Os mortos-vivos

A arte contemporânea reitera o que o espectador já sabe ou já viu, e passa a ser uma arte da explicação e do reconhecimento, escreve Bernardo Carvalho. O espectador a entende e a acha original na medida em que a reconhece como uma ilustração mais ou menos engenhosa dos discursos que circulam no mundo. A pintura figurativa de Michaël Borremans, ao contrário, não diz, não ilustra nem explica nada. É o mundo que morre e renasce com ela.

A melancolia autoirônica de “Avanti popolo”

Avanti popolo, de Michael Wharman, trata da morte das utopias na figura de um quarentão que retorna à casa do pai (interpretado por Carlos Reichenbach em participação cheia de significados) em busca em memórias do irmão, um dos desaparecidos da ditadura militar. Entre velharias tecnológicas e ideológicas como filmes de super-8 e hinos revolucionários, o protagonista procura dar sentido à história da família. 

 

No país das fraturas expostas

Como explicar a um estrangeiro que a presidente do país, vaiada e insultada no estádio, é a mesma que lidera por larga margem as pesquisas de intenção de voto? Como justificar tanta polícia para reprimir tão poucos manifestantes? São perguntas que José Geraldo Couto faz na estreia de sua série sobre a Copa. Ele mostra que, nas competições anteriores, o desempenho da seleção não ajudou ou prejudicou governos. Mas que erros da arbitragem como o do japonês no jogo contra a Croácia alimentarão a pitoresca teoria da conspiração da “Copa comprada”. 

Confissões de um autor paranoico

A peça fala de um mundo em decomposição, estrangulado entre a crise financeira e a ascensão da extrema direita. Estreou em Bruxelas poucos dias após o atentado ao museu judaico da cidade e das eleiçõs europeias que fortaleceram a Frente Nacional, de Marine Le Pen. O autor está desconfiado de tudo, até dos aplausos.

Até que enfim não vai ter Copa

Com #nãovaitercopa, a história que nos impuseram na memória sobre a Copa de 1970 pode enfim começar a ser desconstruída. Se naquela época a exceção era política, hoje ela é econômica, promovida pela Fifa e ditada pelos interesses do capitalismo global, que estabelecem as novas regras do silêncio.

Onde está Waly?

O lançamento de Poesia total, reunião de todos os livros de Waly Salomão, permite que se avalie a força de sua obra dissociada de sua presença performática, de artista verborrágico, cujos poemas parecem querer saltar da página.

Como nascem os monstros

O lobo atrás da porta, do estreante Fernando Coimbra, é um suspense sem fórmulas fáceis que apresenta uma leitura pertinente da realidade brasileira atual. Com Fabiula Nascimento e Leandra Leal, o filme não tem vilões. Em vez disso, mostra o quão terrível é pensar que pessoas normais sejam capazes de atos monstruosos.

Um pinto contra Francisco Sá

Briga entre uma estudante de direito e um porteiro em Copacabana expõe os limites do feminismo branco e de classe média, que ignora a relação entre as diversas formas de opressão, como cor e classe social.

Brasileiro e carioca

Para homenagear o crítico e pesquisador Lúcio Rangel por ocasião de seus 60 anos, Paulo Mendes Campos transcreveu numa crônica o que chamou de “Letra de choro para Lúcio Rangel”: um passeio poético por paisagens e personagens do Rio, tudo terminando em Pixinguinha. O IMS lançou nova edição de Sambistas e chorões, livro fundamental de Lúcio.

A água e os sonhos

Em Elena, filme que será lançado em DVD pelo IMS neste domingo, às 16h30, a diretora Petra Costa se vale da Ofélia, de Shakespeare, e de outras referências para contar a história do suicídio da irmã e de sua própria dor, que nunca termina, mas é transformada para que nem tudo se reduza a um processo de repetição ligado ao trauma.