Um adeus a Tunga

Tunga (1952-2016) foi um artista do Antropoceno muito antes que tal discussão viesse à tona no campo das artes. A predileção pelo cobre, com sua enorme potência de significação, os dentes e os cabelos, partes de nós que testemunharão nossa morte e nossa reconversão mineral, para sermos devolvidos ao mundo antropoceno que criamos. Perdê-lo nos deixa confusos. Ficaremos aqui meio tontos, meio perdidos entre vestígios visionários e reverberações da sua curiosidade barroca, reunidos diante dessa matéria vital gerada por fantasia tão generosa.

Firme no Leme

Que se cuide o Carlos Drummond de Andrade sentadinho naquele banco quase na outra ponta de Copacabana. Em pose parecida com a do poeta – de pernas cruzadas e de costas para o mar – Clarice Lispector também ganhou réplica em bronze acomodada na mureta do Leme. E logo nos primeiros 20 dias integrada à paisagem, a primeira estátua de artista mulher no Rio, se não chegou a superar, deve ter igualado o recorde de Drummond em número de selfies com passantes.

Videogame do dinheiro

Por algum motivo, ou por todos, a especulação financeira – com os desastres sociais decorrentes – tornou-se tema frequente no cinema atual. Depois de O lobo de Wall Street e A grande aposta, agora é a vez de Jogo do dinheiro, com George Clooney e Julia Roberts. Como diretora, Jodie Foster demonstra grande segurança na orquestração dos diversos pontos de vista e no controle do ritmo. Trabalha dentro da tradição e das regras de gênero, mas atualizando-as e renovando-as com a dinâmica de seu (nosso) tempo. O resultado é um dos grandes filmes americanos do ano até agora.

Com e sem óculos escuros

“Ninguém morre no fim”, avisa Eucanaã Ferraz, organizador da esperada fotobiografia de Ana Cristina Cesar (1952-1983), cereja do IMS no bolo da Festa Literária de Paraty, que em 2016 homenageia a poeta carioca. A edição de Inconfissões – fotobiografia de Ana Cristina Cesar optou por uma inversão cronológica em sua narrativa: começa com as últimas fotos da biografada, voltando no tempo até o primeiro registro fotográfico de sua vida. A morte seria óbvia demais para terminar um livro sobre a escritora.

O corpo das mulheres como campo de batalha

Em cartaz no Rio de Janeiro, O corpo da mulher como campo de batalha, peça encenada a partir de texto do romeno Matéi Visniec, trata do estupro como estratégia na Guerra da Bósnia, o maior genocídio do século XX depois da Segunda Guerra. Cada palavra dita pela vítima para sua psicanalista, uma especialista em neurose traumática, pode ser ouvida pela plateia carioca com uma força dramática além da densidade do texto original, sobretudo por ter estreado no mesmo dia em que veio à tona a notícia do estupro da jovem de 16 anos, violentada a primeira vez pelos infinitos homens, violentada a segunda vez quando inúmeras vezes é acusada de ter provocado o crime do qual foi vítima.

Rubião é 100

Em 2016 celebra-se o centenário de nascimento do escritor mineiro Murilo Rubião (1916- 1991), um dos pioneiros da literatura fantástica no Brasil. Assista à conversa sobre o autor promovida pelo IMS, com a participação de Humberto Werneck e Sérgio Alcides, e escute a leitura de um conto por Elvia Bezerra.

Boal e o “milagre brasileiro”

O Brasil não era politicamente menos dramático que hoje naquele 25/4/84 em que Fernanda Montenegro escreveu ao amigo Augusto Boal no exílio. Entre euforia com a expectativa da votação e decepção com a derrota da emenda das Diretas Já no Congresso, a carta termina com a perplexidade atemporal de todo brasileiro: “Não sabemos o que vai acontecer.” Nunca sabemos. Trinta e dois anos após a agonia daquela noite sem final feliz, a atriz leu cópia de sua carta original em vídeo produzido para a exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio.

Rio real e imaginário

O Rio de Janeiro é a estrela de imagináRio, um projeto da Rice University, no Texas (EUA): um atlas interativo que apresenta a evolução da cidade ao longo de toda a sua história, de 1500 a 2016. Representações do espaço urbano por artistas e arquitetos, mapas históricos e uma rica iconografia reunida a partir de diversas fontes trabalham juntos para mostrar em detalhes como a capital fluminense se tornou uma das cidades mais complexas do planeta.

A ruptura do realismo em duas frentes

Dois filmes brasileiros que estão entrando em cartaz buscam romper, por caminhos bem diferentes, os limites do realismo que tem marcado nossa produção cinematográfica recente. Falo do gaúcho Ponto zero, de José Pedro Goulart, e do paulista Uma noite em Sampa, de Ugo Giorgetti.

Retrocesso

O multiculturalismo criou uma armadilha para si ao defender uma estratégia em princípio libertária, rompendo o valor subjetivo do cânone ocidental para abrir a literatura à expressão das minorias e à afirmação das diferenças. No momento em que abandona o valor arbitrário e subjetivo para buscar um critério mais democrático e objetivo, baseado na expressão da experiência e da identidade do autor, a literatura abre o flanco para o tipo de redução e inversão que a resenhista reproduz ao analisar o livro de White: romance de gay é para gays. É um retrocesso.