O palhaço, o país e a busca de identidade

Dois filmes novos vistos na bela mostra Cine BH parecem não ter nada a ver um com o outro, mas dialogam entre si de modo enviesado e sutil. Estou falando de O palhaço, de Selton Mello, que abriu o evento mineiro na última quinta-feira, e de Meu país, de André Ristum, que entra em cartaz dia 7 de outubro. O filme de Selton Mello, o segundo dirigido pelo ator, é, na superfície, um road movie encantador, acompanhando um circo mambembe em sua errância pelo interior de Minas Gerais. Selton é Benjamin, o palhaço Pangaré, filho e parceiro do dono do circo, o veterano palhaço Puro-Sangue (Paulo José).

Fragmentos do luto

Leia a primeira carta da correspondência entre o jornalista e escritor Arthur Dapieve e o compositor Aldir Blanc. Pelos próximos dois meses, ambos trocarão cartas semanais no blog do ims.

Sempre disse que o Barthes é um dos meus heróis intelectuais. E ao ler este Diário de luto me toquei de que ele também é um dos meus heróis emocionais, desde que, ainda na faculdade, li Fragmentos de um discurso amoroso em honra da proverbial vagabunda que não me dava mole. (…) Ele de certa forma me ensinou a gramática daquele sofrimento safado.

Ver o horror

Antes de ser transformado em campo de extermínio, Auschwitz servia de caserna para o exército polonês. Os pavilhões de tijolos foram adaptados ao horror e hoje permanecem limpos e impecáveis, numa estranha paz, entre árvores e gramados bem-cuidados. Birkenau é muito mais impressionante. Já nasceu como campo de extermínio. E não deixa dúvidas quanto a sua função original. Não é preciso nenhuma exposição, nenhuma imagem. A vastidão do campo e a arquitetura falam por si. A morte e o horror transparecem no silêncio dos pavilhões de madeira e nas ruínas das câmaras de gás.

Primeiras incursões

Se habitar o rótulo de “jovem escritor” traz uma vantagem, é a seguinte: estou constantemente lendo novos autores. Com alguma frequência abro a caixa de correio e encontro um pacote enviado de algum canto do país: mais um escritor me mandando a sua obra de estreia. Tento ler tudo, mesmo sabendo que é impossível. De qualquer forma, tento. “Se os novos autores não vão ler os novos autores, quem os lerá?”, me pergunto, distorcendo aquilo que a Bensimon uma vez disse: “Só os novos autores leem os novos autores”.

Heroísmo indie – quatro perguntas para Joca Reiners Terron

Radicado em São Paulo desde 1995, o escritor Joca Reiners Terron, que nasceu em Cuiabá (MT), é expoente de uma cena literária que se revelou no fim dos anos 1990. Ilustrador e editor, Joca criou nessa época uma pequena editora, a Ciência do Acidente, que foi responsável pela publicação de autores pouco conhecidos do grande público mas de grande importância para a literatura brasileira como Manoel Carlos Karam e Valêncio Xavier, oriundos do final dos anos 1970. Não há nada lá, seu primeiro romance, é fruto desse período. O livro será relançado esta semana pelo selo Má Companhia, da editora Companhia das Letras.

Primavera nas telas

Esta coluna, que estreia e pretende abordar o cinema em suas várias manifestações e desdobramentos, saúda esta primavera brasileira e convoca os leitores a experimentar e discutir seus frutos.

Do ponto de vista de quem gosta de cinema, o Oscar é o de menos. Mas a relação de títulos que concorriam à indicação brasileira à estatueta de melhor filme estrangeiro deixou muita gente deprimida, e com razão. Foi, com raras exceções, uma safra desanimadora. A boa notícia é que (…) veio à luz uma leva de boas produções das mais variadas tendências.

Conferência de Ricardo Piglia

Em parceria com a editora Companhia das Letras, que promove uma série de atividades em comemoração de seus 25 anos, o Centro Cultural do Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro apresenta no dia 28/9, na próxima quarta-feira, uma conferência do escritor argentino Ricardo Piglia intitulada Romance e tradução. Os ingressos podem ser adquiridos na recepção do IMS-RJ, limitados a dois por pessoa.

Drummond: o “querido capanga”

Quem não soubesse o que Drummond era capaz de fazer por amor aos animais deve ter se espantado de ver seu nome na direção do periódico modesto que circulou a primeira vez em 4 de outubro de 1970, dia de São Francisco, quando, no Rio, se realizava a bênção dos animais na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

Jazz em NYC

O primeiro que frequentei foi o Village Vanguard, por onde tantos imortais passaram – penso imediatamente em Bill Evans gravando ali, piano-solo,
I loves you, Porgy, acompanhado por leves toques de talheres de pessoas jantando em 1960, o que me leva a Miles tocando a mesma música e de novo a Miles tocando Someday my prince will come, música da Branca de Neve cercada de passarinhos e bichinhos da floresta, quando Evans ainda era de seu grupo e quando o trompetista disse, ao colocar um branco na sua banda, “the best mother fucker to ever play the piano” e Evans anos depois tocando a música com seu trio.

Tarsila do Amaral, Academia n. 4, 1922

É na tentativa de coser melhor essa trama, ou de pelo menos seguir alguns de seus fios soltos, que podemos nos aproximar da tela de Tarsila do Amaral e procurar nos avizinhar desse seu aspecto aparentemente inesperado. Um nu, feminino, feito em estúdio. Mais precisamente, um estudo de mulher, realizado numa escola para mulheres, como se vê pelas próprias personagens da tela, algo inexistente no Brasil dos anos 1920. Onde teria sido pintado?