No afetuoso documentário dedicado por Martin Scorsese a seu mestre Elia Kazan (que tem vários de seus principais títulos exibidos em retrospectiva da Mostra), aprendemos a ver melhor o cinema do homenageado. Duas de suas obras-primas, em especial, são iluminadas magistralmente pelos comentários de Scorsese: Sindicato de ladrões e Vidas amargas.
Valium 10, o futebol
Bom, vamos ao meu valium 10 (menos quando joga o Vasco), o futebol. Sou um torcedor heterodoxo, supercrítico. Meu pai me levou desde pequeno ao Maracanã. Comprou uma bandeirinha do Vasco pra mim. Era minúscula, em formato de flâmula. Embora as arquibancadas fossem em degraus, toda vez que eu ameaçava levantar a bandeira, ele cortava:
– Abaixa isso pra não atrapalhar a visão de quem está atrás.
Pra que dar uma bandeira a um garoto se ele não pode balançá-la?
Mostra de SP: anotações apressadas
Um incômodo adicional é certa disparidade entre os atores, ou, mais precisamente, entre Camila Pitanga e os outros. A linda atriz faz um esforço tão grande para ter uma grande atuação que o que acaba mostrando é mais isso mesmo, o esforço, do que um bom resultado. Não poderia ser maior o descompasso de seus clichês televisivos com a performance minimalista de Gustavo Machado e a dicção troante (perfeitamente adequada ao papel) de Zecarlos Machado.
Os instintos mais primitivos
Quanto a médicos, contudo, acho que dei sorte. Tive aquele pediatra a me acompanhar quase até eu mesmo virar pai. Meu dentista é o mesmo desde que eu era criança, lá no Posto 5, em Copacabana. Depois que descobri que era hipertenso durante um fechamento de jornal (quando e onde mais?), um amigo me indicou um clínico de fé, com quem mantenho ótimas relações há anos. Inclusive porque parte da consulta é dedicada a conversarmos sobre música clássica. Salvo o réquiem do Mozart.
Queixas e reclamações
Certa manhã de Cannes, a caminho do palácio do festival para ver o sessão das oito e meia da manhã, Leon passou por Luis Buñuel, que saía do hotel para caminhar ao longo da praia. Desistiu do filme, apresentou-se a Buñuel, perguntou se poderia caminhar ao lado dele e seguiram jogando conversa fora pela Croisette. Caminhada longa, Leon não viu o filme das oito e meia nem o das onze da manhã. Quando nos encontramos, no meio da tarde, na sala de imprensa do festival, trazia um sorriso enorme – quer dizer: o sorriso enorme de Leon era tão encolhido quanto sua voz – mais que contente com o passeio com Buñuel.
C’est la danse nouvelle, Mademoiselle!
Escutando bem, as semelhanças entre “La mattchiche” e o texto musical de O Guarani não são tão evidentes. Nos temas, harmonia, ritmos e orquestração, poucos são os pontos comuns entre a ópera brasileira criada no prestigioso teatro da Scala de Milão em 1870 e a cançoneta ao estilo espanhol lançada nos cabarés de Paris três décadas depois. Sobretudo não explica o formidável sucesso que “La mattchiche” obteve na Europa e na América às vésperas da Primeira Guerra Mundial, iniciando uma série de intercâmbios musicais transatlânticos, quase um século antes da descoberta da world music pelas grandes gravadoras internacionais.
Show “João Bosco canta Galos de briga”
Em 4/10/11, o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro apresentou o show João Bosco canta Galos de briga, em que foram interpretadas todas as 12 canções do disco de 1976, músicas que foram compostas por uma das parcerias mais importantes da música brasileira: Aldir Blanc e o próprio João Bosco. O evento contou com a participação de Francisco Bosco, filho de João e coordenador da da Rádio Batuta, web radio do IMS, que comentou a história do disco.
Cada caso é um caso
No acidente que sofri, estávamos minha mulher e eu, parados no fim de um engarrafamento. Um idiota de 18 anos, meio bêbado, talvez maconhado, entrou a uns 80 por hora na traseira de nosso carro. Meu joelho chocou-se contra o porta-luvas e a pressão quebrou o osso em lascas verticais, ao contrário da comum fratura transversa. Muito depois, soube que o cara havia largado o volante para agredir a namorada. Uma coisa que não consigo esquecer: eu estava estirado na rua, apoiando minha mulher com a cabeça ensanguentada. Um cara tentava ajudar e a consorte gritava: – Deixa isso pra lá, Beto! Vamos embora daqui! Tem sangue! A gente pode pegar aids!
Argentina ou o elogio do outro
Não é de hoje que o cinema argentino desperta um misto de admiração e ciúme nos realizadores nacionais. Cada vez que um filme argentino cai nas graças do público brasileiro, é possível pressentir em cada um de nossos cineastas, roteiristas e produtores uma pergunta não formulada: o que eles têm que nós não temos? Cada êxito do país vizinho nos chega como um ovo de Colombo. “Puxa, mas parece tão simples: por que não pensamos nisso antes?”
Nelson Cavaquinho, 100
Na semana em que completaria 100 anos, Nelson Cavaquinho é homenageado em dois eventos no Instituto Moreira Salles. No dia 25 de outubro (terça-feira), às 20h, os jornalistas Sérgio Cabral e João Pimentel e o escritor José Novaes (autor do livro Nelson Cavaquinho: luto e melancolia na MPB) participam de uma mesa-redonda organizada pelo Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), mediada por Rosa Maria Araújo, presidente do MIS-RJ. O encontro é gratuito e aberto ao público. Já no dia 27 de outubro (quinta-feira), às 20h, o IMS apresenta um show com o repertório de Nelson Cavaquinho interpretado por Moacyr Luz e Gabriel Cavalcante, entre as composições estão “Rugas”, “Folhas secas” e “A flor e o espinho”. Os ingressos estarão à venda a partir do dia 20 de outubro no IMS-RJ e custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). A venda de ingressos é limitada a dois por pessoa.
Nascido no Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1911, Nelson Cavaquinho era filho de um mestre tocador de tuba da Polícia Militar e de uma lavadeira do convento de Santa Teresa. O tio dava aulas de violino, por isso ninguém se espantou quando Nelson, ainda menino, tentou fabricar um cavaquinho com uma caixa de charutos vazia e cordas usadas do instrumento do tio. O resultado não foi dos melhores, mas o garoto ganhou o apelido que o acompanharia pelo resto da vida.
Nelson Cavaquinho trabalhou como eletricista, pedreiro, depois no Curtume Carioca e na Polícia Militar. Mas nunca conseguiu se manter em um emprego por muito tempo. Segundo ele, “compunha mesmo quando estava no batente”.
As primeiras gravações surgiram na década de 1940, e o reconhecimento foi chegando nos anos 1950, com sucessos na voz de Dalva de Oliveira, Ciro Monteiro, Roberto Silva. Nos anos 1960, com shows no Zicartola e no Teatro Opinião, tornou-se conhecido do público pela voz de Nara Leão. Morreu em 1986, aos 74 anos.
O show em homenagem a Nelson Cavaquinho faz parte da série produzida pelo IMS, iniciada em 2010, que celebra grandes artistas da música brasileira. A primeira homenageada foi Elizeth Cardoso, em um show de Áurea Martins. Em novembro, foi a vez de Elton Medeiros recriar o próprio repertório em comemoração aos seus 80 anos.
NELSON CAVAQUINHO 100 ANOS
Mesa-redonda
Sérgio Cabral, João Pimentel e José Novaes; mediação de Rosa Maria Araújo
Dia 25 de outubro de 2011, às 20h
Entrada franca
SHOW COM MOACYR LUZ E GABRIEL CAVALCANTE
Dia 27 de outubro de 2011, às 20h
Ingressos à venda no IMS-RJ a partir de 20/10 – R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Venda de ingressos limitada a dois por pessoa
Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400
