Jogar bola na praia me ensinou muito do que sei sobre lealdade, anos antes de eu saber que o Camus tinha escrito mais ou menos a mesma coisa sobre o tempo em que jogou de goleiro em Argel. Só que eu jogava de zagueiro. Fazia dupla feroz com um sujeito cujo apelido era Corvo no time “do Othon” (minha turma não era nem a da Miguel nem a da Xavier da Silveira, mas a que ficava entre as duas ruas, na faixa de areia em frente ao hotel, em instrutiva convivência com as piranhas e os gringos). Mais de um atacante parrudo se surpreendeu derrubado depois de levar uma bordoada firme de um sujeito com meu físico de existencialista.
A tradução do indizível
Diferentemente da edição brasileira, Près du coeur sauvage recebeu prefácio, escrito pelo jornalista mineiro Paulo Mendes Campos. Para introduzir a obra, o escritor reutilizou seu texto publicado no Diário Carioca, em 1950, primeiro perfil mais detalhado de Clarice a aparecer na imprensa. Conta o prefaciador que o título do livro foi inspirado numa frase de James Joyce, usada como epígrafe da obra: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”.
Leon, Leon, Leon
Conheci Leon há uns vinte anos, cobrindo para a Folha de S. Paulo a Mostra Internacional de Cinema de que ele, mais do que fundador e diretor, era a encarnação. Mas Leon já fazia parte importante da minha vida muito antes disso, pois graças a ele eu tinha visto filmes desconcertantes como Malpertuis, fascinantes como Kaspar Hauser ou esmagadores como Saló. Tarkowski, Oshima, Paradjanov, Jarmusch, Ming-Liang, entre tantos outros nomes sonoros e exóticos, entraram no meu repertório (…) graças a esse sírio-armênio-brasileiro que unia como poucos a faculdade de sonhar e a tenacidade para transformar os sonhos em realidade.
O mito da Zona Sul
Vamos para Copacabana. O inesquecível para mim não era o mar, mas a fragrância, misto de perfume e ânsia, que sentia ao sair do Túnel Novo. Menino precoce, sempre associei aquele cheiro a mulheres bonitas de perna grossa. Lembro que a família estava reunida em um almoço domingueiro, na rua dos Artistas, em Vila Isabel, quando meu tio mais novo disse, em tom de quem não admitiria palpites contrários:
– Semana que vem, vamos mudar para o Leme, em Copacabana.
Minha avó materna (…) ficou pálida e benzeu-se, como se tivesse ouvido que titio iria, com a esposa e minha priminha Valéria, para Sodoma.
Copacabana me engana
Quem resiste a ver um filme chamado Copacabana e estrelado por Isabelle Huppert? Em todo caso, eu não resisti. O filme de Marc Fitoussi pode ser definido como uma agradável crônica de costumes sobre Babou (Huppert), uma francesa de meia-idade em permanente desajuste com a sociedade capitalista globalizada. A história se passa no norte da França e no balneário de Ostende, na Bélgica. E onde entra a Copacabana do título?
Palácio de Lágrimas
Minha amiga foi “comprada” pela RFA. Já no final da adolescência, tinha decidido deixar a qualquer preço a Alemanha Oriental. E não sabe explicar por que não foi presa quando pediu para ir embora (…). Os pais, que eram simples trabalhadores, tampouco foram perseguidos. Apenas ela caiu em desgraça. Trabalhava num teatro. Passou a lavar o chão. Esperou alguns anos até os advogados ocidentais que trabalhavam pelos dissidentes da RDA comprarem seu passe. A Alemanha Oriental precisava de dinheiro. E mantinha um encarregado oficial para negociar com o ocidente a liberação de dissidentes e presos políticos.
Exílio em Laranjeiras
O copacabanense também representa o grosso nato, mas posa de homem do mundo, com cafajestadas em vários idiomas. Hoje, como autoexilado em Laranjeiras, já não me relaciono bem com minha terra quase natal (nasci no Hospital da Lagoa, de pais que então moravam em Ipanema e logo se mudaram para o Posto 5 da minha infância, adolescência e primeira maturidade). Não porque eu tenha deixado de ser grosso. Ao contrário, piorei. Como a “Princesinha do Mar”, que está mais para “Rainha Mãe do Brejo”, velhota que insiste em se vestir de prostituta infantil. Falta-lhe senso de ridículo.
Cosic, o não-Nobel
Muita gente não estranhou quando, ao abrir esta manhã o site da Academia Sueca, deu com o nome de Dobrica Cosic como vencedor do Nobel de Literatura de 2011. (…) Menos de 15 minutos depois, era anunciado em Estocolmo o nome do poeta sueco Tomas Tranströmer, o verdadeiro vencedor e, também ele, apontado como um dos favoritos. Cosic foi “eleito”, isso sim, por um grupo de autodenominados “ativistas” que, num site cujo endereço é confundível com a página oficial do Nobel, reproduziram com precisão o design e a linguagem pomposa dos anúncios oficiais do prêmio.
A Tijuca Profunda
O tijucano – e sou um deles – me horroriza e fascina. É um falso machão. Entra em casa, com umas cervejas na cabeça, e grita, dá decisão, mas se a patroa encarar, a maioria bota o galho dentro. Reina, coçando acintosamente o que a Liesa chama de genitália, na frente do buteco, carta marra na purrinha, mexe com as gostosonas (sem falsa modéstia, são muitas) que passeiam. Umas ficam indiferentes; poucas bancam as vaconautas, olham pra trás e sorriem. Agora, se uma delas parar, de mãos nas cadeiras, e chamar “Vem cá, meu gato, que a mamãe resolve esse atraso todo!”, o cara corre feito o Usain Bolt.
A comédia humana suburbana
Como se sabe, após a repressão às utopias políticas dos anos 1960, em meio à tortura e ao exílio, a saída existencial para muitos, nos anos 1970, foi o “desbunde”, a contracultura, as experimentações sexuais, comportamentais e com estados alterados da consciência. Galos de briga está distante de tudo isso, da estética hippie e contracultural, mas também das canções de protesto esteticamente ingênuas (sua maior proximidade, a meu ver, é com a obra de Chico Buarque dos mesmos anos). Em suas canções, o que se ouve é clamor político revolucionário e ternura pelo jeitinho suburbano, que é o outro lado da moeda da jeunesse dorée da bossa nova.
