Meu colégio tinha um festival chamado Arteando, que revezava com a feira de ciências. Eu vinha de um sucesso estrondoso na sétima série, com um barômetro que causou sensação. Resolvi apresentar um trecho do manifesto comunista, em forma de peça. Era bem simples: primeiro entrava um amigo que representava a burguesia. A Tatiana fazia a voz do proletariado. Eu era o Marx, claro. E a gente colocou o gordinho do grupo num moletom vermelho; ele era o comunismo. Bicho, foi muito épico.
Dia de domingo – Entrevista inédita com Reynaldo Jardim
O jornalista e poeta Reynaldo Jardim, morto hoje aos 84 anos, foi o criador do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que circulou entre 1956 e 1960. O suplemento é um marco do jornalismo brasileiro por ter sido um dos propagadores do concretismo e pelos experimentos gráficos e polêmicas que abrigou em suas páginas. Na entrevista a seguir, inédita, Jardim fala sobre o processo de criação do SDJB. A conversa foi conduzida em 2007 por Daniel Trench, diretor de arte da serrote e autor de mestrado na ECA-USP sobre o assunto.
A cidade que era uma vila
A cidade de São Paulo de meados do século XIX era a mesma da época da independência, que era a mesma do século XVIII, que era bem parecida com a do século XVII. Resumia-se a uma vila instalada num planalto delimitado pelos vales do rio Tamanduateí e do pequeno rio Anhangabaú. E assim ficou por longo tempo sem se expandir. As fotos de Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) são o principal testemunho dessa cidade que o tempo apagou.
Deus, política e óculos escuros
André,
O recado foi dado. Será o bode. Gosto muito de conhecer histórias e reminiscências do teu passado de militante comunista. A política nunca fez parte da minha identidade. Tenho lá minhas convicções, leio noticiário político, penso antes de votar e tudo mais, mas essa coisa de ser de direita ou de esquerda nunca fez sentido pra mim.
É a mesma coisa com Deus.
Casal na rede
A combinação de sensualidade com brasilidade não poderia encontrar melhor expressão do que em mulheres ou casais alongados em redes. De herança indígena, e atravessando o período colonial, a rede passou a fazer parte do cotidiano de grandes parcelas da população do norte e nordeste, e foi também adaptada para as varandas nas fazendas e casas de campo paulistas, para efeitos de puro lazer, relaxamento e todas as conotações que Mário de Andrade, em Macunaima (1928), imprimiu à preguiça. Aliás, numa clássica ponta-seca, Segall retratou Mário de Andrade, de forma pensativa, fazendo anotações, sentado – não deitado, numa rede.
Todo poder aos sovietes
Oi, Daniel.
Olha, acho o bode uma boa. Não gosto muito de frase tatuada, embora uma das minhas tatuagens ? a preferida, por sinal ? tenha um “It’s aworld of pain” ali no meio do desenho, que é bem de cadeia. Gosto demais dessa tatuagem, fiz com dezesseis anos e lembro que muita gente me encheu o saco (é um cara com um buraco na barriga e o outro jogando sal na ferida). Um chapa dos tempos de BBS disse que a tatuagem tinha carma ruim, que eu ia ter uma vida dolorida. Nunca é fácil, pra ninguém.
Pickpocket
Nada parece mais distante da montagem frenética de A rede social do que o cinema contemplativo de Robert Bresson. Mas é esse paralelo que José Carlos Avellar, responsável pela programação de cinema do IMS, sugere neste texto.
Destinos do lulismo – José Arthur Giannotti e André Singer
Esta conversa marca o primeiro debate da seção “Desentendimento”. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista Serrote. Neste primeiro encontro, o filósofo José Arthur Giannotti debateu com o cientista político André Singer sobre o legado do governo Lula. O tema está na base do artigo “As raízes sociais e ideológicas do lulismo”, publicado recentemente por Singer e já um marco nas interpretações sobre o governo petista. A conversa foi conduzida por Mario Sergio Conti, diretor de redação da revista Piauí.
Duas figuras
“Ismael Nery é o mais misterioso dos nossos pintores”, diz Davi Arrigucci Jr. “O pintor nele se casava ao filósofo, ao arquiteto, ao bailarino, ao militante, ao poeta. E de fato pintava com partes de todos eles, exprimindo em suas telas sua extraordinária e complexa personalidade.” As afirmações do crítico estão neste texto sobre a tela “Duas Figuras”, de Ismael Nery, que dá início à série “Quadro a Quadro”. Nesta seção, críticos convidados pelo IMS escrevem sobre trabalhos que pertencem ao acervo de artes plásticas do Instituto.
