Desde a adolescência, minha relação com exercícios é de certa forma análoga à minha relação com os livros ou com o intelecto em geral: há um aprendizado infinito no enfrentamento de cada um desses mundos e, embora sejam diferentes a ponto de parecerem contraditórios para muita gente, eles são na verdade manifestações complementares, e igualmente importantes, do nosso organismo. Nunca achei que a mente – ou a alma – habitasse o corpo. Mente e corpo são a mesma coisa, e a sensação de que uma habita o outro é apenas uma piada não-intencional da consciência.
Robert Wilson no IMS-RJ – Diário de montagem
Retirar spots da pequena galeria, pintar canaletas, esconder fios, conferir legendas/créditos/serviço/ correções nos textos de parede, aplicar foam board branco na lateral das telas, testar novo blu-ray, agendar taxista para levar os americanos ao aeroporto na quarta, fechar brisés do corredor. Que mais é preciso para montar uma exposição? Veja no relato de Priscila Sacchettin, assistente de curadoria do IMS.
Nonada
Mas eu gosto de nadar, sim. O que não suporto é o exercício por obrigação, a fadiga, superar limites, essas porras. Acho uma grande papagaiada, mas tudo bem. Entendo, admiro e respeito quem curte, de verdade, mas o esporte profissional é um mistério pra mim. Não consigo imaginar que alguém passe a vida acordando cedo e sofrendo o dia todo para chegar antes que outra pessoa numa corrida, ou marcar mais “cestas”, ou sei lá o quê. Todavia, imagino que esportistas devem sacanear quem joga boxe no videogame, então estamos quites.
O mundo que se adapte
Como estou meio duro e cheio de trabalho, achei que não conseguiria pisar na praia esse verão, mas minha amigona Gaby me convidou pra passar uns dias com ela e a família numa casa que alugaram aqui na Pinheira e ontem fui obrigado e levantar da frente do computador balbuciando “o mundo que se adapte”, enfiar umas roupas na mochila e partir.
A sagração de Pina
Pina 3D corria na tela do Festival de Berlim ja há algum tempo quando um corte seco, bruto, de todo inesperado, devolveu o espectador ao cinema. Até então ele estava no teatro. No palco do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. A sagração da primavera, a música de Stravinski dançada no teatro de Pina.
Proust, Mario Bros e o Sr. Gallimard
Fala, bicho,
Excelente o fim de semana, hein? Pena que não deu para virar o Super Mario Galaxy 2. Todavia, considero dez horas de jogo e cerca de vinte e cinco estrelas conquistadas um feito e tanto, ainda mais por termos passado daquela fase nauseabunda, que custou duas horas do domingo. E engraçado que você tenha falado de memória. Passei duas horas assistindo o seu ser vital se desmanchar em frente à tevê. Fracasso após fracasso, humilhação após humilhação, você seguia tentando marcar os impossíveis seiscentos pontos em quarenta segundos, que o macaco de chapéu no início da fase exigia.
Depois de cerca de uma hora e meia de jogo, quando todos os traços de raiva tinham se dissipado, quando não havia mais alma para ser esmagada pelo peso da derrota, você começou a jogar no automático, apelando a um tipo de memória que, me parece, está reservada apenas a jogadores de videogame e malabaristas de semáforo. O que antes era uma tentativa racional de estourar os balões no limite de tempo ? tarefa tornada impossível pelo algoritmo satânico, que limitava sua pontuação a um máximo de 590 pontos ? tornou-se um caminho de rato, tão automático e natural quanto respirar ou causar sofrimento.
Não estou querendo desmerecer, pelo contrário. Se eu tivesse passado daquela fase, consideraria um dos grandes feitos de minha vida, sem ironia ou falsidade, e sei que você também pensa assim. Na última rodada, nem parecia um jogo. Era só andar exatamente por aquele caminho, exatamente naquele ritmo, sem esbarrar em absolutamente nada, como se fosse uma gravação. De fora, pareceu fácil demais, como se as dezenas de tentativas anteriores tivessem naufragado por culpa sua, e não pela maldade do programador japonês. Ainda assim, você vai guardar muito mais a memória das 199 derrotas do que a da vitória, é claro.
Gosto demais dessa teoria sobre a memória, de que o subconsciente trabalha sempre para enterrar as lembranças felizes e para fazer aflorar só miséria e ruína. Por isso um trauma não pode ser superado por um acontecimento feliz, por exemplo, e apenas quando ruminamos sobre o próprio trauma. É uma maneira bastante sofisticada, do ponto de vista evolutivo, de tornar a existência moderadamente tolerável. Juro que não estou fazendo drama ou tipo, inclusive nem acho que seja uma teoria pessimista. O fato de que vamos perdendo as coisas boas dia após dia torna tudo mais interessante.
Tenho aqui em casa um livro de cartas entre o Proust e o editor dele. Claro que não li tudo, tem umas oitocentas páginas, e eu não li nem o Proust ainda, então oquei. Mas de vez em quando dou uma folheada, tem uns momentos bastante ilustrativos de tensão editor-autor que eu aprecio muito. Minha parte favorita é quando eles começam a examinar as provas de prelo, depois da entrega do primeiro manuscrito. Conforme ia corrigindo pastéis e ajustando o texto pronto, o autor ia inserindo novos trechos na margem, para serem incorporados em uma nova prova de prelo.
Se até hoje não é recomendável adicionar trechos longos em um texto que já está em prova, só posso imaginar o que sofreram os tipógrafos da época, remontando o livro na unha versão após versão. E sempre que se insere texto, brotam erros, o que exige nova revisão e nova leitura pelo autor. Que mais uma vez espremia trechos longuíssimos nas margens, dando início a outro ciclo de desespero do Sr. Gallimard. Eles eram amigos e tudo, e na verdade ele era um editor (muito) tolerante. Mas chega um determinado momento que ele implora ao Proust que entregue o livro finalizado (acho que é o terceiro volume, o segundo que o Gallimard editou).
A resposta é muito matadora. Procurei aqui e não achei, alguma hora te mando. Mas o Proust faz uma longa defesa do método, argumentando que o cerne daquela história é a memória involuntária. Essa seria uma memória vertical, onde todos os acontecimentos coexistem fora da cronologia que improvisamos para nossas lembranças. De modo que, ao tentar reproduzir essa memória, era impossível que ele, o autor, barrasse a entrada de novas lembranças que, por sua vez, estavam sendo puxadas pelo próprio livro. Minha primeira reação é sofrer muito, em solidariedade ao editor. Mas acho bacana essa idéia de memória vertical, e aparece de um jeito ou de outro em uma porção de livros que eu gosto.
Olha só, não vou para o lançamento do Sica hoje. Estou um pouco corrido na editora, teria de sair no fim da tarde e voltar amanhã bem cedo, e o lançamento em São Paulo já é na sexta. Mas em março apareço aí, acumulei umas milhas e dá para passar um fim de semana sem ter que se preocupar com trabalho. Levarei Super Mario Galaxy 2, obviamente. Gosto da idéia de pegar táxi, fila, avião, fila e táxi para me enfurnar no seu apartamento e jogar videogame. Todavia, estou com saudades de todos aí e será massa comer churrasco na Portoalegrense, seguir até o Parangolé (onde todos discutirão mais uma vez se a garçonete se parece ou não com a Milla Jovovich) e depois terminar no Cabaret, fazendo air guitar com nossa amiga Bruna.
Em nota relacionada, gostei do som na festa de sexta, muito embora não tenha ouvido você tocar Rudimentary Peni conforme havia prometido. Mas entendo, não era o público adequado, e imagino que a sensação de se esvaziar uma pista às duas da manhã não deva ser boa. Ainda assim, pena que a gente se desencontrou. Acabei ficando na varanda, onde o tabagismo era liberado, e depois me arrastei até um táxi. Minha última lembrança é o Rafa passando de braços para cima, tentando roubar um brigadeiro da bandeja daquela moça vestida de Mulher-Maravilha.
O que contradiz um pouco a teoria das memórias miseráveis, mas enfim.
Abraço,
André.
Esquerda, direita e outras vias – Marcos Nobre e Luiz Felipe Pondé
Neste segundo encontro da seção “Desentendimento”, os filósofos Marcos Nobre e Luiz Felipe Pondé debatem sobre os conceitos políticos de esquerda e direita. A mediação ficou a cargo do jornalista e diretor de redação da Folha de S.Paulo Otavio Frias Filho. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista serrote.
Cápsulas do tempo
Há evidência científica sólida de que as memórias são alteradas no cérebro cada vez que as evocamos. Não é só que a narrativa mental construída a partir dos registros se altera: os próprios registros se alteram. Cada vez que resolvo pensar naquela noite de ano novo e evoco as poucas peças do quebra-cabeça que sobreviveram à amnésia alcoólica, o desenho das próprias peças muda um pouquinho, quiçá muito. Em certo sentido, recordar é literalmente reviver.
Hullo old chaps
Acabou que tomamos um porre gigantesco de gim e rum, num pub infecto ao lado de King’s Cross. Duas mulheres bem mais velhas que nós estavam jogando dardos, e a gente praticou o gangsterismo afetivo intenso pra cima delas, ainda que sem sucesso. Derrotados, voltamos aos berros pelo metrô e comecei a notar que meu chapa era encrenqueiro. Na descida da escada rolante, ele virou a bunda para dois engravatados que vinham na outra direção e fez um HULLO OLD CHAPS, mexendo as nádegas.
Meu patrício, aí tens o mate!
Conti, eu gosto de ficção em prosa e videogames. De narrativas. Pra todo lado que eu olho, vejo apenas semântica e sintaxe em arranjos de interesse inesgotável. Gosto de ondas, de água em geral e de silêncios prolongados. De cães e de seres em estado natural. A ausência de civilização me instiga, embora eu seja dependente da civilização. Sou um verme reacionário e egocêntrico? Às vezes me preocupo um pouco com isso. A pergunta não é jocosa, mas não precisa responder. Um bom amigo às vezes é alguém que propicia sentido ao ato de falar sozinho.
