Metafísica da luz

Muito se falou sobre o misticismo de Carl T. Dreyer, seu depurado cristianismo, sua elevada espiritualidade. O interessante é investigar como essas inquietações íntimas se traduzem em cinema. Em grande, imenso cinema. Perfeitos em sua composição, em seu equilíbrio estético interno, em seu ritmo, em seu controle absoluto da luz, dos enquadramentos e dos movimentos de câmera, seus filmes, para o crítico André Bazin, estão entre as “raras obras cinematográficas que sustentam a comparação com as melhores produções da pintura, da música ou da poesia”.

O som ao redor

Dizer que o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abrigará, entre setembro e novembro, a maior e mais abrangente exposição do albanês Anri Sala no Brasil é apenas uma meia verdade. Isso porque a casa na Gávea, projetada por Olavo Redig de Campos e considerada um marco da arquitetura moderna da década de 1950, não servirá somente como galeria para Anri Sala: o momento presente. Muito além disso, a casa é uma coadjuvante de peso da exposição, projetada especialmente para o espaço, evidenciando a relação entre som e arquitetura que o artista vem explorando cada vez mais em seus trabalhos.

Estas águas, este país

Não há lugar melhor do que o MAC para uma exposição sobre as águas da Guanabara, suas vidas e suas mortes. Localizado diante da entrada da baía, entre as duas fortalezas que a protegeram nos séculos XVI e XVII – Santa Cruz, do lado de Niterói, e São João, do lado carioca –, é parte do cenário da baía assim como a baía faz parte do museu, com suas janelas envidraçadas exibindo toda exuberância do que se pode chamar de ponto fundador não apenas do Estado do Rio de Janeiro, mas do Brasil como Estado-nação, suas vidas, suas mortes.

Por que o leão ruge

Em setembro de 2015, durante a visita de Anri Sala ao IMS-RJ em preparação da exposição Anri Sala: o momento presente, foi proposto ao artista que escolhesse um conjunto de quatro filmes, uma carta branca para que ele indicasse obras e cineastas de sua preferência como uma espécie de complemento à exposição. Diante do convite, Sala fez uma contraproposta: ao invés de listar suas influências, sugeriu que fossem exibidos alguns filmes que fizeram parte de seu trabalho Why the lion roars (em português: Por que o leão ruge).

O corpo que resiste

Tudo o que aconteceu e ainda está acontecendo em torno de Aquarius – o protesto da equipe em Cannes contra o golpe parlamentar no Brasil, a controvérsia em torno de sua possível seleção para concorrer ao Oscar, o vaivém da classificação etária – condenou o filme de Kleber Mendonça Filho a adquirir, para o bem ou para o mal, uma dimensão política ainda maior do que a já contida em seus 142 minutos. Tentemos, tanto quanto possível, deixar de lado essa reverberação extrafílmica para nos concentrar naquilo que Aquarius põe na tela.

Uma criança grande demais

Há relatos sobre Robert Walser, durante sua passagem por Berlim entre 1905 e 1913, que o comparam a uma criança gigante, inconveniente, que conta piadas que ninguém entende e ri fora de hora. O humor e o drama dos textos de Walser vêm dessa inconveniência. Os personagens estão sempre ligeiramente fora do lugar. É ao mesmo tempo engraçadíssimo e inconsolável.

Estado de graça

O que há de novo em Café society, filme mais recente de Woody Allen? A rigor, talvez nada. Mas, mais do que suma, talvez uma palavra melhor seja depuração. O cineasta parece ter podado as arestas de ansiedade, a incontinência verbal que às vezes fazia as palavras darem a impressão de não caber na imagem e no ritmo de seus filmes. Aqui tudo flui com uma segurança e uma elegância que alguns grandes artistas encontram em suas obras de maturidade.

Quatro crises por uma

O julgamento que começa nesta quinta-feira no Senado é resultado de um processo de impeachment, cuja legitimidade é questionada pelo uso de outra palavra, golpe. Como aconteceu em 1964, quando a polaridade era entre golpe militar ou revolução redentora, hoje a política se faz em torno da disputa por significantes. Participam deste discurso termos como crise, pacto e misoginia, evocado pelos movimentos feministas para mostrar o quanto há de discriminação contra uma mulher no poder. O problema das palavras é o que elas dizem das coisas e o que eventualmente elas omitem. Crise, por exemplo, por gasta, se esvaziou de seu sentido de tal modo que me parece necessário qualificá-la.

Rio 2016: o dia seguinte

Chegamos ao dia seguinte. E o Rio perde o sentido de existência que o moveu pelos últimos seis anos e meio. A análise histórica, de tão repetida, já se banalizou: desde que a cidade passou a ser uma ex-capital da República, foram décadas titubeando em longos períodos de decadência, até o belo 2 de outubro de 2009 quando nós, incrédulos cariocas, vimos que aconteceria o até então improvável – sediaríamos as Olimpíadas. E sediamos.

O primeiro momento

Anri Sala: o momento presente é a primeira apresentação ampla no Brasil do artista albanês Anri Sala, um dos nomes mais importantes no cenário contemporâneo internacional. Trata-se de um projeto que compreende duas exposições no Instituto Moreira Salles. A primeira delas abrirá na sede do IMS do Rio de Janeiro no dia 10 de setembro, às 17h, com uma conversa entre o artista e a curadora Heloisa Espada.