Temporal sobre o Nobel

Não haverá entrega do Prêmio Nobel de Literatura em 2018. Esse vazio permite uma pausa para estranharmos alguns aspectos da sociedade contemporânea. Em 2016 Bob Dylan seria agraciado com o Nobel de Literatura, e aqui tento avaliar algumas questões formais dessa escolha e como ela tensiona o campo literário.

Entre o terror e o luto

A primeira imagem de O processo é uma tomada aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com a câmera avançando em direção à Praça dos Três Poderes por sobre a cerca que separa apoiadores e opositores do impeachment de Dilma Rousseff. É de um país cindido ao meio que tratará este filme impressionante.

2018 e suas memórias

Recebi um convite para uma reunião da turma da escola, 40 anos de conclusão do segundo grau. Penso nesses 40 anos quando vejo em torno de mim todas as homenagens aos 50 anos de Maio de 1968, seu espírito revolucionário, suas promessas de futuro que ainda estão aí, ora nos assombrando como fantasmas, ora nos animando a ir às ruas de novo e mais uma vez. Há debates, livros, seminários, e há sobretudo o fato de que, se na França ou na Alemanha 1968 é um marco em direção a um novo futuro, no Brasil é o ano do assassinato, pela polícia, do estudante Edson Luís, da Passeata dos Cem Mil e da decretação do AI-5.

A luz vem da Ásia

Chegam do Oriente dois filmes que, cada um a seu modo, exploram a natureza da imagem, seus sentidos, seus efeitos: o japonês Esplendor, de Naomi Kawase (destaque), e o coreano A câmera de Claire, de Hong Sang-soo.

O lugar de Luan

Acho difícil entender a birra de Tite por Luan, o jovem, móvel e objetivo atacante do Grêmio. Todo mundo tem lá suas manias, vai. Se é verdade que o Brasil tem 207 milhões de técnicos de futebol, há 207 milhões de manias latentes às vésperas da convocação da seleção para a Copa da Rússia. A mania que conta, claro, é a do Tite. E, a meu ver, ele está exagerando.

Infância selvagem

O que impede Ciganos da Ciambra de ser apenas um vívido registro naturalista de uma comunidade pobre é a dimensão moral, trágica, que adquire a trajetória de Pio. É, em essência, um romance de formação, ou antes de deformação. O filme de Jonas Carpignano é uma volta às origens do cinema italiano, a mostrar que este não se diluiu no sentimentalismo de um Tornatore nem na afetação de um Sorrentino.

Sororidad

Por um balaio de motivos, dos práticos aos patológicos, escrevo ficção muito devagar. Essa lentidão acabou transformando o que seria meu novo romance em um livro com três narrativas independentes. A primeira se chama Sororidad e narra as histórias entrecruzadas de uma mulher com disforia de espécie – nasceu humana, mas se identifica como cabra – e de um grupo de argentinas que, ao serem abandonadas nas estradas do Rio Grande do Sul, se unem para criar uma comunidade rural isolada do resto do mundo.

Corpos fora do lugar

Filmes que abolem a fronteira entre o documentário e a ficção se tornaram nos últimos tempos quase um gênero à parte. Dois novos títulos brasileiros exploram esse território ambíguo, abordando, cada um à sua maneira, temas pungentes e atuais: o documentário com aspectos ficcionais Ex-pajé, de Luiz Bolognesi, e a ficção com aspectos documentais Cidade do futuro, de Cláudio Marques e Marília Hughes.

Negativo

Primeira vista traz prosa ou poesia inédita, criada a partir de fotografias selecionadas no acervo do IMS. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Neste mês, Débora Ferraz escreve sobre uma foto de Hildegard Rosenthal, tirada em São Paulo por volta de 1940.

Mergulho no raso

Submersão, novo filme de Wim Wenders, não é ruim, embora desprovido da inquietação autoral e do grão de estranheza que caracterizavam seu melhor cinema. Já O ter­ceiro assas­si­na­to transporta o japonês Hirokazu Kore-eda a um novo pata­mar.