Tenho muitos textos em andamento. Estas são as páginas iniciais de Carta à rainha louca, romance em que estou trabalhando agora para finalizar no primeiro semestre de 2017. Há anos que trabalho nele, por períodos. Tem origem bem antiga: nos anos 1970 e 1980 eu me meti a historiadora e fui buscar a vida das mulheres brasileiras no período colonial. Descobri coisas incríveis, mas os trabalhos que produzi naquele tempo tinham um estilo acadêmico, onde só cabia uma suposta “objetividade” dos fatos. Fiquei sempre com um sentimento de dívida para com aquelas mulheres, e a vontade de dar-lhes voz e vida. Daí esse romance, bem diferente dos outros que escrevi.
Mundo musical paralelo
Arthur Dapieve faz um apanhado da recém-concluída série A voz humana, idealizada e apresentada pelo poeta Eucanaã Ferraz na Rádio Batuta, um fascinante recorte do que homens e mulheres podem fazer com o ar e uma laringe.
Todo mundo mente
Na experiência cotidiana, estamos todos diante da impossibilidade de distinção entre verdades e mentiras – da timeline do Facebook ao noticiário, dos discursos dos políticos aos programas dos candidatos, da publicidade aos grandes juristas, do plebiscito inglês que promoveu o Brexit ao futuro presidente dos EUA, Donald Trump, do Congresso ao STF, numa lista infinita de exemplos que 2016 não nos deixará esquecer tão cedo.
O fator humano
Diante de um filme como Sully, de Clint Eastwood, o espectador ingênuo tem a impressão de que tudo estava dado de antemão – o acontecimento real, os personagens, o drama – e de que bastavam os recursos materiais e tecnológicos disponíveis em Hollywood para colocar essa história na tela. “Com um material desses, qualquer um poderia ter feito esse filme”, diria ele. Ledo engano.
O porto seguro de Otto
Em que pese a obra de Otto Stupakoff ser mais ampla e rica quando realizada em ambientes externos, portanto muito mais afeita ao imponderável e ao improviso, ele, entre idas e vindas, acabou tendo diversos estúdios. Em todos eles foi muito produtivo, e todos, ao final, se configuraram como antíteses de um estúdio formal. Mesmo o primeiro, em Porto Alegre, construído especialmente como tal, guardava características de um “não estúdio”.
Transfiguração ao contrário
Nos últimos anos, o empreendimento de olhar para a própria vida e tentar narrá-la tem aparecido em uma série de romances de autoficção. Além disso, recursos metanarrativos se misturam a perspectivas atravessadas pelas artes visuais, que aparecem em situações do enredo. A aproximação entre autoficção e arte pode ser explicada tanto pela insuficiência dos formatos, em tempos de vida compartilhada pela internet – seja da literatura, da história ou das artes – como também pela arte ter adquirido uma dimensão mais narrativa, que necessita de uma espécie de percurso investigativo para ser acompanhada.
Como mergulhar em Blow-up
Há duas maneiras, não necessariamente excludentes, de ver Blow-up (1966), a obra-prima de Michelangelo Antonioni que volta em cópia restaurada aos cinemas brasileiros no ano em que completa meio século de idade. A primeira abordagem atentaria para aquilo que, no filme, serve como retrato de sua época. Visto assim, seria apenas um documento histórico, uma encantadora peça de museu. Mas há um modo mais produtivo de mergulhar nesse filme imenso e buscar as razões de sua persistente vitalidade.
Kleber Mendonça Filho no IMS
A partir de dezembro o Instituto Moreira Salles conta com um novo coordenador de cinema. O cargo, anteriormente ocupado pelo crítico José Carlos Avellar, que morreu em março deste ano, está agora nas mãos do cineasta e crítico pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor dos premiados O som ao redor e Aquarius.
Para compreender o riso
Se a função social do humor na intimidade responde às iniciativas e às necessidades de quem está inserido naquela relação, na esfera pública tudo é bem diferente. Excluir as mulheres do jogo, que não podem tomar para si a iniciativa de fazer graça e de discutir o cômico, é uma forma de tornar o humor um privilégio de alguns. Pior ainda é perturbar um coletivo de milhões com a tentativa de puxar o riso quando há emoção e há choro. O humor é humano e é social.
Filmes shakespearianos
Laurence Olivier, no prefácio que escreveu para a edição do roteiro de seu filme Henrique V (1944), afirma que “Shakespeare, de certa forma, escreveu para o cinema”. Olivier argumenta que, mais do que qualquer outra forma de escritura dramática, o teatro shakespeariano se prestaria, pelas suas próprias características formais, ao tratamento cinematográfico. Que características seriam essas? Roberto Rocha explica.
