.

 

A pala­vra “foto­gra­fia”, eti­mo­lo­gi­ca­men­te, sig­ni­fi­ca “escri­ta da luz”. Com seu ins­tru­men­to de cap­ta­ção, con­tro­le e mani­pu­la­ção da luz – a câme­ra –, os gran­des fotó­gra­fos escre­vem repor­ta­gens, poe­mas, comé­di­as, epo­pei­as. É o caso de José Medeiros (1921–1990) e Thomaz Farkas (1924–2011), dois gigan­tes da foto­gra­fia bra­si­lei­ra retra­ta­dos no cur­ta-metra­gem Improvável encon­tro – fren­te e ver­so, de Lauro Escorel, que o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro exi­be em pri­mei­ra mão a par­tir de sába­do, 16 de julho.

O foco do docu­men­tá­rio é a calo­ro­sa ami­za­de entre os dois fotó­gra­fos, sua admi­ra­ção recí­pro­ca, sua rica tro­ca de influên­ci­as. O “impro­vá­vel” do títu­lo expli­ca-se pelas ori­gens e tra­je­tó­ri­as tão dis­tin­tas, qua­se opos­tas, dos retra­ta­dos.

Medeiros, nas­ci­do em Teresina, sociá­vel e fol­ga­zão, come­çou foto­gra­fan­do famí­li­as e casais nas pra­ças de sua cida­de, pas­sou pelo foto­jor­na­lis­mo e alcan­çou o apo­geu ain­da mui­to jovem ao inte­grar a equi­pe de fotó­gra­fos da revis­ta O Cruzeiro. Farkas, nas­ci­do em Budapeste e emi­gra­do a São Paulo ain­da na infân­cia, cres­ceu na loja de equi­pa­men­tos foto­grá­fi­cos do pai e desen­vol­veu des­de cedo seu espí­ri­to metó­di­co e a curi­o­si­da­de téc­ni­ca.

A téc­ni­ca e a vida

Simplificando um pou­co, pode­mos dizer que Farkas par­tiu de uma pre­o­cu­pa­ção mais for­mal com a geo­me­tria e a com­po­si­ção do qua­dro para uma cres­cen­te poro­si­da­de à imper­fei­ção e impre­vi­si­bi­li­da­de do real, enquan­to Medeiros, aber­to des­de sem­pre ao alvo­ro­ço da vida, foi aumen­tan­do seu domí­nio dos mei­os e cons­truin­do uma escri­ta cada vez mais pes­so­al. No meio do cami­nho, nos anos 1940, eles se encon­tra­ram e a inter­sec­ção entre suas obras enri­que­ceu a ambas.

Com admi­rá­vel rigor e con­ci­são, Lauro Escorel con­se­gue em pou­co mais de vin­te minu­tos con­tar o essen­ci­al des­sa con­fluên­cia, des­ta­can­do os gran­des tra­ba­lhos dos dois (o pri­mei­ro regis­tro do ritu­al de ini­ci­a­ção de filhas de san­to do can­dom­blé por Medeiros, a docu­men­ta­ção do dia a dia da cons­tru­ção de Brasília por Farkas etc.), seus temas comuns (o fute­bol, a Amazônia, as fes­tas popu­la­res) e, per­me­an­do tudo, a pro­fun­da ami­za­de entre dois homens que se admi­ra­vam como pro­fis­si­o­nais e se ama­vam como ami­gos.

É como­ven­te, por exem­plo, o reen­con­tro dos dois em 1985, quan­do Farkas abri­gou em sua gale­ria Fotoptica, em São Paulo, uma gran­de mos­tra das fotos de Medeiros. “Na inau­gu­ra­ção, os dois pas­sa­ram pra­ti­ca­men­te o tem­po todo abra­ça­dos”, diz o pro­fes­sor e pes­qui­sa­dor Rubens Fernandes Jr., e a infor­ma­ção é com­pro­va­da por fotos. Dois homens feli­zes, trans­bor­dan­tes de afe­to.

Outros entre­vis­ta­dos, como os fotó­gra­fos Cristiano Mascaro e Luiz Carlos Barreto, aju­dam a enten­der a impor­tân­cia e o lugar de Farkas e Medeiros no pano­ra­ma da foto­gra­fia bra­si­lei­ra.

Em pri­mei­ra pes­soa

Um dos gran­des acer­tos do cur­ta é o de usar como fio con­du­tor nar­ra­ti­vo os depoi­men­tos em pri­mei­ra pes­soa dos pró­pri­os bio­gra­fa­dos (extraí­dos de entre­vis­tas dadas por eles à impren­sa), nas vozes dos tam­bém fotó­gra­fos João Farkas (filho de Thomaz) e Carlos Ebert.

Sem que­rer come­ter aqui um spoi­ler, digo que o clí­max do fil­me é jus­ta­men­te seu final, que expõe lado a lado fotos de Medeiros e Farkas com temas e enqua­dra­men­tos comuns (cenas de rua, pai­sa­gens, cerimô­ni­as etc.), evi­den­ci­an­do ao mes­mo tem­po as con­fluên­ci­as e dife­ren­ças entre os dois gran­des artis­tas.

Lauro Escorel, ele pró­prio um dos gran­des fotó­gra­fos do cine­ma bra­si­lei­ro, exi­be nes­sa peque­na joia suas qua­li­da­des essen­ci­ais: olhar curi­o­so, rigor car­te­si­a­no, huma­nis­mo pro­fun­do, gene­ro­si­da­de ímpar.

Quadro a qua­dro

Algumas das foto­gra­fi­as de Thomaz Farkas e José Medeiros uti­li­za­das por Lauro Escorel no cur­ta-metra­gem:

magico-037.tif

José Medeiros

028JMOR010

José Medeiros

img3

José Medeiros

028JMOR042

José Medeiros

028JMOR143

José Medeiros

img6

Thomaz Farkas

P004TF0098-24

Thomaz Farkas

img8

Thomaz Farkas

P004TF0346-15 (3)

Thomaz Farkas

img10

Thomaz Farkas

Leia mais

Encontros com Avellar — Lauro Escorel rotei­ri­za seus qua­se 50 anos de con­ví­vio pro­fis­si­o­nal e afe­ti­vo com José Carlos Avellar, gran­de incen­ti­va­dor de Improvável encon­tro.

, , ,