Escória rebelde

Nada como um blockbuster de primeira linha (e de primeira hora, se pensarmos na origem da série) para terminar um ano que não foi lá dos mais animadores em matéria de cinema. Estou falando, é claro, de Os últimos jedi, o mais novo episódio da saga Star Wars. É o oitavo exemplar da série, e um dos melhores.

A vida imóvel

A seção Primeira Vista publica todo mês textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Em dezembro, Cristovão Tezza foi convidado a escrever sobre uma foto de Claudia Andujar, realizada para a reportagem “É o trem do diabo”, publicada na revista Realidade em maio de 1969. Conhecido e premiado por seus romances, Tezza, que acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, também decidiu fazer versos a partir da foto.

Flor do Mal revisitada

Guru da contracultura no Brasil, o jornalista, diretor teatral e roteirista Luiz Carlos Maciel morreu aos 79 anos no dia 9 de dezembro sem ver publicado o livro com suas entrevistas organizado pelo amigo e editor Sergio Cohn. O lançamento está previsto para o início de 2018, mas, a pedido do Blog do IMS, Cohn apresenta aqui o depoimento de Maciel sobre Flor do Mal, o tabloide underground que editou nos anos 1970 em parceria com Rogério Duarte.

A transparência do sonho

Um clássico é uma obra que continua viva ao longo do tempo, e que é recebida de uma maneira diferente a cada geração. É o caso de A bela da tarde (1967), de Luis Buñuel, que volta aos cinemas do país em cópia restaurada meio século depois da estreia. É provável que seu impacto hoje seja bem diferente.

Crime verdadeiro

Houve uma época em que a expressão serial killer não queria dizer nada e não passaria pela cabeça de ninguém criar uma série de tevê sobre assassinos.  Em 1995 a abordagem niilista – e noir, gótica, existencial – do filme Seven, de David Fincher, recriou o gênero. 22 anos depois, os assassinatos em série já foram explorados sem limites, inclusive com canais dedicados a exibir  reconstituições de crimes reais.  Neste cenário saturado, o que ainda restaria a ser contado sobre serial killers? A série Mindhunter, do mesmo David Fincher para a Netflix, tenta uma resposta.

Cinema de corpo e alma

Em destaque, dois novos filmes brasileiros – Lamparina da aurora, de Frederico Machado, uma imersão sem freios no estranho universo poético do diretor, e Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, realizado em Manaus e centrado na trajetória de um jovem índio aculturado – e a mostra do francês Jean-Pierre Melville no IMS.

Nunca mais outra vez noutra sombra

Sempre que escrevo um livro deixo título provisório na gaveta do criado-mudo: sei que mais cedo, mais tarde, aparece o título definitivo. Foi o que aconteceu dois meses atrás quando atravessava uma rua de São Paulo. Calor infernal. Fico ao lado de poste cuja sombra tinha meio metro, mais ou menos. De repente, moça-morena-bonita pega carona nela, minha sombra. Ela percebe a invasão. Sorri. Sinal abre. Ela atravessa a rua correndo. Eu fico. Abro minha sacola de pano, pego papel, caneta e anoto: Nunca mais outra vez noutra sombra.

Rio de sangue

Não devore meu coração, de Felipe Bragança, é um filme desconcertante. Sua originalidade começa na ambientação geográfica e se estende ao roteiro e à construção formal. É faroeste, filme de gangue de moto, romance de formação, fábula política, história de amor, alegoria histórica, tudo misturado. Outro filme belo e estranho, mas numa direção diferente, é o português Colo, de Teresa Villaverde.  Os assuntos são deprimentes, mas o frescor e o vigor com que a diretora os plasma em cinema são animadores.

Feminismo radical, justiças históricas e injustiças particulares

Não me parece coincidência que a corrente das feministas radicais esteja fazendo tanto barulho no Brasil desde 2013, principalmente nas redes sociais. Até então, tínhamos uma tradição de associar movimentos feministas com lutas progressistas por justiça social, em que pese as valiosas críticas do predomínio do feminismo liberal branco entre nós. Hoje enfrentamos uma onda neoconservadora contra a liberdade, fundamentada na articulação entre leis e mercado, num estado securitário e autoritário e no pânico moral muitas vezes mobilizado pelas radfems.

A política do corpo

No momento em que o Congresso brasileiro ameaça criminalizar todas as formas de aborto, inclusive em casos de estupro ou de ameaça à vida da gestante, poucos filmes serão tão atuais e pertinentes quanto Invisível, do argentino Pablo Giorgelli. Mas não é só por isso que ele merece ser visto.