A hora da comédia, a comédia da hora

“Numa terra radiosa vive um povo triste”, escreveu celebremente Paulo Prado no começo de seu Retrato do Brasil. Talvez por isso tenhamos tanta necessidade de rir – de nós mesmos, por suposto. No atual e conturbado momento em especial, as comédias estão com tudo: dos dez filmes brasileiros de maior bilheteria em 2016, nada menos que sete pertencem ao gênero. O fenômeno da hora é Minha mãe é uma peça 2, de César Rodrigues, que já passou dos seis milhões de espectadores.

O sonho recauchutado

E o que chama a atenção é justamente o modo como Hollywood, de tempos em tempos, a pretexto de questionar ou problematizar seus clichês, acaba por reafirmá-los. Em La la land essa operação abarca alguns dos mais recorrentes lugares-comuns do imaginário americano: a máxima de que vale a pena “acreditar em seus sonhos”, a ideia de que no meio da multidão há alguém especial para cada pessoa, o mito do self made man (ou woman). Não há nada de muito revolucionário aqui, portanto.

Não é mole, não

Corria o ano de 1957 e o fotógrafo Otto Stupakoff, então instalado no Rio de Janeiro, encomendou ao amigo e arquiteto Sergio Rodrigues um sofá confortável, no qual pudesse se “refestelar” em seu estúdio da Rua Sambaíba, no Leblon. A história é conhecida, mas merece ser sempre lembrada porque também fez História: do “sofazão do Otto”, como Rodrigues chamou o projeto, para a criação da poltrona Mole, um ícone do mobiliário brasileiro e internacional ainda hoje, 60 anos depois de seu lançamento, foi um pequeno passo. Ou traço.

Liberdade e luta

John Berger, falecido no último dia 2, não se contentava com pouco. Aliás, pouco se contentava. Era um radical, no melhor sentido do termo. Desde seu combativo, e delicioso, primeiro livro de ensaios críticos, nunca deixou de denunciar a ganância por poder, dinheiro e celebridade que põe em perigo os valores mais essenciais da humanidade, nem poupou as manobras de um meio cultural que busca enredar a arte em tramas e discursos capazes de esvaziá-la de seu sentido crítico e alinhá-la com os interesses de quem o controla. Tal procedimento, ele nomeava, em alto e bom som marxista, como ‘mistificação’. Arte, para Berger, era liberdade e luta.

Encontro com Dois irmãos

Em 2001, Milton Hatoum participou da série O escritor por ele mesmo, promovida pelo IMS. Na ocasião, leu trechos do primeiro livro, Relato de um certo Oriente, vencedor do Jabuti de melhor romance, e também do igualmente premiado Dois irmãos, que chega às telas da TV Globo nesta segunda-feira, dia 9, na minissérie homônima com texto da roteirista Maria Camargo e direção artística de Luiz Fernando Carvalho.

Dois olhares sobre as ruínas

O ano cinematográfico começa bem. Dois filmes de pungente atualidade estão em cartaz nos cinemas brasileiros: O que está por vir, de Mia Hansen-Løve, Urso de Prata de melhor direção em Berlim, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, Palma de Ouro em Cannes. São bem distintos em termos de temática, ambientação e estilo, mas talvez haja entre eles um ponto comum: a angústia diante dos rumos que a vida está tomando na Europa e no mundo.

Os filmes de janeiro

Fique por dentro da programação completa para janeiro da Sala José Carlos Avellar, o cinema do Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, com datas e horários das exibições e instruções para compra de ingressos. Um dos destaques é Elle, de Paul Verhoeven, com Isabelle Huppert (foto).

Caixa de música

Se boas histórias costumam render boas imagens, belas imagens também podem inspirar, por si só, novas e distintas narrativas. A partir desta ideia estreia hoje no Blog do IMS a seção Primeira vista, que levará ao leitor textos inéditos escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do IMS. A cada mês um escritor será convidado a criar um breve texto de ficção sobre uma foto, da qual não terá informação alguma, nem a identidade do fotógrafo ou a data e lugar em que foi feita.  O gaúcho Paulo Scott é o autor do primeiro texto, a prosa poética Caixa de música, inspirado em uma obra de Otto Stupakoff.

2016, entre sinistro e sublime

Num ano de grandes traumas no Brasil e no mundo, o cinema, se não serviu para consertar nada, ao menos nos ajudou a manter aguçados o olhar e a sensibilidade. Atendo-nos aos títulos lançados no circuito comercial, alguns veteranos fundamentais (Bellocchio, Verhoeven, Almodóvar, Clint Eastwood, Woody Allen) marcaram presença, ao lado de estreantes promissores, como Robert Eggers, do surpreendente A bruxa.