Em nome da filha

Em processo

31.05.17

Escrito em junho de 2016, o tre­cho abai­xo é o pró­lo­go do meu pró­xi­mo roman­ce, ain­da sem nome (cari­nho­sa­men­te ape­li­da­do a títu­lo pro­vi­só­rio de Em nome da filha), que tem como temas prin­ci­pais a ali­e­na­ção paren­tal, con­cei­to pro­pos­to por Richard Gaardner nos anos 1980, e a lega­li­za­ção das dro­gas. Como pano de fun­do, a dis­pu­ta pelo con­tro­le do nar­co­trá­fi­co entre direi­ta e esquer­da dos anos 1970 aos dias de hoje, em espe­ci­al na região amazô­ni­ca, a cor­rup­ção nos Três Poderes (da base ao topo) e o esta­do poli­ci­al rumo ao qual cami­nha­mos des­de as Jornadas de Junho de 2013. Vale fri­sar: Fidel mor­reu horas depois do acor­do de paz entre as FARC e o gover­no colom­bi­a­no ser enfim rati­fi­ca­do, em 25 de novem­bro de 2016. Em nome da filha é meio que a con­ti­nu­a­ção de Eu, cow­boy, estan­do mais para um uni­ver­so para­le­lo ao apre­sen­ta­do no meu roman­ce de estreia.

 

Nada de errado

São Paulo, 29 de abril de 2015

Acabei de che­gar de Havana e já na livra­ria do aero­por­to de Guarulhos pro­cu­rei um Moleskine de Bogotá. Explico: como não encon­trei um Moleskine de Havana (deve exis­tir, só não encon­trei) e como após os meses na Europa se tor­nou tra­di­ção levar um Moleskine novo em cada via­gem a uma cida­de ain­da por conhe­cer, levei esse cader­ni­nho do Laranja mecâ­ni­ca que veio de brin­de quan­do com­prei o livro e, pra com­pen­sar, pen­sei em com­prar logo o de Bogotá. Não encon­trei. Os pla­nos de via­gem inclu­em Medellín e Cali, de modo que pelo vis­to terei bas­tan­te tra­ba­lho pra des­co­lar três Moleskines de uma vez, se é que vou encon­trá-los. Devem exis­tir.

No avião, entre Whiplash e This Is the End, fiquei pen­san­do na últi­ma con­ver­sa que tive com Cato sobre as nego­ci­a­ções de paz entre o gover­no da Colômbia e as FARC, cujo 35o ciclo ocor­reu como de pra­xe na capi­tal cuba­na, con­co­mi­tan­te ao perío­do em que pas­sa­mos na Escuela de Cine em San Antonio de Los Baños. Vítimas do con­fli­to arma­do em pau­ta. Saldo (ofi­ci­al) de uns 220 mil mor­tos e sete milhões de des­pla­za­dos em qua­se ses­sen­ta anos. “Já é hora de exi­gir que os arqui­vos secre­tos [da luta con­tra os insur­gen­tes] sejam aber­tos”, pro­tes­tou o coman­dan­te guer­ri­lhei­ro Paulo Catatumbo numa das reu­niões. Certinho. No entan­to: um mea cul­pa bem que viria a calhar.

Não se tra­tam ape­nas da expul­são de cam­pe­si­nos e indí­ge­nas de seus ter­ri­tó­ri­os, das mulhe­res estu­pra­das pelo cami­nho, das exe­cu­ções, de qual­quer outro cri­me con­tra a huma­ni­da­de assu­mi­do ou não pela orga­ni­za­ção (e demais gru­pos para­mi­li­ta­res, afo­ra o pró­prio Estado). O que mais nos cho­cou foi o boa­to rolan­do pela Escuela sobre a exis­tên­cia de uma rota do trá­fi­co de coca que liga­ria as FARC a ofi­ci­ais do gover­no Venezuelano, e estes a gru­pos ter­ro­ris­tas islâ­mi­cos atu­an­tes na África. Sendo ver­da­de, faria total sen­ti­do a cone­xão entre a recen­te aber­tu­ra de Cuba e o fato das nego­ci­a­ções de paz esta­rem sen­do rea­li­za­das em Havana.

Mas o ôni­bus já vai par­tir, con­ti­nuo depois.

 

Belém, 18 de maio de 2015

Li que no últi­mo dia 9 o Conselho Nacional de Narcóticos da Colômbia sus­pen­deu, por 7 votos a 1, e a pedi­do do pre­si­den­te Juan Manuel Santos, as fumi­ga­ções aére­as com gli­fo­sa­to. Outro fator de des­lo­ca­men­to popu­la­ci­o­nal em mas­sa: além das doen­ças der­ma­to­ló­gi­cas e da per­da de cul­ti­vos sem rela­ção com a coca, estu­dos já iden­ti­fi­ca­ram a rela­ção entre o agro­tó­xi­co e o lin­fo­ma não-Hodgkin, além de má-for­ma­ção fetal. No livro Nuestra guer­ra aje­na, o jor­na­lis­ta Germán Castro Caycedo afir­ma que tais fumi­ga­ções são fei­tas por mer­ce­ná­ri­os yan­ke­es, ex-sol­da­dos do exér­ci­to nor­te-ame­ri­ca­no, como for­ma de mape­a­men­to e pré-apro­pri­a­ção do ter­ri­tó­rio amazô­ni­co e suas rique­zas natu­rais (leia-se água), valen­do-se do nar­co­trá­fi­co como bode expi­a­tó­rio. Algo como o que fize­ram no Oriente Médio de olho no petró­leo (em mis­sões ofi­ci­ais), usan­do o ter­ro­ris­mo como des­cul­pa. Narcotráfico com ter­ro­ris­mo inter­na­ci­o­nal, que bela de uma guer­ra não daria. Tomara que o pró­xi­mo pre­si­den­te dos Estados Unidos não aca­be sen­do o Trump.

 

São Paulo, ​2 de outu­bro de 2015

A casa caiu. O boa­to pare­ce ter se con­fir­ma­do: o judi­ciá­rio norte-americano​ indi­ci­ou dois ofi­ci­ais vene­zu­e­la­nos por trá­fi­co inter­na­ci­o­nal de dro­gas – Pedro Luís Martín, ex-che­fe da inte­li­gên­cia finan­cei­ra do ser­vi­ço secre­to, e Jesús Alfredo Itriago, ex-inves­ti­ga­dor da polí­cia anti­nar­có­ti­cos. Lembrei des­se cader­ni­nho. Cato ficou sur­pre­sa com minha liga­ção via Messenger. Conversamos horas sobre a infor­ma­ção. Confirmar a supos­ta rela­ção com o ter­ro­ris­mo islâ­mi­co será uma ques­tão de meses, senão sema­nas. Ou a esquer­da lati­no-ame­ri­ca­na toma pro­vi­dên­ci­as mor­fo­fi­si­o­ló­gi­cas ago­ra, com o devi­do radi­ca­lis­mo e hori­zon­ta­li­da­de que o momen­to exi­ge, ou em bre­ve, mui­to em bre­ve, até o tar­de demais vai cadu­car.

Acho que já se pode con­cluir sem medo de cair no ridí­cu­lo: em seu lei­to de mor­te, por mais que negue no papel do bom mari­do traí­do, Fidel pre­fe­riu ver sua ama­da pátria de bra­ços aber­tos para os nor­te-ame­ri­ca­nos do que sofrer por ante­ci­pa­ção na cer­te­za de que seu povo, os filhos por quem arris­cou a vida em Sierra Maestra, aca­ba­ri­am se ren­den­do aos encan­tos do nar­co­trá­fi­co quan­do ele vies­se enfim a fale­cer, e Cuba se tor­nas­se um novo e alme­ja­do entre­pos­to da coca, esca­la pra cami­ca­ses. Daí tam­bém as nego­ci­a­ções de paz ocor­re­rem em Havana, Raulzito tocan­do na toa­da del her­ma­no mayor. Pacificar a Amazônia Colombiana, desar­man­do as FARC e con­se­quen­te­men­te “exo­ne­ran­do” os guer­ri­lhei­ros do ser­vi­ço de guar­da aos pro­du­to­res de coca asso­ci­a­dos aos ter­ro­ris­tas afri­ca­nos, foi o seu can­to de cis­ne. Desculpa ain­da melhor do que os sovié­ti­cos seria a ame­a­ça comu­nis­ta do sécu­lo XXI: o fun­da­men­ta­lis­mo islâ­mi­co.

Coincidentemente, rece­bi um aler­ta de pas­sa­gem pra Bogotá a 700 dil­mas. Um porém. Não acre­di­to em coin­ci­dên­ci­as.

 

Bogotá, 25 de novem­bro de 2015

Cães fare­ja­do­res em pra­ti­ca­men­te toda esqui­na da Zona Rosa, pri­mei­ra para­da tão logo saí do aero­por­to. Perguntado se o moti­vo eram as dro­gas, um segu­ran­ça par­ti­cu­lar me con­fes­sou: “Aqui nin­guém se impor­ta com isso de dro­ga, o pro­ble­ma mes­mo são as bom­bas”. Fui atro­pe­la­do por uma bici­cle­ta a cami­nho de Chapinero, ain­da me acos­tu­man­do com ciclo­vi­as no meio das cal­ça­das. Ao que pare­ce, nin­guém se impor­ta mes­mo com o livre con­su­mo de dro­gas em Bogotá. Hipsters davam seus tecos des­pre­o­cu­pa­dos no meio do salão de um infer­ni­nho na Zona G. Encontrei a anfi­triã do hos­tel onde me hos­pe­da­ria em Usáquen na com­pa­nhia de uma ami­ga de infân­cia, então namo­ra­da de um dos DJs da casa e tra­fi­can­te nas horas vagas. A ami­ga de infân­cia me ofe­re­ceu a melhor cocaí­na que eu tinha expe­ri­men­ta­do até o namo­ra­do em si apa­re­cer (de mule­tas: o casal qua­se levou o fare­lo há algu­mas sema­nas quan­do a moto recém-com­pra­da do rapaz se cho­cou a 140km/h con­tra uma cami­o­ne­te na con­tra­mão) e estou­rar minhas nari­nas com o pó mais puro que já chei­rei na vida.

 

Bogotá, 26 de novem­bro de 2015

Peguei a senha com um infor­man­te na Calle 16 com a Carrera 14, uma rua intei­ra toma­da por ofi­ci­nas mecâ­ni­cas, moto­ci­cle­tas enfi­lei­ra­das de um lado e  do outro por toda a exten­são do lon­go quar­tei­rão, sujei­tos mal-enca­ra­dos e sujos de gra­xa, cúm­bia estou­ran­do nos alto-falan­tes, fuma­ça de chur­ras­co bara­to e mil esca­pa­men­tos empes­te­an­do o ar. Bem mais adi­an­te, pom­bos e men­di­gos dis­pu­ta­vam espa­ço nas por­tas dos peque­nos cas­si­nos lade­an­do o cha­fa­riz no cen­tro da Av. Jimenez de Quesada, onde me sen­tei pra fumar um cigar­ro e enfim seguir rumo à Calle 13 com a Carrera 7, na altu­ra do Ed. Henry Faux, bem em fren­te à Iglesia de San Francisco: pon­to de ven­da ile­gal de esme­ral­das em ple­na luz do dia, um ban­do de velhi­nhos segu­ran­do len­ços chei­os de pedri­nhas esver­de­a­das. Soprei a senha no ouvi­do do senhor ves­tin­do uma rua­na púr­pu­ra, con­for­me fui ori­en­ta­do, e ele me con­du­ziu pré­dio aden­tro. Tomamos o ele­va­dor e subi­mos até o últi­mo andar. Enfim cara a cara com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

já hos­pe­da­do num casa­rão anti­go no cen­tro his­tó­ri­co após nove horas de via­gem num ôni­bus a subir e des­cer os mon­tes ao lon­go do dis­tri­to macon­den­se de Santander, nada mui­to dife­ren­te de qual­quer bei­ra de estra­da América Latina céu afo­ra, resol­vi beber. Plaza de los Periodistas, des­cen­do a Carrera 46. Uma lea tão bêba­da quan­to aca­bei fican­do me ensi­nou o sig­ni­fi­ca­do do ver­bo juni­ni­ar, Carrera 46 aci­ma e quar­to aden­tro e qua­se cama abai­xo. Descobri tam­bém que caco aqui é: ladrão. Qué chim­ba!

Enquanto isso, em Havana, o che­fe da dele­ga­ção do gover­no da Colômbia, Humberto de la Calle, anun­ci­a­va os 15 prin­cí­pi­os pra manu­ten­ção da paz “a todos os colom­bi­a­nos”, den­tre os quais: a ver­da­de é o pon­to de par­ti­da para a recons­tru­ção do teci­do soci­al.

 

Medellín, 30 de novem­bro de 2015

Cato está a tra­ba­lho em Bucaramanga, vi no Facebook, e pelo vis­to nem vamos nos encon­trar. Ela nem sequer teve a chan­ce de res­pon­der minhas men­sa­gens. Ou sim­ples­men­te não quis res­pon­der nada que envol­ves­se a heran­ça his­tó­ri­ca do assas­si­na­to de Jorge Eliécer Gaitán em 1948 e a dita­du­ra que se seguiu em 1949, cul­mi­nan­do no nas­ci­men­to das FARC em 1964. Compreensível. Ao menos pra mim. Tive a chan­ce de dis­cor­rer sobre o assun­to para três meni­nos no Museo Casa de la Memoria, que se encan­ta­ram com a his­tó­ria do bra­si­lei­ro inves­ti­gan­do cau­sos sobre as liga­ções entre Colômbia e Brasil na sea­ra do nar­co­trá­fi­co. Tratei de dar o fora o quan­to antes, com a sen­sa­ção de ter fala­do demais. Qué chan­da…

De lá, par­ti rumo a El Poblado, bair­ro onde se deu o céle­bre aten­ta­do à famí­lia de Pablo Escobar no Ed. Mónaco. Hoje, segun­do a fon­te com quem me encon­trei, El Poblado é toma­do por labo­ra­tó­ri­os de refi­na­men­to mon­ta­dos em man­sões vizi­nhas às resi­dên­ci­as da eli­te pai­sa e con­tro­la­dos pelos car­téis mexi­ca­nos. Após a mor­te de Escobar e a que­da dos irmãos Rodríguez Orejuela em Cali,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

e hoje já não pas­sa de pon­to de turís­ti­co com esca­das rolan­tes até o topo (teo­ri­ca­men­te des­ti­na­das aos ido­sos da Comuna 13) onde o mai­or peri­go que se cor­re é pisar por aci­den­te num filho­te de pit­bull dei­xa­do meti­cu­lo­sa­men­te atrás da filei­ra de ins­ta­gra­mei­ros amon­to­a­dos no miran­te e o dono do cão­zi­nho cobrar do incau­to turis­ta o valor de uma con­sul­ta ao vete­ri­ná­rio. Sem pres­são.

 

Cali, 3 de dezem­bro de 2015

Tinha um encon­tro mar­ca­do no Parque del Perro às onze da noi­te, no Blondie, hora e local defi­ni­dos por insis­tên­cia da fon­te. Fui cami­nhan­do da casa onde estou em San Antonio, con­fi­an­te que só eu após uma madru­ga­da de sal­sa e rum­ba no Tin Tin Deo com minha anfi­triã, Karla, bai­la­ri­na holan­de­sa e pro­fes­so­ra par­ti­cu­lar de dan­ça. A fon­te, cla­ro, nun­ca deu as caras. Já pas­san­do da meia-noi­te, resol­vi pegar o beco. Mas antes, cla­ro, tive de con­fe­rir de per­to a famo­sa está­tua do cachor­ro que dá nome à pra­ça. Praticamente o úni­co bran­co entre a mul­ti­dão aglo­me­ra­da ao redor do cor­dão de car­ros cus­pin­do cúm­bia que cir­cun­da­va o par­que. Sentia todos os olha­res em minha dire­ção. Só pio­rou con­for­me fui me embre­nhan­do rumo ao cen­tro, hacia el per­ro. Conjuntivas relu­zin­do o mosai­co dos faróis que trans­pu­nham as copas bai­xas das árvo­res em meio ao breu. E a bocar­ra do cachor­ro ala­bas­tri­no fei­to uma apa­ri­ção abro­lhan­do bem na minha cara, lín­gua de fora. Instante em que me dei con­ta da caga­da em que tinha me meti­do. Aí sim tra­tei de pegar o beco. Só que peguei o beco erra­do. Todo um quar­tei­rão toma­do por uma mura­lha. Bem no meio, uma árvo­re cujo tron­co tor­tu­o­so ocu­pa­va qua­se a cal­ça­da intei­ra, inva­din­do os limi­tes da mura­da. Duas opções: seguir reto pela bre­cha entre a árvo­re e o muro, tal­vez o azar de uma esca­da, ou con­tor­ná-la pelo asfal­to. Tão logo fiquei com a pri­mei­ra, escu­tei o ron­co do motor e de ime­di­a­to uma moto me fechou e joguei as mãos ao alto. Sim, uma arma apon­ta­da pra mim. Sim, cer­rei os olhos o mais for­te que con­se­gui e pas­sou o tal fil­me intei­ri­nho e tudo o mais com um “fodeu, me des­co­bri­ram” em loop de tri­lha sono­ra – mas só uma vez, uma vez e meia, o tem­po do sujei­to enfi­ar a pis­to­la de vol­ta na cin­tu­ra e duas mãos enor­mes vas­cu­lha­rem meus qua­tro bol­sos em três segun­dos e leva­rem tudo: cader­ni­nho, celu­lar, car­tei­ra com iden­ti­da­de e car­tão de cré­di­to, trin­ta mil pesos e dois maços de cigar­ro. Nem sequer um cigar­ri­nho pra ali­vi­ar o stress o mari­ca me dei­xou. Só a cane­ta.

Logo dobran­do a esqui­na, eu já recu­pe­ra­do do cho­que, meu cader­ni­nho joga­do no asfal­to. Devolvido, ou des­car­ta­do, Páginas com quais­quer com­bi­na­ções de núme­ros: arran­ca­das. Peguei a Calle 5 e vol­tei pra “casa”.

 

Cali, 4 de dezem­bro de 2015

Com ape­nas vin­te mil em cash, meu des­ti­no pare­cia mes­mo jamais sair de Cali. No entan­to: por tele­fo­ne, con­se­gui per­su­a­dir o geren­te do ban­co (valen­do-me de toda a pla­ta que me res­ta­va) a libe­rar meu car­tão de débi­to, ain­da que eu não pudes­se fazê-lo pre­sen­ci­al­men­te con­for­me man­da a car­ti­lha. Chévere. Plano B: da rodo­viá­ria dire­to ao aero­por­to de Bogotá, sem esca­las.

 

Belém, 17 de dezem­bro de 2015

A Polícia Civil apre­en­deu ontem um sub­ma­ri­no em cons­tru­ção numa ilha per­to de Vigia, nor­des­te do Pará, supos­ta­men­te a man­do do nar­co­trá­fi­co. Capacidade pra 30 tone­la­das de cocaí­na – ou pól­vo­ra, tan­to faz. O cen­tro-nor­te da Colômbia, con­tro­la­do pelos car­téis mexi­ca­nos, apos­san­do-se dos rios amazô­ni­cos como esco­a­dou­ro alter­na­ti­vo ao Pacífico, já por demais moni­to­ra­do pelas auto­ri­da­des. De res­to, todos esta­mos can­sa­dos de saber: sub­ma­ri­nos são bem mais dis­cre­tos do que heli­co­cas.

 

São Paulo, 17 de feve­rei­ro de 2016

Numa entre­vis­ta publi­ca­da na edi­ção de hoje do Diario Las Américas, tal­vez a pá de cal na esquer­da boli­va­ri­a­na: Javier Cardona Ramírez, ex-che­fão do nar­co­trá­fi­co na Colômbia nos anos oiten­ta, acu­sou Diosdado Cabello, ofi­ci­al do alto-esca­lão do Governo Venezuelano, de che­fi­ar o Cartel de los Soles ao lado do irmão José David e do Coronel Hugo Carvajal, os quais ven­de­ri­am cocaí­na ao Estado Islâmico, Al-Qaeda e Hezbollah na África. Ramírez che­gou a com­pa­rar Cabello ao mexi­ca­no El Chapo, tama­nho o con­tro­le de los Soles sobre os esque­mas na região que movi­men­ta­ri­am entre 40 e 50 tone­la­das de coca por mês, com­pra­das das FARC, valen­do-se da Guarda Nacional Venezuelana. A cam­pa­nha de ree­lei­ção de Maduro em 2014, inclu­si­ve, teria sido finan­ci­a­da com dinhei­ro do car­tel – ao que pare­ce, sem a ciên­cia do suces­sor de Chávez.

Descobri que não: não exis­tem Moleskines de cida­des lati­no-ame­ri­ca­nas. Foi Cato quem dis­se, rin­do da minha indig­na­ção. Reapareceu. Proseamos sobre sua vin­da ao Brasil.

 

São Paulo, 17 de mar­ço de 2016

Se fal­ta­va algu­ma coi­sa? Não fal­ta mais: nos­sa lei anti­ter­ro­ris­mo empla­cou.

 

São Paulo, 18 de mar­ço de 2016

​Na Colômbia: sema­na pas­sa­da o Senado apro­vou por vota­ção unâ­ni­me a Reforma da Lei de Ordem Pública. Zonas de con­cen­tra­ção às FARC e sus­pen­são das ordens de cap­tu­ra dos guer­ri­lhei­ros garan­ti­das.

No Brasil: um gol­pe de Estado em mar­cha, mas todas baten­do pal­mi­nhas pro Lula na Av. Paulista. Depois de mui­to pen­sar, resol­vi não ir. Da fei­ta que se des­ven­da a rota FARC/Venezuela/Isis-AlQaeda, enten­de-se de pron­to a equa­ção bra­si­lei­ra e o racha no Partido dos Trabalhadores: tur­ma de Lula/Falcão de um lado, tur­ma de Dilma/Genro do outro. Dirceu no meio. A sutil e insus­ten­tá­vel dife­ren­ça entre polí­ti­cos e guer­ri­lhei­ros. Viva Bessias!

 

São Paulo, 11 de abril de 2016

Lula afir­ma ao jor­na­lis­ta bri­tâ­ni­co Glenn Greenwald, em entre­vis­ta exclu­si­va con­ce­di­da ao Intercept, ser con­tra a lega­li­za­ção das dro­gas. Entre otras cosi­tas más.

OBS: Pesquisar sobre “O Caso Atibaia” reve­la­do em 2000 na CPI do Narcotráfico, em que foram denun­ci­a­dos assas­si­na­tos ocor­ri­dos em Maricá, no Rio, com o supos­to envol­vi­men­to de empre­sá­ri­os ati­bai­en­ses. Só melho­ra.

 

São Paulo, 4 de maio de 2016

Eis que o Conselho Nacional de Entorpecentes da Colômbia auto­ri­zou hoje a reto­ma­da da fumi­ga­ção com gli­fo­sa­to. Agora manu­al. Em miú­dos: guer­ra fin­da, as FARC desar­ma­das, área devi­da­men­te des­po­vo­a­da post-des­pla­za­mi­en­tos, o avan­ço de ora em dian­te é por ter­ra, não mais pelo ar, com a con­se­quen­te pri­são em fla­gran­te dos pro­du­to­res (“ter­ro­ris­tas”) ain­da na ati­va. Amazônia Legal pací­fi­co-lega­li­za­da. Os Estados Unidos se tor­nam não ape­nas man­te­ne­do­res da região como tam­bém do prin­ci­pal polo pro­du­tor de cocaí­na do mun­do. A cul­pa foi da esquer­da, que deu moti­vos. Que jul­gou que a direi­ta fica­ria olhan­do tudo cala­da, de bra­ços cru­za­dos. Não ficou.

 

São Paulo, 17 de junho de 2016

Pouco mais de um mês após ser deter­mi­na­da a pre­fe­rên­cia na tra­mi­ta­ção do pro­ces­so do heli­co­ca, Gustavo Perrella, que rece­beu duas liga­ções do pilo­to antes des­te deco­lar com o heli­cóp­te­ro de sua famí­lia e os 445 kg de cocaí­na rumo a uma fazen­da no Espírito Santo, foi nome­a­do (a man­do do pai, Zeze) Secretário Nacional de Futebol da Ditadura Temer. Segundo o pilo­to o Paraná esta­va na rota, e a coca fica­va arma­ze­na­da em Janiru, inte­ri­or de São Paulo, vin­da do Paraguai. Há alguns dias, o Estadão publi­cou uma entre­vis­ta com o jor­na­lis­ta inglês Misha Glenny, em que ele lem­brou o caso do car­re­ga­men­to de coca expor­ta­da pra Espanha den­tro da car­ne bovi­na des­pa­cha­da por um fri­go­rí­fi­co no inte­ri­or de São Paulo, esque­ma des­co­ber­to em setem­bro de 2015 pela Polícia Federal na Operação Caravelas no qual a dro­ga che­ga­va de avião ao Mato Grosso do Sul e de lá tam­bém seguia ao Paraná, mas vinha da Colômbia, mais pre­ci­sa­men­te de Medellín. Mera coin­ci­dên­cia, cla­ro: era bucho. Aécio até acei­ta­ria seu nome liga­do à muam­ba tra­zi­da do Paraguai pra des­pis­tar, con­tu­do: à car­ne de segun­da, jamais.

 

São Paulo, 22 de junho de 2016

Hay un Acuerdo de Paz: ces­sar-fogo bila­te­ral ofi­ci­al­men­te fir­ma­do.

Vou-me embo­ra pra Colômbia?

 

São Paulo, 24 de junho de 2016

Dilma exul­ta o que cha­mou de fei­to his­tó­ri­co: “É de se fes­te­jar o acor­do de paz entre gover­no colom­bi­a­no e as FARC alcan­ça­do em Havana”. Nenhuma pala­vra de Lula.

Por sinal: nem de Cato. Nunca mais man­dou notí­ci­as.

 

Belém, 18 de julho de 2016

Está nas mãos do povo colom­bi­a­no: a Corte Constitucional apro­vou o ple­bis­ci­to pra refe­ren­dar o acor­do de paz com as FARC.

 

Santarém, 20 de julho de 2016

Enquanto isso, no Brasil, des­co­bre-se que o Datafolha mani­pu­lou os dados de sua pes­qui­sa e tra­tou de calar a voz do povo que con­cla­ma­va por novas elei­ções.

 

Monte Alegre, 21 de julho de 2016

Por que não me sur­pre­en­de o fato de um dos sus­pei­tos de ter­ro­ris­mo pre­sos hoje ser do Amazonas? Ao que pare­ce, os gol­pis­tas ven­de­ram mes­mo a flo­res­ta amazô­ni­ca aos nor­te-ame­ri­ca­nos em tro­ca da paz e da ordem, do pro­gres­so de alguns pou­cos. Jungmann, por exem­plo, da Reforma Agrária ao Ministério da Defesa. Desarticulador de mão cheia des­de sem­pre. Com as infor­ma­ções que aca­bo de colher cá pras ban­das do Tapajós, estou con­vic­to de que antes do que se espe­ra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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