Amor,

Todo mês a seção Pri­mei­ra vis­ta traz tex­tos de fic­ção iné­di­tos, escri­tos a par­tir de foto­gra­fi­as sele­ci­o­na­das no acer­vo do Ins­ti­tu­to Morei­ra Sal­les. O autor escre­ve sem ter infor­ma­ção nenhu­ma sobre a ima­gem, con­tan­do ape­nas com o estí­mu­lo visu­al. Nes­te mês de feve­rei­ro, Antô­nio Xer­xe­nesky foi con­vi­da­do a escre­ver sobre uma foto de Hen­ri Bal­lot tira­da em Nova York em 1961, uma das ima­gens expos­tas em O caso Flá­vio.

O estatuto dos favelados cariocas

O Rio de Janei­ro é o cená­rio per­fei­to para a cons­tru­ção de um dis­cur­so de ordem, aqui enten­di­do como ape­lo de inter­ven­ção e pro­te­ção por um Esta­do for­te exa­ta­men­te onde hoje o gover­no é mais fra­co, para a con­fi­gu­ra­ção de um esta­do de exce­ção que ganha apoio nas cama­das médi­as como for­ma de pro­te­ção “con­tra tudo isso que está aí”.

O cinema contra a morte

Esca­pan­do do qua­se ine­vi­tá­vel bal­cão de apos­tas dos “fil­mes do Oscar”, o crí­ti­co José Geral­do Cou­to dá aten­ção a uma obra sin­gu­lar de um dire­tor idem. Antes do fim, o mais recen­te lon­ga-metra­gem do gaú­cho cri­a­do e radi­ca­do em São Pau­lo Cris­ti­a­no Bur­lan, faz com que a mor­te e a fini­tu­de deba­ti­da no dia a dia de um casal de ido­sos (Hele­na Ignez e Jean-Clau­de Ber­nar­det) osci­lem entre a sole­ni­da­de e a des­con­tra­ção, a tra­gé­dia e a iro­nia der­ri­só­ria.

Enterre seus mortos

Fazia tem­po que eu não pas­sa­va algu­mas horas por dia com o Edgar Wil­son, per­so­na­gem que está pre­sen­te na mai­o­ria dos meus livros. Ele sem­pre vol­ta e eu sem­pre o conhe­ço um pou­co melhor. Eu que­ria falar sobre homens e ani­mais, assun­to recor­ren­te para mim. Mas des­sa vez eles estão mor­tos e eu só pode­ria falar de algo assim seguin­do os pas­sos dele, de Edgar Wil­son, por­que ele ampa­ra todo o meu assom­bro.

O mundo em duas horas

Três anún­ci­os para um cri­me, de Mar­tin McDo­nagh, é uma impro­vá­vel mis­tu­ra de comé­dia cru­el de erros com pará­bo­la cris­tã de cul­pa e reden­ção, que ofe­re­ce uma satis­fa­ção ime­di­a­ta e des­car­tá­vel. Acos­sa­do (foto)por sua vez, é toda uma outra con­ver­sa. Com qua­se seis déca­das, o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de Jean-Luc Godard, relan­ça­do ago­ra nas telas bra­si­lei­ras em cópia res­tau­ra­da, man­tém intac­tos encan­to e fres­cor. É um dos três ou qua­tro fil­mes que qual­quer pes­soa civi­li­za­da pre­ci­sa ver pelo menos uma vez na vida.

O inominável atual

Todo lei­tor dedi­ca­do tem seus auto­res de esti­ma­ção, aque­les que acom­pa­nha, que bus­ca ler na ínte­gra. No meu caso, o ita­li­a­no Rober­to Calas­so é, sem dúvi­da, um deles. Um dos prin­ci­pais atra­ti­vos de sua escri­ta é a capa­ci­da­de que tem de fazer do lei­tor uma sor­te de par­ti­ci­pan­te. Tra­ba­lhan­do a par­tir de lacu­nas e elip­ses, faz o lei­tor pre­en­cher os espa­ços vagos a par­tir do pró­prio reper­tó­rio (como a anti­ga máxi­ma que diz que a músi­ca se dá nos silên­ci­os entre uma nota e outra).

Monstros, moral e cívica

Os ine­vi­tá­veis “fil­mes do Oscar” come­çam a se acu­mu­lar. Fale­mos sobre dois deles, extre­ma­men­te dife­ren­tes entre si: o fan­ta­si­o­so A for­ma da água, de Guil­ler­mo del Toro, e o “rea­lis­ta” The Post, de Ste­ven Spi­el­berg.

Breaking Bad, dez anos

Dez anos depois da estreia, Bre­a­king Bad, este con­to sha­kes­pe­a­ri­a­no moder­no sobre a trans­for­ma­ção de um homem comum em impi­e­do­so che­fão do cri­me, já esta­ria data­do se fos­se uma série qual­quer, toda­via per­ma­ne­ce atu­al. Foi uma das séri­es mais ino­va­do­ras da his­tó­ria da TV, cada vez mais influ­en­te nas pro­du­ções con­tem­po­râ­ne­as. Mas por quê?

Evocação do Recife”, uma leitura

Para Elvia Bezer­ra, coor­de­na­do­ra de lite­ra­tu­ra do IMS, o pri­vi­lé­gio de quem assis­te à aula de Euca­naã Fer­raz sobre o poe­ma “Evo­ca­ção do Reci­fe”, de Manu­el Ban­dei­ra, ago­ra dis­po­ní­vel em vídeo aqui no Blog, “é des­co­brir, e sen­tir, com ele, o quan­to a geo­gra­fia pes­so­al de Ban­dei­ra se uni­ver­sa­li­za e, por isso mes­mo, nos como­ve”.

Irmã das coisas fugidias

O cine­ma, entre mui­tas outras coi­sas, é uma arte do encon­tro. A pro­va defi­ni­ti­va dis­so, se é que fal­ta­va uma, é o ado­rá­vel docu­men­tá­rio Visa­ges vil­la­ges, de Agnès Var­da e JR, em car­taz no IMS Pau­lis­ta e no IMS Rio. Não só pela par­ce­ria impro­vá­vel de seus rea­li­za­do­res e pro­ta­go­nis­tas – uma cine­as­ta de qua­se 90 anos e um fotó­gra­fo e mura­lis­ta de 34 –, mas tam­bém por seu tema e seu méto­do de cons­tru­ção.