Muitas das pessoas de outras áreas com que me relaciono – escritores, cineastas, músicos, scholars, outros jornalistas – se espantam quando digo que escrevo também sobre futebol, como se este fosse incompatível com as artes e com o intelecto de um modo geral. Chegam a me olhar com certa condescendência, como quem perdoa um pequeno vício de uma pessoa a quem se preza. (…) A gente não precisa se desculpar um com o outro para dizer que Zidane é um artista, que Garrincha é um poeta, ou que Pelé escreveu com os pés um épico digno de Tolstoi.
A performance em xeque
A performance do gênio concentrado e transtornado é análoga à imagem fetichizada que foi criada em cima da figura do escritor. Em quase qualquer filme de Hollywood que apresenta um escritor como personagem, vemos o sujeito concentradíssimo frente à máquina de escrever, digitando empolgado, ou no silêncio violento dos que sofrem com a página em branco. Tal representação não está apenas nos filmes. Muitos autores, em entrevistas e palestras, parecem confirmar esta imagem.
O coração do Brasil
Desde 1939 no Rio, o piauiense José Medeiros testemunhou a melhor parte da transformação da Cidade Maravilhosa em metrópole sofisticada. Com sua câmera vocacionalmente jornalística e espiritualmente atgetiana, captou os momentos mais expressivos daquela metamorfose, da folgança matinal na praia às elegantes tardes no Jóquei Clube e à féerie das soirées dançantes, dos bastidores dos cassinos aos bailes de máscara black tie nos hotéis de luxo. Quando da montagem de Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal, cinco anos antes do filme Orfeu Negro, não se pensou em outro profissional para registrar (…)
Meio de campo
E o Gerson? O que dizer de seus passes longos, como aquele passe para Pelé matar a bola no peito, deixar cair e fulminar o goleiro da Tchecoslováquia no segundo gol do Brasil na Copa de 70? Poderia falar de tantos outros, até nos que só vi jogar quando criança, como Zizinho e Jair da Rosa Pinto. Enfim, os artistas da bola, hoje tão difíceis de se ver e vou incluir também um estrangeiro que me encantava, Zinedine Zidane. E confesso que sempre me orgulhei de ser amigo de um deles, meio-campista, Afonsinho, irretocável na sua categoria, nos seus passes e também no carregar a bola, e ainda como pessoa humana.
Outra vez, o excesso
A primeira coisa que faço agora, por vício, ao entrar numa sala de museu, é correr os olhos pelas paredes à procura das etiquetas ou das fichas informativas, o que torna essas visitas cada vez mais exaustivas e as obras, às quais só vou me ater depois de ler as explicações, cada vez mais secundárias. Não estou fazendo o culto da ignorância e da espontaneidade, nem a crítica da crítica (seu papel, fundamental, é mesmo revelar e esclarecer a obra). Estou apenas dizendo que o excesso (e a velocidade que dele decorre) põe a crítica necessariamente na frente da obra – e o ensaio na frente da literatura.
A Borges o que é de Borges
A prática continuada de determinado ofício, o exercício de determinado meio de expressão, dá ao artista um olhar privilegiado, uma sensibilidade aguçada para os trabalhos de seus pares. (…) E essas visões de artistas por outros artistas são muitas vezes idiossincráticas, passionais, desequilibradas. Nem sempre podem ser tomadas como parâmetro crítico. Um exemplo (…): Bioy Casares, o grande parceiro e amigo de Borges, não gostava da literatura do Macedonio Fernández. Assim como Bergman não gostava do cinema de Orson Welles, Buñuel não gostava de Rossellini, e Godard não gosta de Kubrick.
O cinema sob o olhar de Otto Lara Resende
Consta da cronologia em Três Ottos por Otto Lara Resende, publicado pelo IMS em 2002, que em 1951 o escritor mineiro assumiu o cargo de redator principal do então recém-fundado jornal Última Hora. Ali ele escreveria sobre vários assuntos, entre os quais filmes, na coluna intitulada “Cinema”, que ele assinava sob o pseudônimo de “J. O.”.
Apreciando a literatura argentina
O Aleph nos leva a Borges, que não poderia estar ausente do livro de Ricardo Piglia. Na narrativa “O último conto de Borges”, ele nos diz que o último conto do mestre surgiu de um sonho em que viu um homem sem rosto num quarto de hotel e que lhe oferecia nada menos que a memória de Shakespeare. Afirma ainda Piglia que Borges teve de resolver o dilema: como escrever num espanhol que tenha a precisão do inglês, mas conservando os tons da fala nacional. Tudo isso a propósito da estranheza dos dois grandes estilos produzidos, segundo Piglia, no romance argentino do século 20: o de Macedonio Fernández e o de Roberto Arlt.
Uma aventura no Xingu
O taxista não acreditou. Parou e, reproduzindo o meu gesto a título de ilustração, perguntou (dessa vez, em inglês, porque só um estrangeiro, na sua ignorância, podia ter reagido como reagi) se era aquilo mesmo que eu tinha querido dizer. Ele estava a fim de encrenca. E eu, cada vez mais transtornado, repeti o gesto, disse que ia chamar a polícia e peguei o celular. Fingi que discava o número da polícia, fingi que falava em inglês com a polícia e que dava o endereço de onde estávamos. Tudo bem alto, como um louco, pra ele ouvir. Era como se eu fosse parte de um episódio do Seinfeld.
A herança de Steinberg – quatro perguntas para Laerte
A exposição As aventuras da linha, com obras do ilustrador norte-americano Saul Steinberg, chegou a São Paulo e e ficará em cartaz a partir deste sábado (3/9) na Pinacoteca do Estado. Steinberg, consagrado pelo traço minimalista, influenciou gerações de cartunistas e ilustradores com a sua perfeita equação de tempo, espaço e mensagem. Um deles é Laerte, que responde a quatro perguntas do Blog do IMS sobre Steinberg.
