Nas biografias de Clarice, narra-se que a escritora desde muito cedo destruía seus manuscritos. Os originais de A hora da estrela e de Um sopro de vida, mais do que raros, impõem-se como legítimos sobreviventes ao ímpeto “charticida” de Clarice. Mas o que lhes garantiu sobrevida frente aos demais, que foram eliminados?
O descobrimento do Brasil
Nesta terça-feira, dia 23, o Centro Cultural do Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro recebe o cantor e compositor Moraes Moreira e seu show em que apresenta – acompanhado do filho, Davi Moraes – as composições do antológico disco Acabou chorare (1972), obra do grupo Novos Baianos, que integrava ao lado de Baby Consuelo, Pepeu Gomes, entre outros. Neste texto, Luiz Fernando Vianna conta sobre a concepção do disco e as virtudes do grupo.
Ainda os boleiros e outros tópicos
Você, com certeza, sabe que o apelido de Heleno era Gilda, por causa da personagem do cinema interpretada por Rita Hayworth, bela, boêmia e temperamental, assim como foi Heleno, só que no masculino. Chegou aos meus ouvidos que uma vez o Heleno, jogando pelo Botafogo contra o Fluminense, em Laranjeiras, depois de ouvir em coro a torcida tricolor gritando “Gilda, Gilda”, fez um gesto obsceno para a social do Fluminense. A polícia teve de fazer o possível e o impossível para evitar uma invasão de campo, coisa aliás comum naquela época.
Ruy Guerra e quase memória
Ruy faz um cinema que dança diante dos olhos para nos sugerir que importante, de fato, é ver o que não se encontra ali, visível. O que se dá a ver, mesmo se coisa vistosa, de encher os olhos, é apenas uma imagem meio imprecisa de um especial momento vivo que descobrimos / inventamos / vivemos (estimulado pelo rastro deixado no filme) e guardamos para sempre na memória. A queda é feito sinal pequeno que nos ajuda a reconstituir, no vazio entre as imagens, graças à estrutura invisível que depois da projeção ordena e acende imagens na memória, o que um certo dia a gente viveu ou viu quando viu o filme.
Ruy Guerra e dois filmes em portunhol – por Eduardo Ades
O cinema brasileiro estava apartado do público, procurando reelaborar sua estética e, principalmente, seu diálogo com as plateias. Esse era o caminho trilhado tanto pelos cineastas mais associados ao cinema comercial, como é natural que seja, como por aqueles associados ao cinema de arte. Assim, para citar os exemplos mais conhecidos, foram feitos filmes como O que é isso companheiro? e Central do Brasil, Bossa nova e Baile perfumado. Todos, com exceções muito pontuais (como Julio Bressane), procuravam uma forma mais correta e, especialmente, uma certa eficiência narrativa.
Luxo para todos
Devo confessar, porém, que vou pouco ao teatro. Não chego a ser da turma do “Vá ao teatro, mas não me convide”, mas quase sempre acabo optando pelo cinema na hora de sair de casa. No cinema, se o filme for aborrecido, a gente pode cochilar ou sair no meio sem criar constrangimento. No teatro, somos frequentemente acometidos pela “vergonha alheia”, quando não pelo ímpeto de subir ao palco e esganar certos atores, ou pedir a cabeça do diretor.
Forma breve – quatro perguntas a Ricardo Piglia
“Como lê quem escreve ficção?” Esse é o ponto de partida do meu trabalho. Sempre me interessei mais pela experiência do escritor como professor. Borges claro, mas também Valéry, Nabokov, Michel Butor, Saer. Nos escritores por quem me interesso há sempre uma matriz didática. É daí que nasce a vanguarda.
A palavra encenada
Mas não poderia falar de teatro sem mencionar aquele espetáculo, no meu entender e no de muita gente, o maior de todos já realizado no Brasil, Macunaíma, de Antunes Filho, dirigindo uma adaptação do francês Jacques Thieriot do romance de Mário de Andrade. Aliás, Antunes não negava, entre suas influências, Bob Wilson, assim como Kazuo Ohno e Pina Bausch.
Como fiquei amigo do pessoal do grupo do Antunes, fui convidado algumas vezes para ver os bastidores de Macunaíma e de Nelson Rodrigues, o eterno retorno, também do diretor paulista. Esta experiência está narrada no meu conto “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro”, e também posso dizer que nunca mais fui o mesmo depois dela.
Escritores no set
Até hoje há quem diga que só livros ruins rendem filmes bons – e um exemplo muito citado é o dos ótimos filmes de Hitchcock inspirados em obras medíocres de Daphne Du Maurier (Estalagem maldita, Rebecca, Os pássaros). Mas há os contraexemplos incontestáveis: de Morte em Veneza (Mann/Visconti) a Vidas secas (Graciliano/Nelson Pereira), são inúmeros os casos de filmes que dialogaram de igual para igual com as obras-primas que os inspiraram. (Isso para não falar dos livros ruins que geraram filmes igualmente ruins.)
Paranoia sem mistificação – quatro perguntas sobre Roberto Piva
Iconoclasta e socialmente inadequado, o paulistano Roberto Piva marcou a poesia brasileira. Morto em 2010, aos 72 anos, deixou como legado, em livros como Paranóia e Coxas, uma literatura vibrante que é também retrato de uma época em São Paulo. Os Dentes da Memória – Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia, escrito pelas jornalistas Renata D’Elia e Camila Hungria, reconstrói a vida do poeta e dos seus companheiros de lida. Renata D’Elia respondeu a quatro perguntas do Blog do IMS sobre Piva.
