Dez dias de vibração

O 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi uma edição histórica, não só pela qualidade dos filmes exibidos e pela temperatura dos debates, mas principalmente por trazer à luz o vigor e a diversidade de uma produção cinematográfica hoje ameaçada por todos os lados – pelo desmonte das políticas de fomento do setor, pelo desmonte mais geral do país.

A felicidade genital

Em 2012 esbarrei num personagem, um falso conde chamado Emanuel, e me interessei em acompanhar suas peripécias amorosas em período impreciso do Brasil colonial. Logo percebi que se tratava de uma farsa erótica, sem nenhum rigor histórico, muito diferente de tudo que escrevi até agora.

O cinema no olho do furacão

Mais antigo do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é desde suas origens o mais imbricado com as vicissitudes políticas nacionais. No ambiente inflamável atual, é complicado discernir política e arte, cinema e ação política. Dentre os destaques dos primeiros dias desta  51ª edição estão Torre das donzelas, de Susanna Lira, Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, e Los Silencios, de Beatriz Seigner.

Essas pessoas na sala de jantar

O banquete, de Daniela Thomas, não é um filme agradável. Nem poderia. O mal-estar é seu tema, seu método e sua substância. Concentrado num jantar que reúne personagens da política, do teatro e da mídia, pode ser lido como um retrato corrosivo da sociedade patriarcal brasileira num momento de crise: os anos Collor.

Ser ou não ser canônico

Se é possível questionar autores canônicos, talvez seja justo investigar o que o próprio cânone soterrou de mais radical. Assim podemos valorizar autores excluídos até aqui e revalorizar autores incensados por motivos equivocados ou laterais.

Eu vi um Brasil no cinema

A filmografia de Joaquim Pedro de Andrade é talvez a ponte mais completa e consequente entre o modernismo literário dos anos 1920 e o cinema moderno. Relativamente pouco numerosa, atualiza de modo crítico e inventivo a investigação sobre a identidade brasileira empreendida pelos modernistas da “fase heroica”, praticando uma antropofagia da antropofagia.

Resquícios de civilização

Mesmo nas civilizações supostamente mais desenvolvidas, a barbárie está sempre à espreita. Dos filósofos humanistas aos antropólogos, dos relatos dos exploradores aos romances distópicos, frequentemente somos lembrados de quão próximos estão esses extremos.

O que não se pode ver

Ferrugem e As herdeiras: dois filmes de primeira linha, um brasileiro e o outro paraguaio. Um é habitado por adolescentes, o outro por idosas, mas no fundo ambas tratam da solidão e da dificuldade de entendimento num mundo cada vez mais inóspito, sobretudo nas pontas mais vulneráveis da vida humana, a juventude e a velhice.

Imaginário da fronteira

Pacaraima, San Diego, Sicília: a  política se faz também pela fronteira, ou apesar dela. Pessoas continuarão imigrando, num mundo em que as motivações do deslocamento são tão plurais que as categorias fixas de imigrantes e refugiados já fazem pouco sentido.

Corpos em resistência e aliança

Em seu novo livro, Judith Butler marca a importância da materialidade do corpo na discriminação entre corpos que importam e corpos que pesam. É uma forma de apontar como as demandas básicas do corpo estão no centro das mobilizações políticas.