Em nome da filha

Escrito em junho de 2016, o tre­cho abai­xo é o pró­lo­go do meu pró­xi­mo roman­ce, ain­da sem nome defi­ni­ti­vo, que tem como temas prin­ci­pais a ali­e­na­ção paren­tal e a lega­li­za­ção das dro­gas. Como pano de fun­do, a dis­pu­ta pelo con­tro­le do nar­co­trá­fi­co dos anos 1970 até os dias de hoje, em espe­ci­al na região amazô­ni­ca, a cor­rup­ção nos Três Poderes e o esta­do poli­ci­al rumo ao qual cami­nha­mos.

Contar uma boa história

Nada no cla­mor para que auto­res vol­tem a “con­tar uma boa his­tó­ria” faz sen­ti­do. Mesmo a lite­ra­tu­ra comer­ci­al, ain­da que sem qual­quer enge­nho e de for­ma tor­ta e tênue, diz algo sobre si mes­ma. Quando auto­res dis­pos­tos a expe­ri­men­tar com a lite­ra­tu­ra de gêne­ro des­lo­cam o foco da reso­lu­ção para a inves­ti­ga­ção, não raro o resul­ta­do é ins­ti­gan­te.  Quase todas as expe­ri­ên­ci­as reve­lam a rela­ção com­ple­xa, mas estrei­ta, entre inves­ti­ga­ção e sig­nos, lin­gua­gem, lite­ra­tu­ra.

Mundo em ruínas, cinema vivo

Mesmo num mer­ca­do exi­bi­dor estran­gu­la­do como o nos­so, o cine­ma bra­si­lei­ro às vezes encon­tra bre­chas para nos reve­lar boas sur­pre­sas. É o caso de três fil­mes de dire­to­res estre­an­tes em lon­gas-metra­gens que estão em car­taz no país. São bem dife­ren­tes entre si em temá­ti­ca, lin­gua­gem nar­ra­ti­va e tama­nho de pro­du­ção, mas, cada um à sua manei­ra, tra­zem um novo alen­to para os ciné­fi­los.

A ruína da mente adolescente

Se nos fos­se dado esco­lher um autor como farol da ima­tu­ri­da­de, um olho mal-humo­ra­do fixo nes­ta ter­ra de memes e vide­o­cli­pes tumul­tu­a­dos por bun­das e car­ros pos­san­tes, Witold Gombrowicz seria o mais apro­pri­a­do. Sua fic­ção lida como nenhu­ma outra com a tran­si­ção entre a cri­an­ça e o adul­to, e com as cica­tri­zes que ela pode dei­xar no cor­po enve­lhe­ci­do. O últi­mo fil­me de Andrzej Żuławski foi uma adap­ta­ção de Cosmos, roman­ce de 1965, o últi­mo que Gombrowicz escre­veu. Żuławski lan­çou o fil­me em 2015 e mor­reu em 2016; Gombrowicz, em 1969. Poderíamos ten­tar ler um sig­ni­fi­ca­do nes­sa coin­ci­dên­cia de fins de linha, mas é melhor não.

Entre a província e o mundo

Nos fil­mes de Mariano Cohn e Gastón Duprat, como este O cida­dão ilus­tre, há sem­pre uma rela­ção ten­sa e ambí­gua entre uma Argentina cul­ta, cos­mo­po­li­ta, euro­pei­za­da, e uma Argentina pro­fun­da, rude e arcai­ca. Esse con­fli­to se tra­duz inva­ri­a­vel­men­te, em ter­mos dra­ma­túr­gi­cos, nos desa­jus­tes entre um artis­ta de talen­to e seu entor­no, entre o abso­lu­to da cri­a­ção esté­ti­ca e as con­tin­gên­ci­as do coti­di­a­no. Entre arte e cul­tu­ra, em suma, enten­di­da esta últi­ma em seu sen­ti­do mais amplo, antro­po­ló­gi­co.

Família

Todo mês, a seção Primeira vis­ta traz tex­tos de fic­ção iné­di­tos escri­tos a par­tir de foto­gra­fi­as sele­ci­o­na­das no acer­vo do Instituto Moreira Salles. O autor escre­ve sem ter infor­ma­ção nenhu­ma sobre a ima­gem, con­tan­do ape­nas com o estí­mu­lo visu­al. Neste mês de maio, Silviano Santiago foi con­vi­da­do a escre­ver sobre uma foto de Chichico Alkmim.

Antonio Candido (1918–2017)

Antonio Candido foi, segun­do Paulo Roberto Pires, “o mais ele­gan­te dos trans­gres­so­res. Encarnou um Brasil que hoje, no momen­to de sua mor­te, é empur­ra­do para o obs­cu­ran­tis­mo e o con­ser­va­do­ris­mo”. Leia tam­bém nota de Elvia Bezerra lem­bran­do dois bre­ves encon­tros com o crí­ti­co lite­rá­rio, que entre 1992 e 2008 foi Conselheiro do Instituto Moreira Salles. Ainda nes­te post, arti­go, car­ta e vídeo de Candido, que mor­reu na madru­ga­da do dia 12 de maio, aos 98 anos.

Urgentes, na contramão

Não há tem­po nem espa­ço para abor­dar todos os fil­mes rele­van­tes em car­taz. Cabe então falar dos mais urgen­tes, isto é, daque­les que, por tra­fe­ga­rem na con­tra­mão do mer­ca­do, cor­rem o ris­co de ser logo expe­li­dos do cir­cui­to exi­bi­dor: Beduíno, o novo fil­me de Julio Bressane, Éden, de Bruno Safadi, e o docu­men­tá­rio Crônica da demo­li­ção, de Eduardo Ades.

Trama, treta, drama

Eu vi essa cópia nova de O que terá acon­te­ci­do a Baby Jane? (1962), de Robert Aldrich, no Festival de Londres, em 2012, e me cha­mou a aten­ção a rea­ção da pla­teia. Não sei se eu havia cons­truí­do a minha pró­pria rela­ção com o fil­me em casa, mas eu me lem­bra­va de um ver­da­dei­ro hor­ror movie. Naquela sala de cine­ma, mui­ta gen­te pare­cia rir, e logo des­co­bri que eu tam­bém ria, um tipo ten­so de riso pós-moder­no, uma libe­ra­ção cole­ti­va de ener­gia huma­na.

Crônica da demolição

A his­tó­ria do Palácio Monroe é rela­ti­va­men­te conhe­ci­da por todos que se inte­res­sam pela his­tó­ria do Rio de Janeiro ou por arqui­te­tu­ra. Eu me lem­bro de, cri­an­ça, minha mãe me apon­tar a pra­ça vazia e con­tar que ali exis­tia um palá­cio. Acontece que, tan­to para mim, como para a mai­o­ria das pes­so­as que conhe­ce o caso, o Palácio Monroe faz par­te das mito­lo­gi­as da cida­de. A gen­te sabe que exis­tiu esse pré­dio e que nenhu­ma expli­ca­ção satis­fa­tó­ria foi dada para a sua demo­li­ção — e segui­mos assim.