Fazer, fazer, fazer — entrevista com Raduan Nassar

Literatura

27.11.15

Em 28/11/2015, o escri­tor Raduan Nassar com­ple­tou 80 anos. Para come­mo­rar a data, o Blog do IMS recu­perou na ínte­gra uma rara e exten­sa entre­vis­ta de 1996, con­ce­di­da pelo escri­tor para a edi­ção dos Cadernos de Literatura Brasileira dedi­ca­da à sua obra (dis­po­ní­vel na Loja do IMS na inter­net). “É com as boas teo­ri­as, ou nem tan­to, que se faz a má lite­ra­tu­ra”, afir­ma Nassar, paro­di­an­do André Gide.

A con­ver­sa

Conversar é mui­to impor­tan­te, meu filho,
toda pala­vra, sim, é uma semen­te”

Para Raduan Nassar, o capí­tu­lo menos atra­en­te da lite­ra­tu­ra sem­pre foi o do bur­bu­ri­nho lite­rá­rio — noi­tes de autó­gra­fos, deba­tes, assé­dio da impren­sa. Resultado: ele jamais admi­tiu auto­gra­far suas obras em fes­tas de lan­ça­men­to, não hesi­tou em com­pa­re­cer a um encon­tro de escri­to­res na França só para dizer à pla­teia que nada tinha a decla­rar e des­co­briu um modo edu­ca­do de falar aos jor­na­lis­tas que pode rece­bê-los, sim, a qual­quer hora, des­de que a con­ver­sa não gire em tor­no de lite­ra­tu­ra ou temas afins. Não é de estra­nhar, por­tan­to, que sejam raras as entre­vis­tas dadas por Raduan.

Nesta que con­ce­deu aos CADERNOS, o autor de Lavoura arcai­ca con­cor­dou em que­brar duas regras que há anos vinha impon­do a si mes­mo. A pri­mei­ra: sem­pre econô­mi­co em pala­vras, Raduan se dispôs a uma saba­ti­na de seten­ta per­gun­tas for­mu­la­das pela equi­pe da revis­ta e por con­vi­da­dos. A segun­da: para res­pon­der às ques­tões e pre­pa­rar sua par­ti­ci­pa­ção nes­te núme­ro, ele man­te­ve per­to de dez encon­tros com Antonio Fernando De Franceschi, dire­tor dos CADERNOS (em sua casa em São Paulo e na Fazenda Lagoa do Sino, onde foi foto­gra­fa­do).

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedi­car-se intei­ra­men­te à lite­ra­tu­ra numa épo­ca, renun­ci­an­do a tudo em nome dela, e depois parar de escre­ver?

Raduan Nassar: Foi a pai­xão pela lite­ra­tu­ra, que cer­ta­men­te tem a ver com uma his­tó­ria pes­so­al. Como come­ça essa pai­xão e por que aca­ba, não sei.

CADERNOS: Fala-se mui­to no “silên­cio de Rossini” — moço ain­da, e no auge da car­rei­ra, o músi­co parou de com­por. Sabe-se que esse silên­cio teve momen­tos de fecun­di­da­de, quan­do Rossini pro­du­ziu obras que não quis des­ti­nar à divul­ga­ção. Estaria o mes­mo acon­te­cen­do com você?

Raduan: Não é o meu caso. A coi­sa está encer­ra­da há mais de vin­te anos.

CADERNOS: Qual era, no iní­cio, o seu pro­je­to lite­rá­rio?

Raduan: O pro­je­to era escre­ver, não ia além dis­so. Dei con­ta de repen­te de que gos­ta­va de pala­vras, de que que­ria mexer com pala­vras. Não só com a cas­ca delas, mas com a gema tam­bém. Achava que isso bas­ta­va.

CADERNOS: Mas você tra­ba­lhou mui­to com o aspec­to for­mal, ou seja, com a “cas­ca” das pala­vras, não?

Raduan: Trabalhei um pou­co, com sons, gra­fi­as, sin­ta­xes, pon­tu­a­ção, rit­mo etc. Se em fun­ção dis­so tudo che­guei às vezes a vio­len­tar a semân­ti­ca de algu­mas pala­vras, por outro lado tra­ba­lha­va tam­bém com aque­las coor­de­na­das em fun­ção dos sig­ni­fi­ca­dos. Era um trân­si­to de duas mãos, uma rela­ção dinâ­mi­ca entre os dois níveis.

CADERNOS: Na épo­ca em que você já tinha se defi­ni­do pela lite­ra­tu­ra, teo­ri­za­va-se mui­to sobre ques­tões de for­ma, no con­tex­to de uma esté­ti­ca anti­dis­cur­si­va que, sobre­tu­do na poe­sia, valo­ri­za­va a sín­co­pe e o espa­ço em bran­co. Como você per­ce­bia essa ten­dên­cia?

Raduan: Acho que não adi­an­ta for­jar uma esco­ra meta­fí­si­ca para aque­la pos­tu­ra, como arro­lar a esté­ti­ca dis­so ou a esté­ti­ca daqui­lo, por­que no fun­do o caso daque­la ten­dên­cia seria mes­mo de inap­ti­dão pra refle­xão exis­ten­ci­al. Agora, a cas­ca das pala­vras, da pro­pos­ta anti­dis­cur­si­va, como a laran­ja que se pas­sa num espre­me­dor, cer­ta­men­te que não excluía resí­du­os de sig­ni­fi­ca­dos. Fosse então o caso de for­jar uma esco­ra, quan­do mui­to se pode­ria falar na esté­ti­ca do baga­ço. Não vai aí qual­quer cono­ta­ção pejo­ra­ti­va, é só uma ten­ta­ti­va de ade­qua­ção voca­bu­lar. Entre usar baga­ço ou pala­vras em toda sua acep­ção pos­sí­vel, cada escri­tor que fizes­se a sua esco­lha.

CADERNOS: E qual foi a sua esco­lha?

Raduan: Suponho que já dei­xei cla­ro que tra­ba­lhar com a cas­ca não excluía um tra­ba­lho com a gema tam­bém. E depois, vai que o poé­ti­co se rea­li­za no pla­no con­cei­tu­al, sem que os poe­tas pre­ci­sas­sem suar tan­to a cami­sa com seu tra­ba­lho anti­dis­cur­si­vo, e com a árdua incor­po­ra­ção do espa­ço em bran­co como valor lite­rá­rio.

CADERNOS: Você pode­ria escla­re­cer melhor o que é a rea­li­za­ção do poé­ti­co no pla­no con­cei­tu­al?

Raduan: Não tem mui­to que escla­re­cer. Em todo caso, veja esses dois ver­sos do Jorge de Lima que já citei à exaus­tão: “Há sem­pre um copo de mar / para um homem nave­gar”. As pala­vras empre­ga­das são do quo­ti­di­a­no, a rima é comum, a sin­ta­xe não pode­ria ser mais sim­ples. Mas são dois ver­sos gene­ro­sos para a ima­gi­na­ção. Ou a des­co­ber­ta que o per­so­na­gem do Ibsen reve­la para a mulher em Um ini­mi­go do povo: “O homem mais for­te é o que está mais só”. Uma afir­ma­ção sem qual­quer arti­fí­cio no seu enun­ci­a­do, de que você pode inclu­si­ve dis­cor­dar, mas que é fas­ci­nan­te no con­tex­to da peça. E segu­ra essa: “Desisti de escre­ver por­que há um exces­so de ver­da­de no mun­do”, uma afir­ma­ção do Otto Rank, que o Abbate me deu de pre­sen­te quan­do aban­do­nei a lite­ra­tu­ra.

CADERNOS: São fra­ses de efei­to as duas últi­mas.

Raduan: Frases de efei­to tam­bém fazem lite­ra­tu­ra, ou não? Aliás, só pra com­ple­tar, acre­di­to que a boa pro­sa tenha sido sem­pre poé­ti­ca. Porque exis­te tam­bém a arte que se cons­trói com sig­ni­fi­ca­dos, e que se nutre no mun­do ines­go­tá­vel da semân­ti­ca. Parte da crí­ti­ca tal­vez tenha dimi­nuí­do o con­cei­to de esti­lo na lite­ra­tu­ra ao iden­ti­fi­cá-lo só no nível da cas­ca. Kafka, que se valeu de um regis­tro rea­lis­ta de lin­gua­gem, tem um esti­lo for­te. Durrenmatt, a mes­ma coi­sa. Alguns dos seus tex­tos nos jogam pro espa­ço. De Dostoiévski, dizem até que ele escre­via mal em rus­so. As lei­tu­ras que nos acom­pa­nham a vida toda foram as dos artis­tas dos sig­ni­fi­ca­dos. Poucas vezes eles tra­ba­lha­ram a fra­se com arti­fí­ci­os visí­veis demais, mas são deles as nos­sas lei­tu­ras ines­que­cí­veis. Mas essas coi­sas que estou te dizen­do são digres­sões data­das, que você deve situ­ar no, meu tem­po de pai­xão pela lite­ra­tu­ra. Minha cabe­ça hoje não está mais aí, que achem que qui­se­rem, se me ne fre­go. Aliás, com esse papo você está é me fazen­do um covei­ro de mim mes­mo, o covei­ro que desen­ter­ra a pró­pria ossa­da, estou até me sen­tin­do mal falan­do des­sas coi­sas.

CADERNOS: Mude-se então de assun­to. O Jornal do Bairro, que você diri­giu por alguns anos, tinha cola­bo­ra­do­res expres­si­vos como Paulo Emílio Salles Gomes, Paul Singer, José Arthur Giannotti, Walter Barelli, Augusto Nunes e mui­tos outros. Qual era a linha edi­to­ri­al do sema­ná­rio?

Raduan: Além do noti­ciá­rio regi­o­nal, que cobria boa par­te da zona oes­te de São Paulo, o jor­nal abria espa­ço para maté­ri­as naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais. Fazia opo­si­ção ao regi­me da épo­ca e iden­ti­fi­ca­va-se com as rei­vin­di­ca­ções do então cha­ma­do Terceiro Mundo. Dava aten­ção tam­bém aos gru­pos mino­ri­tá­ri­os. E se esfor­ça­va no exer­cí­cio crí­ti­co, tan­to que algu­mas ini­ci­a­ti­vas do regi­me mili­tar que iam ao encon­tro das posi­ções do Terceiro Mundo mere­ce­ram regis­tros ade­qua­dos. Como de res­to as pri­mei­ras posi­ções polí­ti­cas da Igreja.

CADERNOS: Como você ava­lia a sua pas­sa­gem pelo jor­nal?

Raduan: Eu era um sujei­to mui­to tran­ca­do e as con­di­ções de tra­ba­lho na reda­ção me leva­ram a falar mais do que esta­va habi­tu­a­do. Antes, eu tinha uma lin­gua­gem oral desen­vol­ta, mas só entre uns pou­cos ami­gos. Na reda­ção, pelo menos, aca­bei viran­do um pou­co gen­te. Agora, do pon­to de vis­ta da escri­ta, a reda­ção me impôs cer­to rigor de pro­ce­di­men­to. Uma coi­sa era a pala­vra numa lau­da, outra coi­sa era a mes­ma pala­vra já impres­sa. Havia uma mudan­ça de qua­li­da­de. Coisas assim me leva­ram, como res­pon­sá­vel pelo jor­nal e reda­tor, a uma lei­tu­ra mais aten­ta dos tex­tos, era pre­ci­so pesar cada pala­vra, ain­da que tivés­se­mos come­ti­do bes­tei­ras. O jor­nal des­tran­cou par­te da minha timi­dez, mas me des­tran­cou mui­to mais como escri­tor.

CADERNOS: Que papel teve o mar­xis­mo em sua for­ma­ção?

Raduan: Fiz minhas pri­mei­ras lei­tu­ras polí­ti­cas no pri­mei­ro ano de facul­da­de. Tinha uma livra­ria ali mes­mo no Largo de São Francisco e foi lá que me abas­te­ci de uma cole­ção que se cha­ma­va Estante do Pensamento Social. Entre os livros da Estante, li com entu­si­as­mo, gri­fan­do mui­tos pará­gra­fos, A nova mulher e a moral sexu­al, de Alexandra Kolontai. Isso em 55. Que essa reve­la­ção sir­va de fler­te com as femi­nis­tas radi­cais, se é que ain­da exis­tem.

CADERNOS: E depois?

Raduan: Na épo­ca, a Faculdade de Direito tinha ain­da uma fei­ção bem con­ser­va­do­ra, era fácil iden­ti­fi­car os estu­dan­tes de esquer­da, que eram pou­cos. Acabei me entur­man­do, mas ao lon­go dos anos alguns epi­só­di­os aca­ba­ram me levan­do a pôr aten­ção menos na ide­o­lo­gia e mais na qua­li­da­de dos seus por­ta­do­res. Daí que não me sur­pre­en­di mui­to, bem mais tar­de, com a que­da do muro de Berlim.

CADERNOS: A pro­pó­si­to, como você viu o colap­so do comu­nis­mo?

Raduan: Tinha de dar no que deu. A União Soviética desem­pe­nhou um papel impor­tan­te sobre­tu­do com seu apoio aos movi­men­tos de liber­ta­ção. Em alguns casos esse apoio foi deci­si­vo. Como de res­to ini­biu as ações do Ocidente. Por outro lado, os sovié­ti­cos repro­du­zi­ram mui­to do que pre­ten­di­am com­ba­ter. Pra não falar do fol­cló­ri­co, como as filas pra ver rapi­di­nho o Lênin embal­sa­ma­do, uma exal­ta­ção da indi­vi­du­a­li­da­de cui­da­do­sa­men­te pre­pa­ra­da por um regi­me que se pre­ten­dia cole­ti­vis­ta. Mesmo assim acho que o colap­so teve a dimen­são de um segun­do dilú­vio, dei­xan­do o Ocidente de mãos livres para impor sua nova ordem inter­na­ci­o­nal, quer dizer, as eli­tes que deci­dem devem se com­por de um núme­ro cada vez menor de indi­ví­du­os, e, infer­nal­men­te con­tro­la­do, o res­to que se dane. Sem esque­cer, é cla­ro, de um sis­te­ma de pro­pa­gan­da para fazer a qual­quer cus­to o elo­gio das supos­tas demo­cra­ci­as.

CADERNOS: Como você vê o isla­mis­mo hoje, com cer­ca de um bilhão de adep­tos ao redor do mun­do? É uma “reli­gião de faná­ti­cos” ou esta é uma ideia ven­di­da pelo Ocidente, que teme uma expan­são ain­da mai­or?

Raduan: O Ocidente con­tro­la o Islã. O tra­ço de iro­nia é mui­to anti­go: pas­sar uma ima­gem pejo­ra­ti­va jus­ta­men­te dos povos que con­tri­bu­em para a abas­tan­ça dos domi­na­do­res. Aperta-se um botão no sis­te­ma de pro­pa­gan­da lá no Norte e ime­di­a­ta­men­te nós escu­ta­mos em São Paulo algu­mas toli­ces sobre o Islã, com cono­ta­ção raci­al. Mas é óbvio que os paí­ses islâ­mi­cos são res­pon­sá­veis tam­bém pela situ­a­ção em que estão.

CADERNOS: Você acha que exis­te pre­con­cei­to con­tra ára­bes no Brasil?

Raduan: Não fale por um negro, se você não for negro. Só um negro conhe­ce o tama­nho da sua dor. Não fale por qual­quer mino­ria, se você não per­ten­cer a essa mino­ria. No caso ára­be, bas­ta fazer um levan­ta­men­to da lite­ra­tu­ra de fic­ção dos últi­mos vin­te anos no Brasil e ver como são tra­ta­dos os per­so­na­gens por­ta­do­res de nomes ára­bes. Livros inclu­si­ve ado­ta­dos em esco­las. Livros de auto­res con­ta­mi­na­dos pela pro­pa­gan­da. Parte des­ses auto­res seria de esquer­da. Tinha mes­mo de dar no que deu.

Davi Arrigucci Jr.: Como Borges, você se orgu­lha mais dos livros que leu? Qual o peso da lei­tu­ra na sua escri­ta?

Raduan: Por uns bons anos, cer­tas lei­tu­ras me fize­ram bem. É do que me lem­bro. E tem isso: a lei­tu­ra que mais eu pro­cu­ra­va fazer era a do livrão que todos temos dian­te dos olhos, que­ro dizer, a vida acon­te­cen­do fora dos livros. Dessa lei­tu­ra da vida não sen­ti exa­ta­men­te orgu­lho, embo­ra achas­se a lei­tu­ra mais impor­tan­te a fazer, como escri­tor. Isso aliás me lem­bra um con­to do pró­prio Borges em que ele des­cre­ve uma peque­na agru­ra de Averróis, o filó­so­fo que pas­sou a vida debru­ça­do sobre Aristóteles. Averróis con­sul­ta livros e quei­ma as pes­ta­nas com as pala­vras comé­dia e tra­gé­dia do tex­to em que tra­ba­lha­va, sem con­se­guir trans­por essas pala­vras para o ára­be. E nem pode­ria encon­trar essa cor­res­pon­dên­cia, uma vez que não pode­ria enten­der tam­bém o que era tea­tro no âmbi­to do isla­mis­mo. No con­to, que você cer­ta­men­te conhe­ce, Borges, entre outras coi­sas, con­tra­põe a bus­ca infru­tí­fe­ra atra­vés dos livros e da espe­cu­la­ção aos dados escan­ca­ra­dos da rea­li­da­de. Seria nes­sa rea­li­da­de pró­xi­ma que Averróis teria encon­tra­do o que pro­cu­ra­va, mas que não mere­ceu sua devi­da aten­ção. E note a iro­nia: Borges, autor des­se con­to, era um rato de bibli­o­te­ca. Agora, ape­sar da impor­tân­cia que eu punha na lei­tu­ra do Livrão (Livrão com maiús­cu­la), é cer­to que mui­to do meu apren­di­za­do foi fei­to tam­bém em cima de livros, espe­ci­al­men­te de uns pou­cos auto­res, auto­res que iam ao encon­tro das minhas inqui­e­ta­ções, mas não me per­gun­te quais que já não me lem­bro.

CADERNOS: Como você divi­dia o tem­po entre a lei­tu­ra de livros e a lei­tu­ra do “Livrão”?

Raduan: Nunca sen­ti mui­to ape­go pelos livros. Os livros que me sobra­ram estão esque­ci­dos lá nas pra­te­lei­ras, me per­gun­to sem­pre que é que estão fazen­do ain­da nas estan­tes. Depois, a gen­te se empan­tur­rar de lei­tu­ras não me pare­cia mui­to dife­ren­te de se empan­tur­rar numa comi­lan­ça. Sentia tam­bém outros ape­los, neces­si­da­de de fazer coi­sas, no sen­ti­do inclu­si­ve bra­çal, devi­do à minha for­ma­ção fami­li­ar. Mas quan­to à ques­tão que você colo­cou, diga­mos que eu punha um olho nos livros, e um Olhão fora dos livros.

CADERNOS: “Olhão” com maiús­cu­la?

Raduan: Claro!

CADERNOS: Do modo como você fala, pode dar a impres­são de que a lite­ra­tu­ra está dis­tan­te da vida. É isso o que você pen­sa?

Raduan: Acho que não fui cla­ro. Valorizo livros que trans­mi­tam a vibra­ção da vida, só que a vida nes­ses livros, por melho­res que esses livros sejam, será sem­pre a vida per­ce­bi­da pelo olhar do outro. Valorizo o rela­to da expe­ri­ên­cia do outro e pro­cu­ro até dia­lo­gar com ele sobre sua expe­ri­ên­cia vivi­da, mas pos­so sen­tir de modo dife­ren­te, se eu vier a viver uma expe­ri­ên­cia cor­res­pon­den­te. Seria a vivên­cia de um escri­tor, e não um olhar de emprés­ti­mo, o que pode­ria impri­mir voz pró­pria ao que ele escre­ve. Só isso.

CADERNOS: Você tam­bém acha que há um exces­so de ver­da­de no mun­do?

Raduan: Se há escas­sez ou exces­so de ver­da­de, isso não ia mudar a voca­ção des­te mun­do. Me des­cul­pe, mas este pla­ne­ta esta­va des­ti­na­do des­de sem­pre a ser a caca do Universo. Não deu outra.

José Paulo Paes: Em entre­vis­tas, você tem mani­fes­ta­do um rela­ti­vis­mo radi­cal em maté­ria de valo­res a pon­to de dizer que não há cri­a­ção artís­ti­ca ou lite­rá­ria que se com­pa­re a uma cri­a­ção de gali­nhas. Esse rela­ti­vis­mo esta­ria liga­do à sua con­di­ção de ex-estu­dan­te de filo­so­fia, ou repre­sen­ta­ria a des­ti­la­ção de uma expe­ri­ên­cia de vida? Ou um tra­ço do seu tem­pe­ra­men­to?

Raduan: Acho que tem um pou­co de cada coi­sa, mas des­con­fio que tenha mais do meu tem­pe­ra­men­to, ou mais pre­ci­sa­men­te da minha fal­ta de tem­pe­ran­ça. Se eu fos­se um sujei­to equi­li­bra­do, eu não teria tido a liber­da­de de fazer aque­la afir­ma­ção. Só dese­qui­li­bra­dos é que des­co­brem que este mun­do não tem impor­tân­cia. O bom sen­so seria uma pri­são.

CADERNOS: Foi tam­bém a sua “fal­ta de tem­pe­ran­ça” que o levou a afir­mar que “na ordem ou desor­dem geral das coi­sas a lite­ra­tu­ra é uma coi­si­nha”?

Raduan: Posso sair pela tan­gen­te?

CADERNOS: Responda como você qui­ser.

Raduan: Quando fiz aque­la afir­ma­ção, diga­mos que era mais que óbvio que a cha­ma­da moder­ni­da­de no sis­te­ma de pro­du­ção, com sua ênfa­se na efi­ci­ên­cia, vinha esma­gan­do cer­tas mani­fes­ta­ções de huma­nis­mo, incluin­do-se nes­se huma­nis­mo o delí­rio de alguns. Só pra se ter uma ideia, já dis­se­ram que o con­cei­to de soli­da­ri­e­da­de não será mais enten­di­do pelas novas gera­ções do pró­xi­mo milê­nio. Em sin­to­nia com isso, cer­tos escri­to­res vinham há tem­pos chu­pan­do o san­gue das pala­vras, que­ri­am a qual­quer­cus­to aca­bar com os sen­ti­men­tos na lite­ra­tu­ra. Andaram com­pli­can­do um pou­co as coi­sas. Isso me faz lem­brar um con­to hún­ga­ro, em que um fer­rei­ro fazia ope­ra­ções de cata­ra­ta com um ins­tru­men­to rús­ti­co, mas sem­pre com mui­to êxi­to. Sua fama trou­xe até ele os sábi­os da medi­ci­na, já viu! Deitaram tan­to conhe­ci­men­to em cima do pobre fer­rei­ro que aca­ba­ram por ini­bi-lo, a pon­to de ele nun­ca mais con­se­guir levar a cabo uma cirur­gia. Aqueles sábi­os pro­cu­ra­vam pro­va­vel­men­te com­pen­sar a sua fal­ta de talen­to para fazer com um supos­to conhe­ci­men­to de como fazer. Deviam até pas­sar por óti­mos teó­ri­cos, mas só atra­pa­lha­vam. Acho que a lite­ra­tu­ra per­deu cer­ta inge­nui­da­de, como aque­le fer­rei­ro depois da visi­ta dos sábi­os. Em lite­ra­tu­ra, quan­do você lê um tex­to que não toca o cora­ção, é que algu­ma coi­sa está indo pras cucui­as. Na minha opi­nião.

CADERNOS: É sabi­do que ao escre­ver seu pri­mei­ro tra­ba­lho de fic­ção, o con­to “Menina a cami­nho”, você valeu-se de remi­nis­cên­ci­as da cida­de de Pindorama. O des­fe­cho da nar­ra­ti­va, tão sur­pre­en­den­te e vio­len­to, é tam­bém fru­to de recor­da­ções?

Raduan: Acho que pre­ci­sei exor­ci­zar um epi­só­dio da minha infân­cia, que nun­ca tinha con­ta­do a nin­guém. Eu tinha sete ou oito anos e esta­va no alto de um pé de laran­ja, no fun­do do nos­so quin­tal, quan­do ouvi gri­tos de uma mulher que esta­va sen­do sur­ra­da no quin­tal do vizi­nho, tal­vez jun­to ao fun­do da casa dela. Eu ouvia o esta­lo das chi­co­ta­das, mas não con­se­guia ver nada devi­do aos pés de mamo­na que se inter­pu­nham, do lado do vizi­nho. O fato de eu não con­se­guir ver a cena, nem iden­ti­fi­car as pes­so­as, deve ter me trau­ma­ti­za­do mais fun­do. Eram só gri­tos e chi­co­ta­das. Eu não sabia naque­la ida­de o que era angús­tia, mas foi com cer­te­za angús­tia o que sen­ti, pois des­ci da laran­jei­ra, entrei em casa e me joguei na cama a tar­de intei­ra.

CADERNOS: Você reve­lou que Um copo de cóle­ra foi pro­du­zi­do em quin­ze dias, numa espé­cie de sur­to cri­a­ti­vo que o domi­nou qua­se sem inter­rup­ção. Do que se nutria aque­la ins­pi­ra­ção pode­ro­sa?

Raduan: Disse que escre­vi a nar­ra­ti­va em quin­ze dias, mas esses quin­ze dias foram só o tem­po de des­car­ga. É que a nove­la deve­ria estar em esta­do de latên­cia na cabe­ça, e sabe-se lá quan­to tem­po levou se car­re­gan­do, ou se nutrin­do — de coi­sas ame­nas, está cla­ro — e se orga­ni­zan­do em cer­tos níveis, até que aflo­ras­se à cons­ci­ên­cia. Então, a ins­pi­ra­ção de que você fala só teria a ver com o tem­po cur­to da des­car­ga, um tem­po que teria sido tan­to mais cur­to quan­to mais tra­ba­lha­do na cabe­ça, cons­ci­en­te ou incons­ci­en­te­men­te, incluin­do-se aí as nos­sas intui­ções, ou insights, se você pre­fe­rir. Pra não falar dos seis meses de 1976 que fiquei em cima do tex­to.

CADERNOS: Certa vez, quan­do lhe per­gun­ta­ram quan­to tem­po você levou para escre­ver Lavoura arcai­ca, a res­pos­ta foi “a vida toda”. Você pode­ria expli­car isso melhor?

Raduan: É que no Lavoura eu cavo­quei mui­to lon­ge. Além dis­so, a coi­sa foi meio com­pli­ca­da, mes­mo se só levei uns oito meses para escre­ver, tudo soma­do. Nos anos 60, eu anda­va entu­si­as­ma­do com o beha­vi­o­ris­mo, por con­ta de um dos cur­sos de psi­co­lo­gia que eu fazia. Daí que ten­ta­va um roman­ce numa linha bem obje­ti­va. Só que em cer­to capí­tu­lo um dos per­so­na­gens come­çou a falar em pri­mei­ra pes­soa, numa lin­gua­gem atro­pe­la­da, meio deli­ran­te, e onde a famí­lia se insi­nu­a­va como tema. Tudo isso implo­dia com o meu esque­mi­nha de roman­ce obje­ti­vo. Diante do impas­se, aban­do­nei o pro­je­to, o que coin­ci­dia tam­bém com minha ida pro jor­nal. Quando dei­xei o jor­nal alguns anos depois, reto­mei aque­les ori­gi­nais, mas logo aca­bei me debru­çan­do em cima daque­le capí­tu­lo em pri­mei­ra pes­soa, e des­pre­zan­do todo o res­to. Sem hesi­tar, trans­for­mei um velho, que ouvia aque­la fala deli­ran­te, em irmão mais velho do per­so­na­gem que fala­va, e foi aí que come­çou a sur­gir o Lavoura.

CADERNOS: Como você ana­li­sa a famí­lia hoje?

Raduan: A famí­lia con­ti­nua sen­do um filão e tan­to para um escri­tor de fic­ção. Não tem quem não se toque, não tem quem não blas­fe­me con­tra a famí­lia, não tem quem não cho­re de nos­tal­gia. O que pro­va que todo mun­do tem pelo menos um pezi­nho bem plan­ta­do nela e de onde con­cluo que a famí­lia é ain­da um por­to segu­ro.

Octávio lan­ni: Lavoura arcai­ca não é um roman­ce sobre a famí­lia patri­ar­cal ou a cri­se da famí­lia patri­ar­cal. É um roman­ce sobre a dana­ção, a vida huma­na como uma dana­ção sem fim. A bus­ca da rea­li­za­ção, eman­ci­pa­ção ou reden­ção é mui­to mais o cami­nho da dana­ção. Você con­cor­da com essa lei­tu­ra?

Raduan: Estou mais é sen­do infor­ma­do des­sa sua lei­tu­ra. Se o Lavoura pas­sa a ideia de que a vida huma­na é uma dana­ção sem fim, nes­se caso a nar­ra­ti­va não é de se jogar fora. Só que essa dana­ção pode­ria acon­te­cer no âmbi­to de uma famí­lia patri­ar­cal, em cri­se ou não. Seja como for, tal­vez a gen­te con­cor­de nis­so: nenhum gru­po, fami­li­ar ou soci­al, se orga­ni­za sem valo­res; como de res­to, não há valo­res que não gerem excluí­dos. Na bre­cha lar­ga des­se desa­jus­te é que o cape­ta dei­ta e rola.

CADERNOS: André, o filho tres­ma­lha­do de Lavoura arcai­ca, e o cha­ca­rei­ro de Um copo de cóle­ra têm em comum a mes­ma vio­lên­cia de dis­cur­so, o mes­mo ímpe­to avas­sa­la­dor que os leva a uma espé­cie de êxta­se malé­vo­lo, e é jus­ta­men­te nas pas­sa­gens onde isto acon­te­ce que sua lite­ra­tu­ra pare­ce alcan­çar a mais alta rea­li­za­ção. Do pon­to de vis­ta lite­rá­rio, é impor­tan­te para você a ideia meta­fí­si­ca do Mal?

Raduan: Acho que uma cama­ra­da­gem com o Anjo do Mal é um dos pres­su­pos­tos da nos­sa supos­ta liber­da­de. Impossível dei­xá-lo de fora quan­do eu pen­sa­va em fazer lite­ra­tu­ra. Não se pode esque­cer que ele é par­te do Divino, a par­te que jus­ta­men­te pro­mo­ve as mudan­ças. Seria mais este Anjo que está pre­sen­te nos meus tex­tos.

CADERNOS: Esses dois per­so­na­gens cen­trais de sua obra pare­cem entre­gues aos pró­pri­os demô­ni­os sem chan­ces de expi­a­ção, numa espé­cie de catar­se que revo­lu­ci­o­na sem con­tu­do sal­var. A impos­si­bi­li­da­de de reden­ção faz sola­par a cren­ça nos valo­res tra­di­ci­o­nais e, dian­te dis­so, o nihi­lis­mo seria a úni­ca ati­tu­de filo­só­fi­ca coe­ren­te. O que você pen­sa des­sa inter­pre­ta­ção?

Raduan: Deixando per­so­na­gens de lado, e redu­zin­do valo­res tra­di­ci­o­nais a valo­res sim­ples­men­te, o nihi­lis­mo seria sim uma ati­tu­de filo­só­fi­ca coe­ren­te, como coe­ren­te seria você reti­rar a impor­tân­cia des­te mun­do. Isto, se você for até às últi­mas con­sequên­ci­as de cer­ta refle­xão. Resta saber qual o alcan­ce efe­ti­vo des­sas ati­tu­des. Acho até que podem se pres­tar a usos cir­cuns­tan­ci­ais, uma espé­cie de seda­ti­vo para algu­mas dores cur­ti­das em soli­dão. Como de res­to fazem uma pon­ta de char­me na lite­ra­tu­ra… Mas per­de­ri­am qual­quer fun­ção dian­te do mais tri­vi­al enfren­ta­men­to da vida.

Octávio lan­ni: Em Lavoura arcai­ca, o ser­mão do pai-patri­ar­ca-patrão é um belís­si­mo monó­lo­go sobre o tem­po, sobre a impor­tân­cia da dura­ção da vida das coi­sas e das gen­tes: nas­cer, cres­cer, ama­du­re­cer, decli­nar, sucum­bir, renas­cer. Mas o tem­po, aqui, é uma metá­fo­ra do tra­ba­lho como dura­ção, exor­cis­mo, cas­ti­go e expi­a­ção. Gostaria que você comen­tas­se esta colo­ca­ção.

Raduan: A colo­ca­ção me pare­ce um pou­co dis­cu­tí­vel quan­do se leva em con­ta aque­le con­tex­to fami­li­ar e sua irre­cu­sá­vel car­ga de afe­to. Até mes­mo um tra­ba­lho con­tra­ta­do e cor­ri­quei­ro, den­tro de limi­tes, é um antí­do­to con­tra o maras­mo do tem­po, o que gra­ti­fi­ca e, por­tan­to, enfra­que­ce o seu cará­ter de cas­ti­go e expi­a­ção. No caso em que se é sujei­to e o tra­ba­lho é uma esco­lha, o bom tra­to com o tem­po seria rever­ti­do em recom­pen­sas, tema­ti­za­das por sinal naque­le ser­mão. Seja como for, não sei bem por onde tran­si­ta aque­la pre­ga­ção. Só mes­mo o modo de sen­tir de cada lei­tor.

José Paulo Paes: Num arti­go que escre­vi em 95 no Jornal da Tarde*, citei seu Lavoura arcai­ca como um dos pou­cos exem­plos de roman­ces bra­si­lei­ros nos quais se pode­ria falar em “anfi­bis­mo cul­tu­ral”. Você con­cor­da com isso?

Raduan: Não sei se enten­di bem a per­gun­ta, pois não li o arti­go. Em todo caso, arris­co lem­brar outra opi­nião, a de Alceu Amoroso Lima, que em arti­go no Jornal do Brasil achou que só de leve foi tra­ta­da a ques­tão da mis­ci­ge­na­ção, vale em par­te dizer, a dua­li­da­de cul­tu­ral. O mes­mo Alceu Amoroso Lima já tinha enfa­ti­za­do em outro momen­to o recur­so à tra­di­ção clás­si­ca medi­ter­râ­nea como atmos­fe­ra e con­tex­to da tra­gé­dia. Uma tra­di­ção que aca­bou abar­can­do todo aque­le fun­do de Mediterrâneo. O Maktub ára­be teria a ver com a impla­ca­bi­li­da­de do Destino gre­go. Por outro lado, a Europa medi­ter­râ­nea da Antiguidade teria pou­co a ver com o con­cei­to de Europa de hoje. Era todo um Mediterrâneo, euro­peu ou não, em pro­ces­so de inte­gra­ção cul­tu­ral. Seja como for, até que eu pen­se melhor sobre o assun­to, vou de anfí­bio mes­mo quan­to ao Lavoura.

* “Os dois mun­dos do filho pró­di­go”, São Paulo, 02.12.

Alfredo Bosi: Quando pen­so na sua pro­sa de fic­ção, sobre­tu­do em Lavoura arcai­ca, tenho em men­te um cer­to padrão for­mal repre­sen­ta­do pelo roman­ce de Graciliano Ramos, pelo tra­ba­lho esti­lís­ti­co de Osman Lins e em par­te pela pro­sa de Cyro dos Anjos e de Autran Dourado. Essas apro­xi­ma­ções fazem sen­ti­do quan­do você pro­cu­ra enten­der os seus pró­pri­os valo­res lite­rá­ri­os?

Raduan: São Bernardo, do Graciliano, O Amanuense Belmiro, do Cyro dos Anjos, e Uma vida em segre­do, do Autran Dourado, são lem­bran­ças que fazem par­te dos meus afe­tos. Quanto ao Osman, mais que qual­quer dos seus livros, é a lem­bran­ça dele que me acom­pa­nha, de quem esti­ve pró­xi­mo no seu últi­mo ano de vida. Nunca me deti­ve na apro­xi­ma­ção de valo­res lite­rá­ri­os, mas a qua­li­da­de des­sas lem­bran­ças tal­vez reve­le algum paren­tes­co.

Alfredo Bosi: No qua­dro da nar­ra­ti­va bra­si­lei­ra con­tem­po­râ­nea pos­te­ri­or a Guimarães Rosa e a Clarice Lispector, o que você con­si­de­ra mais sig­ni­fi­ca­ti­vo como rea­li­za­ção artís­ti­ca?

Raduan: Raramente leio algu­ma coi­sa. Seria uma levi­an­da­de eu citar três ou qua­tro nomes sem uma lei­tu­ra abran­gen­te do que tem sido publi­ca­do.

Marilena Chauí: Sua escri­ta tem o rit­mo, a cadên­cia e a ele­gân­cia da poe­sia, numa pro­sa na qual se entre­mei­am, nos momen­tos exa­tos, e num teci­do coe­so, o líri­co e o trá­gi­co, o líri­co e o épi­co, o cômi­co e o melancólico.Você escre­ve poe­si­as que ficam nas gave­tas ou deci­diu-se exclu­si­va­men­te pela pro­sa poé­ti­ca?

Raduan: Nunca escre­vi poe­sia. Não che­guei nem mes­mo a ensai­ar qual­quer coi­sa. Minhas gave­tas têm a tran­quei­ra das gave­tas comuns. Ou melhor, colo­quei em for­ma de ver­sos uma brin­ca­dei­ra cur­ta que leva o nome de “Ficção da boa”, tra­zen­do embai­xo uma adver­tên­cia entre parên­te­ses: (poe­mi­nha obs­ce­no).

Davi Arrigucci Jr.: Em con­tras­te com o que se dá na América his­pâ­ni­ca, apa­ren­te­men­te a expe­ri­ên­cia his­tó­ri­ca con­ta menos para a fic­ção bra­si­lei­ra. Como você vê a ques­tão?

Raduan: Não tenho recur­sos para ava­li­ar o que acon­te­ce.

CADERNOS: Você é um dos escri­to­res bra­si­lei­ros con­tem­po­râ­ne­os mais exi­gen­tes com a qua­li­da­de da lin­gua­gem no tex­to lite­rá­rio, em suma, com a expres­são for­mal. Em que medi­da e por que seu com­pro­mis­so com o rigor o apro­xi­ma ou dis­tan­cia dos escri­to­res ditos cons­tru­ti­vis­tas?

Raduan: Nunca pen­sei em expor qual­quer teo­ria a res­pei­to do meu min­gua­do tra­ba­lho, nem vejo sen­ti­do nis­so. Ou esse tra­ba­lho fala por ele mes­mo, sem o socor­ro de qual­quer supor­te teó­ri­co expo­si­ti­vo, ou deve ser des­car­ta­do. Acho que essa já é uma ati­tu­de intei­ra­men­te opos­ta à dos pro­ce­di­men­tos que você arro­la, o que blo­queia de par­ti­da qual­quer cote­jo. Enquanto escri­tor, se há inte­res­se em saber, tive sim três pre­o­cu­pa­ções: desen­vol­ver meu apren­di­za­do da lín­gua, um pro­ces­so que não aca­ba nun­ca; fazer lei­tu­ras per­ti­nen­tes de alguns auto­res, segun­do meus cri­té­ri­os; e fazer uma lei­tu­ra aten­ta da vida que acon­te­ce fora dos livros. Tem mais isso, no que fui radi­cal: não per­mi­tir que trans­for­mas­sem minha cabe­ça numa lata de lixo.

CADERNOS: Sua lite­ra­tu­ra vale-se mui­to das idei­as de “velo­ci­da­de”, “for­ça” e “vio­lên­cia”, que eram pre­cei­tos lite­rá­ri­os sus­ten­ta­dos por Marinetti nos mani­fes­tos futu­ris­tas. Ainda que exte­ri­or­men­te ape­nas, limi­ta­da ao aspec­to for­mal, essa apro­xi­ma­ção lhe pare­ce plau­sí­vel?

Raduan: Futurismo, cubis­mo, dadaís­mo, sur­re­a­lis­mo etc. Confesso que sou o exem­plo mais aca­ba­do de igno­rân­cia de tudo isso, por cons­ci­en­te desin­te­res­se. No bojo des­se desin­te­res­se se enun­ci­a­va qual­quer coi­sa assim: fui pos­to nes­te mun­do sem ter sido con­sul­ta­do, não espe­rem que eu vá con­sul­tar alguém sobre como fazer, na hora de eu expres­sar minha rejei­ção a tudo que está aí. Uma rejei­ção, aqui entre nós, tal­vez ingê­nua, coi­sas do ado­les­cen­te que fui.

CADERNOS: É difí­cil acre­di­tar que você tenha pas­sa­do ao lar­go da teo­ri­za­ção esté­ti­ca daque­les movi­men­tos todos. Você não teve nem mes­mo curi­o­si­da­de?

Raduan: Nem mes­mo curi­o­si­da­de. Me reme­ten­do só ao fim dos anos 50, quan­do eu já tinha mer­gu­lha­do de cabe­ça nos meus obje­ti­vos lite­rá­ri­os, havia, pelo menos em São Paulo, uma atmos­fe­ra cul­tu­ral cons­tran­ge­do­ra, com­pa­tí­vel em par­te com o que ocor­re­ria logo depois no pla­no polí­ti­co. Aliás, a pre­po­tên­cia veio a se ins­ta­lar con­for­ta­vel­men­te em mui­tas áre­as, além da lite­ra­tu­ra. Tudo bem que o Brasil todo já tinha um per­fil auto­ri­tá­rio bem antes do gol­pe mili­tar, mas na lite­ra­tu­ra tam­bém? Os jovens escri­to­res que não cedi­am às pro­pos­tas da épo­ca eram ini­bi­dos pela fal­ta de espa­ço. Se saí intei­ro daque­le pega-pra-capá é que eu não era lá mui­to sociá­vel, era até um tan­to rude, que não vies­sem pedir pro meu pes­se­guei­ro que pro­du­zis­se pitan­gas. Daí que igno­rei osten­si­va­men­te aque­las teo­ri­as todas que eram usa­das como ins­tru­men­to de pro­se­li­tis­mo, res­va­lan­do inclu­si­ve no engra­ça­do. Afinal, cru­za­das lite­rá­ri­as, por favor!

CADERNOS: Você não che­gou a ser asse­di­a­do para ade­rir àque­las pro­pos­tas?

Raduan: Nem podia, eu era um anô­ni­mo, como é que iam saber que eu me liga­va em lite­ra­tu­ra? Se bem que a bri­ga de foi­ce para arre­gi­men­tar segui­do­res era tão fer­re­nha que, ape­sar do meu ano­ni­ma­to, não era impos­sí­vel alguém de voz sedu­to­ra, tra­ves­ti­do de mon­ge, bater na minha por­ta e dizer: “Olha, nós que­ría­mos lhe mos­trar uns blo­qui­nhos pré-fabri­ca­dos, mui­to bem esqua­dre­ja­dos, pró­pri­os pra erguer pare­des bem apru­ma­das, temos até um pros­pec­to com a des­cri­ção com­ple­ta do pro­du­to. O sr. não quer par­ti­ci­par da ere­ção da nos­sa cape­la?” E estou usan­do aqui a expres­são do Euclides da Cunha só pra valo­ri­zar a mer­ca­do­ria. “Bloquinhos pré-fabri­ca­dos pra quê?” “Ereção da cape­la.” Eu, hem… “Passe ama­nhã.”

CADERNOS: Você não pare­ce ter saí­do tão ile­so assim des­sa atmos­fe­ra cul­tu­ral que aca­ba de des­cre­ver.

Raduan: Acho que se deve apro­xi­mar com cui­da­do de jovens escri­to­res, escri­to­res jovens são sem­pre por­ta­do­res de sonhos. Tudo bem que um dia vão cair na real, mas quan­do mui­to pode­mos dizer a eles: aven­tu­rem-se dian­te de uma folha em bran­co, façam o que lhes der na telha, esta­mos tor­cen­do por vocês, mas não lhes pro­por uma cami­sa-de-for­ça. Nada con­tra quem inven­ta sua pró­pria cami­sa-de-for­ça, só acho uma imper­ti­nên­cia pro­por a ter­cei­ros a mes­ma indu­men­tá­ria. Literatura é coi­sa mui­to pes­so­al. Infelizmente são pou­cos os jovens que se atre­vem a isso, mas com folha de teo­ria a gen­te faz uma boli­nha e man­da lon­ge com um pipa­ro­te.

CADERNOS: Por que essa ati­tu­de de recu­sa radi­cal em rela­ção às teo­ri­as lite­rá­ri­as? Você acre­di­ta que um autor pos­sa dis­pen­sá-las?

Raduan: Suponho que exis­ta em toda obra uma teo­ria sub­ja­cen­te do autor, poden­do ser apre­en­di­da pelos que even­tu­al­men­te se inte­res­sem por ela. Mas quan­do um escri­tor faz a expo­si­ção da sua teo­ria, para suprir de sig­ni­fi­ca­dos uma poé­ti­ca que não con­se­gue falar por ela mes­ma, acon­te­ce aí um evi­den­te desa­jus­te. A poé­ti­ca pre­ten­de ser revo­lu­ci­o­ná­ria por deses­tru­tu­rar a lin­gua­gem con­ven­ci­o­nal, só que seu autor, para expli­cá-la, aca­ba se socor­ren­do da mes­ma lin­gua­gem que usa­mos pra pedir um copo d’água, o que é o fim da pica­da. Ou então a teo­ria tem cumu­la­ti­va­men­te cará­ter pro­gra­má­ti­co com o cla­ro obje­ti­vo de arre­gi­men­tar segui­do­res. Mas, nes­se caso, o mio­lo da ques­tão é outro. Seria mais sen­sa­to então que esse escri­tor fun­das­se um par­ti­do polí­ti­co. Sem rodei­os.

CADERNOS: Mas as teo­ri­as não pode­ri­am estar pro­pon­do ino­va­ções?

Raduan: Acho que um tex­to efe­ti­va­men­te ino­va­dor, como tan­tos na his­tó­ria, pode acon­te­cer sem alar­de. Lima Barreto, que foi víti­ma de um assas­si­na­to cul­tu­ral em vida, como já dis­se­ram, redu­zi­do que foi ao silên­cio qua­se abso­lu­to, desen­ca­de­ou mudan­ças na lin­gua­gem nar­ra­ti­va antes de 22. Aliás, a melhor lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra não tem sido pro­du­zi­da aqui nes­te Estado, por que São Paulo faz tan­to baru­lho?

CADERNOS: Você pare­ce não ali­men­tar sim­pa­tia pelas van­guar­das. No entan­to, seu tex­to se apro­xi­ma mui­to de algu­mas con­quis­tas van­guar­dis­tas, como o flu­xo da cons­ci­ên­cia. Como expli­ca esta con­tra­di­ção?

Raduan:As idei­as estão no ar. Se assi­mi­lei uma e outra no meu tra­ba­lho, as tais con­quis­tas de que você fala, foi chei­ran­do invo­lun­ta­ri­a­men­te a atmos­fe­ra. Por deci­são mes­mo, sem­pre me man­ti­ve à dis­tân­cia de toda espe­cu­la­ção teo­ri­zan­te ou pro­gra­má­ti­ca, sobre­tu­do por uma ques­tão de assep­sia, que­ro dizer, para pre­ser­var algu­ma indi­vi­du­a­li­da­de da minha voz. Não ia arro­gân­cia nis­so. Se tives­se de me pau­tar pela lei­tu­ra de mani­fes­tos lite­rá­ri­os, eu jamais teria escri­to uma linha. Na épo­ca, já tinha sido decre­ta­da a mor­te do liris­mo, e eu não igno­ra­va essa pre­sun­ção. Quanto a não ali­men­tar sim­pa­tia pelas van­guar­das, de que van­guar­das você está falan­do? Daquelas que em vez de calor com “c” escre­vem kalor com “k”? Vai ver que você está falan­do das van­guar­das da Antiguidade, que fazi­am poe­mas em for­ma de ovo, de bola etc., pro­pi­ci­an­do ao Montaigne tirar o mai­or sar­ro delas.

CADERNOS: Você cer­ta­men­te leu James Joyce. Poderia ser vis­ta algu­ma res­so­nân­cia do monó­lo­go de Molly Bloom, do Ulisses, em Um copo de cóle­ra?

Raduan: Nunca li Joyce, mas já ouvi falar que tem gen­te que se pros­tra três vezes ao dia na dire­ção des­sa meca. Eu pen­sa­va que só muçul­ma­no é que fizes­se isso. Afinal, quem é esse cara? Dando uma apa­ren­te gui­na­da nes­se papo, aqui entre nós: a espé­cie huma­na mui­tas vezes tem das suas como só ela mes­ma! Estou pen­san­do no epi­só­dio que acon­te­ceu lá no Rio, quan­do um ins­pi­ra­do dei­xou uma ter­cei­ra mão impres­sa num qua­dro do Miró, que antes só tinha duas. O que se seguiu a isso me lem­brou a rea­ção ao pas­tor que chu­tou a san­ta. No caso do Miró, veio aque­la senho­ra do Museu de Madri, toda cor­re­ta, até pare­cia repre­sen­tan­te do Vaticano; depois foi o noti­ciá­rio que se pro­lon­gou por dias, entre­vis­tas e mais entre­vis­tas, fani­qui­to de alguns crí­ti­cos, espe­ci­a­lis­tas para res­tau­rar o ori­gi­nal, des­pe­sas sem fim pra res­ga­tar a here­sia. Achei o epi­só­dio ilus­tra­ti­vo por­que o nos­so cari­o­ca, mes­mo que à sua reve­lia, pôs a nu mui­ta babo­sei­ra: se o qua­dro tives­se duas, três, ou cin­co mãos, ou mes­mo se não tives­se nenhu­ma, tan­to fazia.

CADERNOS: Quanto ao seu comen­tá­rio sobre Miró, ima­gi­ne que um tra­du­tor ou mes­mo um edi­tor bra­si­lei­ro incluís­se numa edi­ção ou ree­di­ção de qual­quer um dos seus livros, fra­ses que não fos­sem de sua auto­ria. Você pre­ten­de suge­rir que isso não teria a menor impor­tân­cia?

Raduan: Acho que não fui cla­ro. Não fiz o elo­gio do ato, mas da ilus­tra­ção. A ter­cei­ra mão impres­sa no qua­dro do Miró nem pre­ci­sa­ria ter sido fei­ta com tin­ta, mas só com a ima­gi­na­ção. Essa é uma prá­ti­ca cor­ri­quei­ra entre os que fazem lei­tu­ras crí­ti­cas de tex­tos ou de qua­dros. No caso do Miró, pen­so, pois, que seria pre­ci­so dis­tin­guir o que era pas­sí­vel de cobran­ça judi­ci­al, do que só valia como ilus­tra­ção de uma crí­ti­ca. Mas havia outros con­teú­dos no rela­to que ten­tei, con­teú­dos de mai­or peso: pior do que cons­pur­car uma obra é alguém pros­trar-se de joe­lhos dian­te dela. Um casi­nho como aque­le ganhou a dimen­são de gran­de here­sia. É tudo mui­to obs­ce­no.

CADERNOS: Obsceno de que modo?

Raduan: Obsceno é toda miti­fi­ca­ção. Obsceno é dar um tama­nho às cha­ma­das gran­des indi­vi­du­a­li­da­des que reduz o homem comum a um inse­to. Obsceno é não fazer uma refle­xão pra valer sobre o con­cei­to de méri­to, divi­din­do tão mal o res­pei­to huma­no. Obsceno é pros­trar-se de joe­lhos dian­te de mitos que são usa­dos até mes­mo como ins­tru­men­to de domi­na­ção. Obsceno é abrir mão do exer­cí­cio crí­ti­co e men­tir tan­to.

CADERNOS: Você dis­se que não leu Joyce, mas você não acha que cer­tas lei­tu­ras são indis­pen­sá­veis para quem escre­ve?

Raduan: Seria um pres­su­pos­to fal­so achar que quem escre­ve deva fazer neces­sa­ri­a­men­te cer­tas lei­tu­ras. O pres­su­pos­to cor­re­to seria a lei­tu­ra da vida. Todo tex­to que con­se­gue pas­sar a vibra­ção da vida é um tex­to que vale, na minha opi­nião. Nesse sen­ti­do, entre os anti­gos, que jamais pode­ri­am ima­gi­nar a ava­lan­che de publi­ca­ções que ocor­re­ria dois milê­ni­os mais tar­de, há os que escre­ve­ram coi­sas mais inte­res­san­tes que as van­guar­das des­te sécu­lo, levan­do-se em con­ta que a espé­cie não mudou de lá até os nos­sos dias. Se são mais inte­res­san­tes, é por­que eles tive­ram pou­ca expe­ri­ên­cia livres­ca, punham um olhi­nho nos per­ga­mi­nhos e um Baita Olhão na vida.

CADERNOS: Você acre­di­ta efe­ti­va­men­te que a espé­cie não mudou nes­ses dois milê­ni­os?

Raduan: Acho que seria um equí­vo­co recor­rer a usos e cos­tu­mes como cri­té­rio de ava­li­a­ção de mudan­ças huma­nas. Que eu sai­ba, a espé­cie con­ti­nua igual­zi­nha ao que era antes, cada indi­ví­duo fazen­do o cami­nho de sem­pre, que vai de san­to a cape­ta. O que acon­te­ce nes­se per­cur­so é nos­so patrimô­nio.

CADERNOS: E o que acon­te­ce nes­se per­cur­so?

Raduan: Sacanagem, inve­ja, gene­ro­si­da­de, amor, vio­lên­cia, ódio, sen­su­a­li­da­de, inte­res­se, mes­qui­nhez, bon­da­de, egoís­mo, fé, angús­tia, medo, ambi­ção, ciú­me, pre­po­tên­cia, humi­lha­ção, inse­gu­ran­ça, men­ti­ra e por aí afo­ra, mas sobre­tu­do pas­si­o­na­li­da­de, além do eter­no espan­to com a exis­tên­cia. É este o patrimô­nio da espé­cie. Mas não será sur­pre­sa se alguém logo mais, pas­san­do por cima dis­so, pegar um fio elé­tri­co com um plu­gue em cada pon­ta, enfi­ar um plu­gue no com­pu­ta­dor e o plu­gue da outra pon­ta não sei onde, e sair alar­de­an­do por aí que é o dono exclu­si­vo da moder­ni­da­de, em mais um des­do­bra­men­to da esté­ti­ca do baga­ço. Que se aven­tu­re dian­te de uma tela em bran­co, faça o que lhe der na telha, esta­mos tor­cen­do tam­bém por esse escri­tor ele­trô­ni­co. Só incor­po­re, se pos­sí­vel, um pou­co de dúvi­da como ins­tru­men­to de tra­ba­lho. Aliás, de onde é que tiram tan­ta segu­ran­ça quan­do apon­tam este ou aque­le cami­nho a seguir? Fico assus­ta­do com tama­nha segu­ran­ça. Nem as ciên­ci­as exa­tas pro­ce­dem assim, lon­ge dis­so. E depois, todas essas dis­pu­tas por valo­res esté­ti­cos são fei­tas em nome do quê? Que é que acres­cen­tam na zor­ra que é este mun­do? É a espé­cie que tem melho­ra­do com isso? Ou que­rem ser reco­nhe­ci­dos como a eli­te? É isso o que que­rem? Sentem-se mais segu­ros, mais feli­zes assim? Ótimo. No que me toca, como bom cai­pi­ra, lhes con­ce­do sem qual­quer difi­cul­da­de o títu­lo de aris­to­cra­tas.

Alfredo Bosi:Você vê a si mes­mo como um escri­tor que resis­te às inves­ti­das da pós-moder­ni­da­de ou como alguém que entra natu­ral­men­te em diá­lo­go com o seu tem­po?

Raduan: Não con­se­gui apre­en­der o con­cei­to de pós-moder­ni­da­de, por­que per­di o inte­res­se por esses assun­tos. Sei que é difí­cil abrir um jor­nal e não esbar­rar nes­sa nova enti­da­de. Se esti­ves­se liga­do em lite­ra­tu­ra, pro­va­vel­men­te teria pos­to mais empe­nho na coi­sa. Como o mun­do não come­ça e ter­mi­na na lite­ra­tu­ra, arris­co dizer que estou em diá­lo­go com meu tem­po, só que no ter­re­no da agri­cul­tu­ra. Os pós-moder­nos que me des­cul­pem, mas isso pro­va que pode­mos viver pas­san­do ao lar­go das suas pre­o­cu­pa­ções.

CADERNOS:Você teve, de fato, influên­ci­as do nou­ve­au roman, espe­ci­al­men­te em Um copo de cóle­ra, como suge­ri­ram algu­mas rese­nhas?

Raduan: Tive conhe­ci­men­to do nou­ve­au roman nos anos 60 atra­vés de uma série de arti­gos que a Leyla Perrone-Moisés publi­cou sobre o assun­to, nos bons tem­pos do “Suplemento Literário” do Estadão. Logo em segui­da fui à Livraria Francesa e enco­men­dei uns sete ou oito títu­los, todos cata­dos daque­le apa­nha­do fei­to no “Suplemento”. Assim que os livros me che­ga­ram às mãos, li de enfi­a­da três deles, esta­va ansi­o­so por con­fe­rir. Mas foi pre­ci­so mobi­li­zar toda minha boa von­ta­de pra levar a cabo a emprei­ta­da. Li inclu­si­ve o Les Gommes, do Robbe-Grillet, que me pare­ceu bem cons­truí­do, que­ro dizer, cons­truí­do assim como uma cara-veli­nha den­tro de uma gar­ra­fa. Você olha pra cara­ve­li­nha e o seu pri­mei­ro olhar é de admi­ra­ção; não demo­ra e você olha de novo e o segun­do olhar já é de puro enfa­do. Apesar das des­cri­ções de uma plas­ti­ci­da­de visu­al notá­vel, o tex­to era tão frio que pre­ci­sei cobrir os ombros com minha man­ta de lã enquan­to lia. Era uma lite­ra­tu­ra mui­to civi­li­za­da, daí que deci­di­da­men­te não era a minha. Mas pode ter dei­xa­do algu­ma mar­ca.

CADERNOS: Uma par­te da crí­ti­ca afir­ma que não con­se­gue detec­tar influên­ci­as em sua lite­ra­tu­ra, outra faz as mais desen­con­tra­das apro­xi­ma­ções: André Gide, Graciliano Ramos, Dostoiévski, Joyce, Jorge de Lima,Albert Camus, Lúcio Cardoso, William Faulkner, além de outros. Afinal, quais foram as suas influên­ci­as?

Raduan: Por onde ia pas­san­do, fui tiran­do uma las­qui­nha, de arti­go de jor­nal, fis­ga­va até ideia de um bom papo. Nunca pen­sei num escri­tor deter­mi­na­do, como se só nele é que esti­ves­se a mina. É que acha­va que qual­quer autor iso­la­do era sem­pre mui­to peque­no per­to da com­ple­xi­da­de infi­ni­ta da vida. Mas tam­bém não pre­ci­sa­vam exa­ge­rar nas apro­xi­ma­ções que já fize­ram. Até dos con­cre­tos já me apro­xi­ma­ram, pode?

CADERNOS: A apro­xi­ma­ção com os con­cre­tos inco­mo­da?

Raduan: De modo algum, são boas pra­ças, só que já esta­ri­am em outra hoje. Resta saber tam­bém se eles con­se­gui­ri­am engo­lir um para­le­le­pí­pe­do líri­co como eu. Aliás, se quei­mou mui­ta vela nes­sa con­ver­sa com teó­ri­cos e teo­ri­as. Mas já que você vol­tou ao assun­to, devo dar minha mão à pal­ma­tó­ria. Afinal, que cul­pa têm os pro­fe­tas além de bran­dir o caja­do? Nenhuma. No ritu­al da cas­tra­ção, foram sem­pre os segui­do­res que deram em ofe­ren­da seus pró­pri­os tes­tí­cu­los. Foi sem­pre assim, de mão bei­ja­da, numa ban­de­ja de pra­ta. Justiça seja fei­ta, com a mão em cima da Bíblia.

Leyla Perrone-Moisés: Você acha que a crí­ti­ca lite­rá­ria pode ter algu­ma influên­cia nas obras sub­se­quen­tes de um escri­tor?

Raduan: Caberia a cada escri­tor dar a sua res­pos­ta. No meu caso, não deu tem­po. Quando fiz minha estreia com o Lavoura, já tinha escri­to minha obra com­ple­ta… Vantagens de quem escre­ve cur­to.

Leyla Perrone-Moisés: Sua obra teve sem­pre uma recep­ção favo­rá­vel por par­te da crí­ti­ca espe­ci­a­li­za­da. Como você rece­be­ria uma opi­nião crí­ti­ca des­fa­vo­rá­vel?

Raduan: Também não deu tem­po pra sen­tir essa bar­ra. Em todo caso, pen­so que a ques­tão da ava­li­a­ção de um tex­to seja menos um pro­ble­ma do escri­tor e mais um pro­ble­ma do crí­ti­co. Aliás, o crí­ti­co por­tu­guês Eduardo Lourenço tem uma saca­da pri­mo­ro­sa a pro­pó­si­to: não é o crí­ti­co que jul­ga a obra, mas a obra é que jul­ga o crí­ti­co. Sem qual­quer arro­gân­cia.

Davi Arrigucci Jr.: Que papel, afi­nal, você atri­bui à crí­ti­ca?

Raduan: Se digo o que pen­so, vou ser con­de­na­do como escri­tor ad aeter­ni­ta­tem; se não digo o que pen­so, eu mes­mo vou me con­de­nar ad aeter­ni­ta­tem. Você que é espe­ci­a­lis­ta no assun­to, des­con­fio que pela pri­mei­ra vez você este­ja dian­te de um escor­pião ver­da­dei­ra­men­te enca­la­cra­do. Sugiro pois que você reti­re a per­gun­ta e eu, do meu lado, reco­lha meu fer­rão enga­ti­lha­do. Faça isso por este pobre escor­pião.

CADERNOS: Para quem não se impor­ta mais com a lite­ra­tu­ra, qual o pro­ble­ma de ser con­de­na­do como escri­tor ad aeter­ni­ta­tem?

Raduan: Era óbvia minha inten­ção de armar uma brin­ca­dei­ra com o autor de O escor­pião enca­la­cra­do. Agora, se você acha que o aban­do­no da lite­ra­tu­ra não foi bem resol­vi­do no meu caso, vai ver que não foi mes­mo. Mas e daí que fica­ram rebar­bas? A obra bem-aca­ba­da é uma fic­ção.

CADERNOS: “É com as boas inten­ções que se faz a má lite­ra­tu­ra”. Você con­cor­da com essa afir­ma­ção de André Gide?

Raduan: A tira­da é clás­si­ca, vale pelo enun­ci­a­do, só que a obra do pró­prio Gide, que é mui­to boa, teria sido fei­ta com boas inten­ções. Se o Gide ain­da vives­se, ele que era bem ante­na­do no huma­nis­mo, não seria impos­sí­vel que ele hoje paro­di­as­se a si mes­mo: é com as boas teo­ri­as, ou nem tan­to, que se faz a má lite­ra­tu­ra.

CADERNOS: Não exis­tem bons escri­to­res que tam­bém sejam bons teó­ri­cos da lite­ra­tu­ra?

Raduan: Suponho que exis­tam, mas não pelas nos­sas ban­das. Como devem exis­tir maus escri­to­res que tam­bém sejam maus teó­ri­cos, e isso é bem mais visí­vel. Como de res­to exis­ti­ria boa lite­ra­tu­ra fei­ta com boas inten­ções, ao con­trá­rio do que dis­se o Gide. Agora, bons escri­to­res com teo­ria de emprés­ti­mo, aí a coi­sa se com­pli­ca, me pare­ce mais uma fan­ta­sia como enxer­to de beter­ra­ba com melan­cia.

CADERNOS: Por que você acha que Gide faria hoje aque­la afir­ma­ção sobre as teo­ri­as?

Raduan: Parece que as artes de um modo geral ain­da não se refi­ze­ram do impac­to que sofre­ram com o êxi­to das ciên­ci­as de um sécu­lo para cá. O impac­to foi tão for­te que trou­xe até ris­co de vida para as artes. Tentaram imi­tar pro­ce­di­men­tos, fala­ram em téc­ni­ca com algum exa­ge­ro, enfa­ti­za­ram a razão de for­ma exor­bi­tan­te, como se a pro­du­ção de um poe­ma deves­se acon­te­cer no âmbi­to de um labo­ra­tó­rio. Como de res­to a impor­tân­cia que veio sen­do atri­buí­da à teo­ri­za­ção lite­rá­ria, trans­for­ma­da em pres­su­pos­to da pró­pria pro­du­ção. A coi­sa pare­ce que tinha vira­do arre­me­do.

CADERNOS: Você está que­ren­do dizer que o con­cur­so da razão não con­ta na ela­bo­ra­ção lite­rá­ria?

Raduan: Certamente que não dis­se isso. Mas dos escri­to­res que dizi­am cul­tu­ar a razão como ins­tru­men­to assép­ti­co, e até cirúr­gi­co, capaz inclu­si­ve de expur­gar emo­ci­o­na­lis­mos em seus tra­ba­lhos, quan­tos deles teri­am alcan­ça­do o nível de refle­xão, ou de raci­o­na­li­da­de, de um autor de roman­ces pas­si­o­na­lís­si­mos como foi Dostoiévski? Aliás, de que razão esta­mos falan­do? Você está pen­san­do nas mate­má­ti­cas, da razão que atua nas cha­ma­das ciên­ci­as exa­tas? Se é nis­so, caí­mos de novo no arre­me­do. Então, o sujei­to, antes de escre­ver, colo­ca sobre sua mesa de tra­ba­lho a régua, o com­pas­so, o trans­fe­ri­dor, o esqua­dro, a tabe­li­nha de raiz qua­dra­da, tudo isso ao lado do com­pu­ta­dor, de últi­ma gera­ção, cla­ro. Não é nem arre­me­do, seria um pro­ce­di­men­to cari­ca­to. Os temas que ele­ge­mos, o reper­tó­rio de pala­vras que usa­mos, além de outros com­po­nen­tes da escri­ta, tudo isso pas­sa pela tri­a­gem dos nos­sos afe­tos. A lite­ra­tu­ra não pre­ci­sa ras­tre­ar as ciên­ci­as exa­tas, nem vejo como, lite­ra­tu­ra é outro papo.

CADERNOS: A que você está se refe­rin­do quan­do diz que a lite­ra­tu­ra “é outro papo”?

Raduan: Só um exem­plo — supo­nho que até mes­mo um exe­cu­ti­vo, por mais enqua­dra­do que seja, tenha um ins­tan­te em que ele pen­se em esca­par de sua roti­na buro­crá­ti­ca, ou em que ele per­ca suas refe­rên­ci­as, ou mes­mo que deli­re, ou lhe pas­se até pela cabe­ça ati­rar-se pela jane­la do apar­ta­men­to. Isso me faz lem­brar daque­le ban­cá­rio linha jus­ta, per­so­na­gem do Hermann Hesse, que dá um des­fal­que no ban­co em que tra­ba­lha­va e se refu­gia numa aldeia ita­li­a­na do Adriático. Quando as for­mas de con­tro­le da indi­vi­du­a­li­da­de se apri­mo­ram, impos­sí­vel ima­gi­nar hoje o que acon­te­cia anti­ga­men­te num cais de por­to. Um anô­ni­mo qual­quer, em tro­ca de tra­ba­lho, embar­ca­va num navio com des­ti­no des­co­nhe­ci­do, sem qual­quer for­ma­li­da­de buro­crá­ti­ca. Esses ins­tan­tes de sen­ti­men­to de eva­são, de delí­rio, de angús­tia exas­pe­ra­da em rela­ção a uma ordem que enqua­dra e opri­me, esses ins­tan­tes ain­da não aban­do­na­ram nos­so ima­gi­ná­rio. Pensando em situ­a­ções como essas é que tenho difi­cul­da­de para enten­der cer­tos pro­ce­di­men­tos trans­plan­ta­dos pra lite­ra­tu­ra, quan­do se recor­re inclu­si­ve a cál­cu­los de raiz qua­dra­da, como fez um crí­ti­co na sua aná­li­se de um roman­ce, ten­tan­do trans­fe­rir pro seu tra­ba­lho o pres­tí­gio das mate­má­ti­cas. No fun­do, um buro­cra­ta como tan­tos outros, que aju­dam a ante­ci­par o dia em que tere­mos de sair às ruas com um núme­ro estam­pa­do no pei­to, res­tan­do a clan­des­ti­ni­da­de como úni­co espa­ço onde pode­re­mos exer­cer nos­so huma­nis­mo ago­ni­zan­te.

CADERNOS: Mas então como con­vi­vem, nos seus tex­tos lite­rá­ri­os, a razão e as pai­xões?

Raduan: Veja bem — nos meus deze­no­ve anos, tive dois encon­tros mui­to fecun­dos, esbar­rei pri­mei­ro nos sofis­tas, aque­les tra­pa­cei­ros da Antiguidade, que se encar­re­ga­ram na épo­ca de des­mo­ra­li­zar o uso da razão; e esbar­rei tam­bém num mau-cará­ter que viveu mui­tos sécu­los mais tar­de, um empi­ris­ta inglês, conhe­ci­do pelos seus calo­tes, mas que con­tri­buiu deci­si­va­men­te pra meto­do­lo­gia cien­tí­fi­ca. Quanto aos sofis­tas, meu entro­sa­men­to com eles tinha a ver com a minha pró­pria prá­ti­ca. Numa dis­cus­são, por exem­plo, não ia mais que o tem­po de eu sacar qual era a do meu inter­lo­cu­tor pra ime­di­a­ta­men­te defen­der a tese con­trá­ria. Me entre­guei por mui­tos anos a esse jogo, e fazia isso com ardor, com pai­xão, e se por aca­so meu inter­lo­cu­tor che­gas­se até a minha, eu ime­di­a­ta­men­te pas­sa­va a defen­der sua tese ori­gi­nal. Afinal, eu tam­bém pen­sa­va, quan­do esbar­rei nos sofis­tas, que a razão não era exa­ta­men­te aque­la don­ze­la cheia de fres­cor que aca­ba de sair de um banho numa tar­de de verão. Ao con­trá­rio, era uma dama expe­ri­en­te que não resis­tia a uma úni­ca can­ta­da, vies­se de onde vies­se, con­ce­den­do inclu­si­ve os seus favo­res a quem pre­ten­des­se come­ter um cri­me. O apor­te éti­co, que ten­ta­ram colar nela des­de os tem­pos anti­gos, lhe é total­men­te estra­nho. A razão não é sele­ti­va, ela tra­ça de tudo. Acho mes­mo que a razão é uma belís­si­ma puta­na, mas vem daí o seu gran­de char­me, se bem que esse char­me venha mais da sua humil­da­de, pas­san­do lon­ge da arro­gân­cia de cer­tos raci­o­na­lis­tas. E quan­do você lida com valo­res, e estou falan­do da razão que atua no mun­do dos valo­res, e a fic­ção é um espa­ço pri­vi­le­gi­a­do pra isso; e quan­do de enfi­a­da ain­da entram for­tes com­po­nen­tes pas­si­o­nais, e entram neces­sa­ri­a­men­te, pra não falar de algum mis­ti­cis­mo como con­di­men­to, então a com­pa­nhia da razão pode ser um acon­te­ci­men­to.

CADERNOS: O per­so­na­gem-nar­ra­dor de Um copo de cóle­ra seria uma ilus­tra­ção do que você aca­ba de des­cre­ver? Afinal, esse per­so­na­gem não só for­ja uma ence­na­ção, como as pala­vras tra­pa­ça e tra­pa­cei­ro estão pre­sen­tes no tex­to, numa atmos­fe­ra de alta emo­ti­vi­da­de.

Raduan: Talvez a res­pos­ta só pudes­se ser encon­tra­da no pró­prio tex­to.

Marilena Chauí: Você fez filo­so­fia. Foi por cau­sa da lite­ra­tu­ra que você fez filo­so­fia, ou você “pas­sou” de uma para outra? É bem ver­da­de que Borges diz que a filo­so­fia per­ten­ce ao cam­po da fic­ção e, nes­te caso, não have­ria por que pas­sar de uma para a outra. Ou não é isso?

Raduan: Penso já ter res­pon­di­do pelo menos em par­te a essa per­gun­ta, quan­do fala­va dos sofis­tas e da razão que atua no mun­do dos valo­res e dos con­teú­dos pas­si­o­nais sub­ja­cen­tes nes­sa refle­xão. Mas do pon­to de vis­ta dos fatos, só me deci­di pelo cur­so de filo­so­fia quan­do dei con­ta de que minha con­ta­mi­na­ção lite­rá­ria já era um caso irre­cu­pe­rá­vel. Na épo­ca, eu não conhe­cia a saca­da do Borges, que acho óti­ma.

CADERNOS: Quanto ao empi­ris­ta inglês, sabe­mos que se tra­ta de Francis Bacon, pois você já falou dele em outras oca­siões. Por que ele teve tan­ta impor­tân­cia na sua for­ma­ção?

Raduan: Bacon sacou uma coi­sa mui­to sim­ples, sim­ples como outras gran­des saca­das na his­tó­ria. Colocou sob sus­pei­ção o que ele cha­ma­va de ido­la, ou ído­los, que, segun­do ele, eram entra­ves para se che­gar ao conhe­ci­men­to. Abreviando as coi­sas, ele arro­lou entre os ido­la os juí­zos de auto­ri­da­de, ou seja, aque­las afir­ma­ções que vinham acom­pa­nha­das com for­ça de ver­da­de só por­que tinham sido fei­tas por pes­so­as que goza­vam de gran­de pres­tí­gio inte­lec­tu­al. Então, Aristóteles pode­ria ter dito uma bes­tei­ra na sua his­tó­ria natu­ral, mas essa bes­tei­ra atra­ves­sa­va sécu­los como ver­da­de só por­que tinha sido dita por Aristóteles. E o que o Bacon pro­punha é que não seria pos­sí­vel fazer ciên­cia sem veri­ficar atra­vés da inves­ti­ga­ção expe­ri­men­tal cer­tas ver­dades, que só pas­sa­vam por ver­da­des pela autori­dade dos seus auto­res. Com essa coi­sa tão sim­ples ­mas um sim­ples que pra agüen­tar a mão é pre­ci­so cará­ter — Bacon ala­van­cou a vira­da dos inci­pi­en­tes pro­ce­di­men­tos cien­tí­fi­cos, deu uma con­tri­bui­ção deci­si­va pra meto­do­lo­gia da épo­ca. Agora, se Bacon podou a pra­ga em áre­as pas­sí­veis de veri­fi­ca­ção, em áre­as adja­cen­tes, que são o mun­do dos valo­res, onde não se con­se­gue ultra­pas­sar os limi­tes da opi­nião, a pra­ga rebro­tou, qua­tro sécu­los depois, com uma viru­lên­cia capaz até de com­pro­me­ter vidas huma­nas. Cinco minu­tos de um pres­ti­gi­o­so jor­nal de tevê, pres­tí­gio para o qual cen­te­nas de ato­res dão o melhor do seu talen­to, são capa­zes de fazer a cabe­ça de uma popu­la­ção. No com­par­ti­men­to dos valo­res esté­ti­cos, que são uma titi­ca per­to dis­so, a coi­sa não é dife­ren­te. Nesta área, é raro alguém ques­ti­o­nar o que vem embru­lha­do de pres­tí­gio e auto­ri­da­de, reve­ren­ci­am-se mitos de modo obs­ce­no, daí que tem gen­te que fala em Joyce ou em Pound e pare­ce que está dan­do cria. Aliás, as vacas lá na fazen­da são bem mais dis­cre­tas em hora tão crí­ti­ca. Como você vê, o que acon­te­ceu comi­go acon­te­ce nas melho­res famí­li­as. Na minha ado­les­cên­cia andei em más com­pa­nhi­as, tra­pa­cei­ros e calo­tei­ros, mas de que tra­go boas lem­bran­ças por terem suge­ri­do pos­tu­ras para a refle­xão. Os tra­pa­cei­ros atu­an­do no mun­do tur­vo dos valo­res, o calo­tei­ro, na linha reta da inves­ti­ga­ção obje­ti­va, os dois atu­an­do em áre­as tão dife­ren­tes, mas con­ver­gin­do, e como!, na cabe­ça de um jovem que pre­ten­deu um dia fazer lite­ra­tu­ra com liber­da­de. Se é que isso seja pos­sí­vel.

CADERNOS: Atualmente suas pre­o­cu­pa­ções são outras. O tem­po se encar­re­gou de disper­sar seu gru­po de ami­gos e você aca­bou tro­cando a lite­ra­tu­ra pela ati­vi­da­de rural. Como é sua vida hoje?

Raduan: Hoje minha vida é fazer, fazer, fazer, no âmbi­to da fazen­da evi­den­te­men­te, num espa­ço em cons­tan­te trans­for­ma­ção, o que não dei­xa de ser uma outra for­ma de escre­ver. Além dis­so, tem em comum com a lite­ra­tu­ra o fato de eu não saber por quê. Então, é fazer, fazer, fazer.

CADERNOS: Fazendo um balan­ço da sua traje­tória como escri­tor, você diria que a litera­tura lhe pro­por­ci­o­nou mais ale­gri­as ou mais tor­men­tos?

Raduan: As duas coi­sas. Os tor­men­tos esta­vam li­gados à fal­ta de espa­ço para eu escre­ver. Éramos doze moran­do num apar­ta­men­to de três dor­mitórios, daí que eu lia ou estu­da­va em bibliote­cas. Fui dis­por des­se espa­ço só mais tar­de, mas antes dis­so a mesa onde eu pudes­se escre­ver aca­bou viran­do uma obses­são. Até que um dia minha situ­a­ção econô­mi­ca mudou e che­guei a esta mesa aqui, onde cabia toda minha tran­quei­ra. Minhas ale­gri­as, tam­bém, estão mais liga­das ao espa­ço con­fi­na­do da mesa. Me sen­tei pou­cas vezes para escre­ver, mas quan­do fazia isso, ia com mui­ta sede ao pote. Eu vibra­va quan­do che­ga­va per­to do que que­ria, tudo entre­me­a­do de idas e vin­das. Mas dei­xa pra lá, que tudo isso já rolou. Se pudes­se naque­le tem­po ter ante­ci­pa­do o balan­ço rigo­ro­so que aca­bei fazen­do depois, tal­vez não tives­se nem come­ça­do. Já foi.

CADERNOS: Por que você colo­ca as coi­sas nes­ses ter­mos?

Raduan: O Hamilton Trevisan dizia que continua­mos na vida adul­ta a reci­tar “Batatinha quan­do nas­ce”, espe­ran­do por aplau­sos. Ele fala­va isso com mui­ta gra­ça, imi­tan­do a meni­na que puxa as pon­tas da saia para os lados e cur­van­do o cor­po pra fren­te com fal­sa modés­tia ao agra­de­cer os aplau­sos. A gen­te ria mui­to cada vez que ele imi­ta­va a meni­na, mas todos nós con­ti­nuá­va­mos a inves­tir na nos­sa “bata­ti­nha”. E há quem diga tam­bém que a dife­ren­ça entre o adul­to e a cri­an­ça está só no tama­nho do brin­que­do. Comecei a me per­gun­tar num cer­to momen­to por que expor em públi­co o meu brin­que­do. O que há de lúdi­co numa ativi­dade você trans­fe­re para outra com cer­ta facili­dade, des­de que você seja sujei­to do seu tra­ba­lho. E come­cei a achar que pode­mos tra­ba­lhar tam­bém de modo mais ade­qua­do esse nos­so lado nar­ci­sis­ta. Mas tal­vez as coi­sas não sejam tão sim­ples assim.

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